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19.12.07

The Kid: a história de um filme, ou o filme de uma vida: Jackie Coogan

“Depois de Idílio Campestre, eu me sentia inteiramente vazio de idéias. Em busca de um alívio para esse desespero fui ao Orpheum à procura de distrações e, nesse estado de espírito, vi um dançarino excêntrico, que nada tinha de extraordinário, mas que, ao terminar o número, trouxe ao palco o seu filhinho, garoto de quatro anos, para o agradecimento ao público. O garoto de súbito deu alguns engraçados passos de dança e, lançando um olhar de inteligência a platéia, fez alguns acenos e desapareceu nos bastidores. A platéia delirou. Isso poderia ser uma banalidade em se tratando de qualquer outra criança, mas Jackie Coogan era realmente um menino encantador. Fizesse o que fizesse, o garotinho possuía uma aliciante personalidade.” (Charles Chaplin, em “Minha vida”)

E foi assim que surgiu uma das duplas mais famosas do cinema, capaz de fazer rir e chorar em The Kid. Após esse encontro, Chaplin ficaria algum tempo sem ouvir falar ou pensar no garotinho. Esse foi um período complicado na vida de Chaplin, sua primeira Mildred perdera o filhinho ao nascer, o casamento declinava e sua criatividade estava abaixo de zero. Embora sorrisse aos amigos e fizesse festa ao vê-los, conta ele que se sentia estéril e vazio.

Até que um dia lhe veio a notícia que Jackie Coogan tinha sido contratado por Roscoe Arbuckle para um filme. Foi o suficiente para seu mundo cair ao não ter pensado nisso. Perdera uma oportunidade. Foi aí que surgiu a idéia de The Kid. Mas o filme não poderia ser o mesmo sem Coogan, pensou ele. Quase que instantaneamente as idéias lhe vinham aos montes, e a depressão aumentava quando ele lembrava que havia perdido a oportunidade. No final, do que adiantava? Alguém lhe sugeriu que procurasse outro garotinho, talvez negro. Mas ele não queria. Jackie era o garoto.
Mas daí a alguns dias, seu secretário lhe correu com a notícia que mudaria tudo: o Jackie Coogan contratado por Arbuckle tinha sido o pai e não o garoto. Imediatamente Chaplin saltou da cadeira e correu a telefonar para o pai dele. Não iria sossegar até assinar contrato com ele.
Segundo Chaplin, interpretar com Coogan era fácil, tremendamente fácil. Ele já viera pronto, já dominava todas as regras básicas da pantomina (arte de interpretar com os gestos, imprescindível no cinema mudo).
Uma curiosidade é a seqüência de cenas mais linda do filme (e do cinema): a cena em que o garoto é levado pelas autoridades policiais para um orfanato. A cena reproduz, de certa maneira o que aconteceu com o próprio Charlie, que também fora afastado da mãe e do irmão, sendo levado num caminhão. Acontece que neste dia, em que a emoção devia aflorar, Coogan parecia estar feliz, feliz até demais. Não conseguia de forma alguma a emoção que a cena necessitava. O menino até contava piadas. Depois Charlie tanto tentar, o pai tomou as rédeas e disse que daria um jeito. E deu. Voltou depois de algum tempo com Jackie em prantos. O garoto estava pronto para a cena. Qual a mágica, Chaplin quis saber. “Bem, disse o pai, falei para ele que se não chorasse, os funcionários o levariam para o asilo de menores”. A cena do choro foi real, pelo menos para Jackie. No final, Chaplin ainda o consolava e dizia-lhe que não o deixariam levar.
O filme chocou o platéia que esperava um filme comédia de Chaplin. Na verdade o filme mais fazia chorar que rir. O filme tornou Jackie o primeiro astro mirim da história.
E um dos mais bem pagos, ganhando milhões de dólares antes de chegar à adolescência. Casou-se com Betty Gable, mas acabou sem oportunidades no cinema. Amargou anos, até que na década de 60, já velho, foi chamado para fazer o papel de Fester (Tio Funéreo) na série Família Adams, grande sucesso entre 64-66. No cinema fazia pontas como xerifes, detetives ou bêbados, em filmes baratos e em sua maioria de terror. Seu último filme foi Depredador (1984). Mas sua imagem que ficou foi aquela, do garotinho que quebrava vidraças e depois corria para junto do seu pai adotivo, este sim, o grande garoto.

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