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2.1.08

The Kid - O garoto

Uma mãe solteira, desesperada por não ter como sustentar a si e a uma criança, resolve abandona-la dentro de um carro, num bairro nobre. Quem sabe assim o filho teria melhor sorte. Por azar, o carro é roubado, e o garoto abandonado num cortiço. Um jovem pobre encontra-o e tenta por todos os modos re-abandona-lo em qualquer lugar. Num momento vemos um vagabundo duro, abrindo um bueiro para jogar a criança lá. Mas dura só alguns segundos. Ele logo desiste e volta a ser o velho e bom Charlie que conhecemos.

Dura é a vida que os espera. Onde cabe um cabem dois. Mal, mas cabem. Jackie, o garoto, cresce assim, em péssimas condições financeiras, mas cercado pelo amor de um pai pobre, que luta para sobreviver. Os meios, claro, justificam os fins. E os dois trabalham numa parceria de quebrar vidros e eles mesmos consertarem. As confusões seguem, até o momento em que a figura da mãe ressurge, agora rica, e reencontra o filho.

Jackie parece ter nascido para esse filme. O garoto dançava no teatro, com seu pai, e Chaplin assistiu a essa apresentação. Apaixonou-se por ele. Mas soube que Jackie Coogan tinha sido contratado. Depois veio a descobrir que o Jackie em questão era o pai. Tratou logo de contratar o filho dele, de 5 anos. O garoto deixava-se dirigir melhor do que qualquer ator adulto, e conseguia fazer o que Chaplin lhe mostrava. Ele também ensinou ao pequeno alguns truques de dança, e divertiam-se juntos, mostrando os passos para os visitantes.

Nesse período, o primeiro filho de Chaplin nascera com um problema congênito, e morrera com poucos dias, causando uma crise ainda maior em seu casamento já em ruínas. A sua relação com o garoto reflete um pouco dessa carência pela qual passava. Sua mãe Hannah, nesse período, também chegava da Europa, para juntar-se aos seus dois filhos na América. A mãe do Kid, solteira, pobre, seria também uma forma de homenagear aquelas subjugadas pela sociedade e discriminadas, muitas vezes obrigadas a abrirem mão de seus filho, mulheres cujo “único pecado é ser mãe”. Enfim, a obra chapliniana nunca poderá ser vista sem levar em conta sua vida pessoal. E com esse filme não foge à regra.

Imagino o que foi The Kid em tela, quando no seu lançamento, em 1922. O público estava acostumado com o Tramp, suas estripulias e confusões, mas não com dividi-lo com um protagonista tão jovem e talentoso. A junção comédia com drama também ganhava proporções nunca antes testadas: Chaplin nos negou, a partir daquele momento, a escolha entre sorrir ou chorar. Você tem vontade de rir de sua miséria, mas sente-se também culpado por isso... rir de um vagabundo? E tem vontade de chorar quando o vê defendendo seu garoto, com unhas e dentes, de ser levado.. O garoto chorando desesperado, o corte para um Charlie de olhos arregalados, preso por dois homens mais fortes por ele, a corrida pelos telhados, culminando com o desfecho do beijo entre os dois: uma das cenas mais bem realizadas em toda a história do cinema. Um filme que inicia, realmente, a obra chapliniana. Depois daí, o cinema não seria mais o mesmo.

Mais informações: meu site sobre Charles Chaplin

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