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18.12.07

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é tudo de bom. Já disse uma vez que odeio poetas. Sim, odeio, mas aqueles que se repetem a vida toda, falando sobre as mesmas coisas. Pessoa nao é assim, ele nem é um só, é vários. O que eu mais gosto é o Alvaro. Tem um poema dele que me emociona muito , nem lembro o titulo, talvez nem tenha, mas que diz assim "SOu lúcido, já disse sou lúcido!". Bom, eu tinha decorado, na época em que eu fazia letras. Mas esse que coloco abaixo, tem importancia grande, dos tempos das aulas do mestre Zé Rodrigues (que saudade), em que nosso grupinho de estudos (sala pequena, só 7 alunos!) estudava literatura portuguesa. Ali aprendi a amar esse cara. E numa das aulas, um colega se emocionou lendo-o. Acabamos todos lendo, porque no final das contas, cada poema acaba sendo um pedacinho de nós mesmos. Não é? Foi esse o poema:
ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,Eu era feliz e ninguém estava morto.Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,De ser inteligente para entre a família,E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,O que fui de coração e parentesco.O que fui de serões de meia-província,O que fui de amarem-me e eu ser menino,O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...A que distância!...(Nem o acho...)O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,Pondo grelado nas paredes...O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),O que eu sou hoje é terem vendido a casa,É terem morrido todos,É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,Por uma viagem metafísica e carnal,Com uma dualidade de eu para mim...Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,com mais copos,O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!Não penses! Deixa o pensar na cabeça!Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!Hoje já não faço anos.Duro.Somam-se-me dias.Serei velho quando o for.Mais nada.Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos, 15-10-1929

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