Seguidores

7.1.08

Toda Lua, Tem O Seu Sol


Luzes apagadas, olhos fechados — tais, como quando menino era —, toco uma guitarra imaginária — Gretsch Country Club, sempre —, balanço minha cabeça, entre um solo e outro — e o público vibra, ergue os braços, canta junto frase por frase, grita meu nome, de vez enquanto.

Clássico do século findo. Próximo do término, o disco de vinil está.

Sinto os pêlos do meu corpo arrepiarem. Não mais soam, as últimas notas de qualquer instrumento — Time, Breathe, Us And Then, Brain Damage, se foram. Simplesmente, audível é, o pulsar de um coração. Roger Walters — com sua desafinada-bela voz, e dramaticidade extrema —, surge, fechando tudo com uma das sentenças mais lindas e perfeitas da história do rock n’ roll: “Não existe lado negro da lua. A lua é toda escura”.

Verdade, fato concreto, esquecido. Sem o astro-rei — o empréstimo da sua luminosidade —, não veríamos a pálida dama de face única. E, sem o brilho da lua, o céu nada mais seria do que uma lona de azul intenso, cheia de furinhos bobos. Poemas deixariam de ser escritos. Missivas de amor, lacradas com vela, não seriam a mesma coisa. O prazer de olhar a abobada celeste — depois das vinte horas —, roubar um beijo, voltar para casa sozinho — as duas da manhã —, daquela festa regada a Coca-Cola e salgadinhos, gritando: “já sou um homem, já sou adulto”, quando ainda somos tão belamente ingênuos e meninos — ou sofrendo por um amor não correspondido —, nada disso possível seria, sem a generosidade do sol. E sem a lua para admirarmos, nossa curta existência, não teria a mesma graça.

O Sol de Hollywood — Edith Head

No cinema, a história se repete. Quantos talentos, eternizados na película. Torcemos tanto por aquele casal. Diga a verdade — segredo entre nós: é triste e belo, ver Ilsa e Rick, trocando olhares de amor eterno em Casablanca, enquanto o avião, pronto a partir está. Eles vão se separar para todo o sempre, o amor não teve meio de uni-los. Derrotado, o mais nobre de todos os sentimentos, foi. E, não minta, você também chorou — e quem não —, durante aquele tão esperado beijo de Rhett Butler e Scarlett O’Hara. Ou torceu freneticamente, por Anna Scott e William Tracker em Um Lugar Chamado Nothing Hill — um dos dez mais da minha lista pessoal. Houve, quem no escurinho — isto, na pequena cidade de Itajaí —, que esqueceu de onde estava, e, em um momento de empolgação, com a sala cheia, gritou a plenos pulmões: “mande o cinema às favas, você o ama, garota!”. Quem foi? Melhor deixar em segredo... como as lágrimas de Marilyn Monroe ao rever a cena de seu casamento em Adorável Pecadora, ao lado de Yves Montand.

Porém, voltemos ao que nos interessa. Hollywood é uma constelação, um sábio certa vez disse. Perdura até nossos dias, esta epígrafe. Mas, sinceramente, prefiro imaginar que o cinema é um aglomerado de satélites — belos, ocultos —, que precisam muitas vezes que um sol, empreste seu brilho, para nos mostrar o quão maravilhosos eles são.

Um destes sóis — e para mim, o mais importante da história da cinematografia — é Edith Head.

Podes não conhecer sua história. O nome, sequer soar-lhe familiar. Pensamos tanto na beleza da lua, que do sol nos recordamos apenas quando ocorre um eclipse (noite do Oscar), mas certamente, você conhece uma linda menina chamada Grace Kelly. Uma das imagens mais célebres da nossa princesa é o encontro dela com Cary Grant em Ladrão de Casaca — meu casal preferido, John e Frances, mesmo amando Casablanca. Grace usa um sublime vestido de chiffon azul, que só enaltece ainda mais sua beleza. Pouco mais, sobre as montanhas, num conversível, nossa heroína vestida está, com uma blusa e saia rosa coral. Mas adiante, outro chiffon, todavia branco e drapeado. No final, nada mais que um espetacular lamê dourado de gala.

Bem, se você recorda destas cenas antológicas, saiba, todos estes magníficos figurinos são obras de Edith — detentora de oito estatuetas, sendo indicada trinta e cinco vezes.

Sua história confunde-se com a da própria Paramount. Head era professora de francês num colégio feminino, quando soube de uma vaga no departamento de figurinos do estúdio e, vislumbrou integrar-se naquele mundo — outras mulheres ali trabalhavam, isto, de certa forma a incentivou. Levou consigo uma pasta entulhada de croquis — feitos por suas alunas, ela não sabia costurar ou desenhar absolutamente nada. Por um milagre — ou destino, como preferir —, aceitaram-na.

Howard Greer, era da Paramount, figurinista chefe. Logo percebeu a dedicação da jovem aspirante, ensinando-lhe então a desenhar — seus traços inicialmente eram idênticos.

O tempo passa. Em 1925, chega a Nova York, Travis Banton. Os filmes estão em alta, e o mesmo passa a dividir o cargo de figurinista chefe com Greer. Porém, astros e estrelas de renome, acabam apreciando mais trabalhar com Banton. Howard ofendido desliga-se da Paramount.

Os trabalhos menores estão ao cargo de Edith já algum tempo.

Travis anda tendo problemas com a grande estrela da Paramount, Clara Bow. Os dois não se entendem em absolutamente em nada. Estão quase iniciando as gravações do clássico Wings (Asas) — no ano seguinte, o primeiro Oscar caberia a esta película —, e o figurino de Bow sequer chega aos papéis.

A verdade, conforme relatos, é que Clara tinha um gosto terrível para roupas, e queria impor isto ao seu figurino. Banton temperamental, não aceitava que ninguém desse palpite no seu trabalho — excetuando os diretores. Suas discussões eram motivo de conversa nos corredores da Paramount.

Certo dia, Travis adentra a sala de Edith, e ordena: “Esta mulherzinha é problema seu!”.

Head chama Clara, ouve sua opinião, durante horas a fio. Lê o roteiro, conversa com diretores e câmeras. Solução: grande parte do filme a atriz usaria um uniforme. Nas outras cenas, conseguiu adaptar o tradicional, ao péssimo gosto de Bow — todavia, criando um figurino refinado. Todos felizes, o caminho do sucesso enfim estava aberto.

Depois de Wings, mas precisamente na década de 30. Edith passa a ser responsável pelas jovens atrizes e estrelas em ascensão. Torna-se sempre amigas destas, dispensando total atenção como se as mesmas fossem estrelas de primeira grandeza. Ao desenvolver um figurino, ouvia seus gostos e idéias, adaptando-as. No futuro, quando se tornavam a bola da vez, estas recordavam-se da figurinista, exigindo-a em seus filmes. Edith passa a ser a figurinista principal das estrelas de Hollywood.

É consenso que, Head tinha a capacidade de perceber as imperfeições e pontos fortes de cada ator/atriz. Prova disto é seu trabalho ao lado de Elizabeth Taylor. Veja por exemplo: Um Lugar ao Sol ou No Caminho dos Elefantes. Os ombros de Taylor, seu busto e a cintura delgada estão sempre expostos. Interessante é ressaltar que, o belíssimo vestido de tule branco que Elizabeth usa em Um Lugar ao Sol, tornou-se febre nos Estados Unidos, sendo copiado por estilistas da Sétima Avenida e lojas de departamento de todo o país.

Em Amar é Sofrer, Ingrid Bergman ganha boinas e véus transparentes, para ressaltar seu perfeito rosto.

Quando ficou responsável por Audrey Hepburn em A Princesa e o Plebeu, considerou que o pescoço da atriz não a tornava tão feminina. Durante dias criou belíssimos figurinos, procurando um meio de resolver o problema. Solução: lenços sobre o mesmo, e colares largos.

Um dos vestidos clássicos desenhados por Head, é o de veludo preto usado por Rosemary Clooney em Natal Branco. Próximo à filmagem. Edith e Clooney discutiam sobre aquele preto todo. “Era lindo, mas... faltava-lhe algo”. Head jogou as luvas pretas fora. Criou novas que simulavam diamante, e inseriu sobre o cóccix um broche idem — por brincadeira, conforme relatos. Pôs-se a rir. Tinha acertado novamente.

Jerry Lewis, em O Professor Aloprado não seria a mesma coisa, sem o seu terno azul, na cena em que toca piano — repare nos ombros largos, compare com outros trabalhos onde o ator aparece.

Trabalho vasto, podemos destacar os seguintes clássicos ao qual a figurinista empregou sua marca: Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai, Os Pássaros, O Maior Espetáculo da Terra, O Crepúsculo Dos Deuses, Cinderela em Paris.

No primeiro ano da década de oitenta, o sol se põe definitivamente no horizonte.

Os Incríveis

Meu afilhado empolgado está. Ele sempre adora rever este filme: Os Incríveis. Película divertida e inocente ao mesmo tempo.

Ele ri, ri, ri com os trejeitos de Edna Moda — aquele cabelo, os óculos escuros, discutindo com a Mulher Elástico o que seria melhor para o uniforme da equipe.

Sorrio. É bom rever o sol de vez em quando — mesmo em desenho — , para me lembrar da beleza da lua, e do quão bem a mesma faz em minha vida.


Colaboração: Ricardo Steil — Itajaí/SC

Um comentário:

CresceNet disse...

Hello. This post is likeable, and your blog is very interesting, congratulations :-). I will add in my blogroll =). If possible gives a last there on my site, it is about the CresceNet, I hope you enjoy. The address is http://www.provedorcrescenet.com . A hug.

Related Posts with Thumbnails