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18.12.07

Monsier Verdoux

A história desse filme foi baseada em um personagem real, Henry Landrú (1869-1922), que foi condenado à morte na guilhotina por ter assassinado mais de 10 mulheres e seduzido outras tantas. Neste filme, Henry Verdoux, casado com um filho, utiliza-se da sedução à mulheres velhas e ricas, dando o famoso golpe do baú. Depois de casar-se com elas, e apoderar-se de seu dinheiro, Landru assassina-as e parte em busca de outras conquistas.
No início do filme, a família Couvais, preocupada com o sumiço de uma irmã, já idosa, que casou com um tal de Varnay, solicita a ajuda da polícia para encontra-la. A primeira aparição de Chaplin no filme é num jardim, cuidando das plantinhas enquanto sua esposa é assada no incinerador. Varnay, na verdade é um dos tantos nomes adotado pelo Verdoux, que já se empenha a conquistar novas presas. O que recebe, ele aplica na bolsa de valores.
Sua sorte declina quando conhece Annabella Bonheur (belissimamente interpretada por Martha Raye), que de tanta sorte que tem , não consegue ser assassinada por ele. Na verdade, boa parte do filme é dedicada às tentativas de Verdoux em livrar-se dela. Em algumas partes, a dupla é tão imbatível que torna-se um duelo à parte a interpretação dos dois. Empenhado em descobrir novos meios de matar, ele tenta “testar” um novo produto numa moça que encontra na rua, mas desiste ao saber que ela trabalha para sustentar o marido preso (lembra-se que também ele faz isso por amor).
Talvez o maior contraste da história seja principalmente o fato dos meios justificarem os fins. Na verdade, Verdoux mata para sustentar sua família (pois sua mulher é paralítica e seu filho menor). Em nome do amor que sente por ela, e por não conseguir mais trabalho devido à sua idade, ele parte em busca de conquistas, agindo de modo até certo ponto profissional. Para ele, nada mais é do que uma continuação de seu trabalho. Condenado à morte por seus crimes, o personagem fala, com o cinismo que lhe é característico, que seu erro foi ter matado pouco. E uma por vez. Porque se tivesse matado muitos, como se faz nas guerras, ele estaria sendo gloriado. Nesse ponto nos sentimos tentados a pensar que quem na verdade estava falando era o próprio Chaplin, que na juventude havia sido condenado por não querer participar da guerra.
Alguns críticos(ou psicólogos, sei lá) ainda apontam Monsier Verdoux como uma história altamente confessional de Chaplin: na verdade, Charles, na vida real também era um grande conquistador de mulheres. Não as matava, claro, mas as abandonava com a mesma rapidez com que Landru fazia com suas vítimas. Bem, comparações à parte, sabe-se que a história, na verdade, é muito velha, tendo sido uma idéia de Orson Welles. Chaplin apoderou-se dela, e simpatizando decidiu roda-la. Bem, o filme chegou a ser proibido em várias cidades, por ser considerado imoral, chegando até a haver piquetes em frente aos cinemas, de veteranos católicos que se postaram armados a fim de evitar que outras pessoas entrassem. Várias partes do filme foram cortadas, e Chaplin teve que refazer muitas cenas. Algumas personagens tiveram sua história mudada, como a garota que ele salvou da fome, que tudo leva a crer que se trataria de uma garota de programa, afinal ,o que levaria uma mulher a estar àquela hora da noite na rua, sozinha e aceitar a proposta de um homem a entrar em seus aposentos? Outra cena que foi mudada foi uma em que sua esposa o chamaria para a cama. Os sensores acharam altamente imoral e o fizeram refazer a cena com a frase “vá para a cama”. Pode?

Nesse filme, o que resta do vagabundo é tão somente os gestos, já tão predominantemente chaplinianos, provenientes da época do cinema mudo: o personagem gesticula e fala muito mais com a expressão do que com os lábios. O caso é que Charles mandou recolher esse filme dois anos depois do seu lançamento, tendo sido liberado somente muitos anos depois. Para mim um dos melhores dele, pena que pouca gente tenha visto.

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