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29.12.07

Cartas de amor de Rodolfo Valentino



Os últimos pensamentos do formoso galã foram para Peggy Scott, a humilde bailarina dos cabarets de Londres. Pouco antes de morrer, Rodolpho Valentino teria segredado aos ouvidos de seu velho amigo Francisco Menillo alguma coisa muito sagrada, pois que este só a comunicou, e debaixo das maiores reservas, a Alberto Guglielmi, irmão do falecido. Indiscrições ulteriores fizeram crer que as ultimas palavras de Valentino não se referiam a nenhuma de suas esposas, nem mesmo a Pola Negri, com quem dizia que ia casar-se muito em breve.

A mulher a quem tal segredo se referia nunca saberá que os últimos pensamentos dele foram para ela. Assim que a morte do famoso galã da tela se tornou conhecida em todo o mundo, a misteriosa mulher das ultimas confidencias do ator se revelou, ingerindo uma dose fatal de veneno. Era Peggy Scott, de vinte e cinco anos de idade, dançarina de cabaret e artista acidental de cinema. No chão, junto ao cadáver da tresloucada, foram encontradas varias cartas de Valentino.

Essa correspondência revela não só uma aventura sentimental secreta do "sheik", como também explica porque é que Valentino não conseguia viver em harmonia com nenhuma de suas esposas; mostra que essa aventura secreta, caso Valentino tivesse conseguido resistir á molestia que o vitimou, teria tido um fim trágico e, além disso, reflete o curioso estado e espírito do galã em face ao casamento e com relação ás mulheres. Evidentemente, houve na vida de Valentino uma fase que Pola Negri ignorou até o fim. Do contrario, nunca teria pensado em casar-se com ele.

Em 1921, quando ele e Peggy se conheceram em Biarritz por intermédio de Jack Pickford, que os apresentou, constituíam, evidentemente, um para o outro, o tipo do "companheiro de divertimentos e alegrias", que Valentino preferia. Nessa época, ele era um ator pobre e desconhecido. Como essa linda e romântica dançarina de cabaret não fizesse nenhuma tentativa por dominar a vida de um jovem pobre e que acabava de contrair as suas primeiras núpcias, Valentino supôs, quando chegou a homem rico e de fama mundial, que o caráter da jovem seria sempre o mesmo.

Mas Peggy não se conformou em ver Valentino de vez em quando. Queria estar a seu lado constantemente e, como não o conseguia, buscou consolo na cocaina. O famoso galã soube-o e escreveu-lhe: "Entristece-me realmente o que as suas cartas me sugerem e o que me contam alguns amigos que a viram. A cocaina é alguma coisa de maldito que destruiu muitas almas e muitos corpos. Recordo-me ainda vivamente do fim trágico do pobre Jack Pickford. Procure extirpar esse vicio como si se tratasse de uma chaga viva no corpo. Tenho remorso, ás vezes, quando desconfio que esse vicio terrível você o tenha adquirido em contacto com as pessoas a quem apresentei, na primeira vez em que nos vimos. Eu não sabia que ponto aquelas pessoas estavam corroídas por esse monstro hediondo que agora ameaça aniquilar a sua saúde".

A resposta de Peggy foi apaixonada e se refere ás relações do grande ator com Pola Negri. "Que valor e que autoridade podia ele ter - dizia a carta - para tentar combater um vicio dela, se não fazia por ela o que estava fazendo por Pola Negri?"

Valentino respondeu: "Tire da cabeça essa ideia de que Pola Negri é sua rival. Ela nunca me produziu a impressão que você me produziu e nunca ha de ocupar o lugar que você ocupa na minha vida... Mais uma vez lhe peço que abandone a ilusão de que você é um gênio que poderá conquistar a gloria do fim do dia parta a noite. Se dependesse de mim eu a levantaria nos meus braços até a fama, mas lhe asseguro que não está em meu poder. Sou apenas um escravo dos outros, uma peça infima de uma grande machina construída e dirigida por outros".

Apesar do temor que manifesta a respeito do casamento e das mulheres não ha duvida que essa modesta bailarina exerceu influencia descisiva no seu espirito e que ele a amou como a nenhuma outra mulher na vida. Peggy Scott retribuia-lhe esse afeto de maneira excepcional. Basta dizer que o demonstrou com o gesto extremo: suicidando-se no dia em que lhe chegou a noticia da morte do seu amado. Amava-o e temia-o, tanto assim que nunca poz em pratica a sua ameaça, tantas vezes repetida nas suas cartas, de se mudar para os Estados Unidos, afim de ficar mais perto de Valentino. Viveu sempre em Londres. Quando o celebre galã andou por lá. Peggy Scott portou-se discretamente, não querendo que a sua presença pudesse perturbar a paz de espirito do homem amado.

Publicado na Folha da Manhã, quinta-feira, 30 de dezembro de 1926

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