Seguidores

9.3.08

Injustiças do Oscar

Texto Original

Embora seja o mais popular troféu atribuído no universo do cinema, o Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood está longe de ser um primor de credibilidade quanto aos seus critérios de julgamento. Em 79 premiações até hoje realizadas, foram cometidas imperdoáveis injustiças, nunca digeridas pelos cinéfilos realmente conhecedores dos valores autênticos da Sétima Arte.

Charles Chaplin, considerado por inúmeros críticos o maior gênio do cinema, criador de obras-primas como ´Em Busca do Ouro´, ´Luzes da Cidade´ e ´Tempos Modernos´, em toda a sua longa e brilhante atuação cinematográfica só ganhou prêmios secundários ou de consolação, como os atribuídos a seus filmes ´O Circo´ e, já quase no final da vida, pelo conjunto da obra. Por ´Luzes da Ribalta´ conquistou apenas o troféu de Melhor Música, absolutamente indiscutível diante da extraordinária beleza de sua canção ´Limelight´.

Outro grande injustiçado foi o genial Orson Welles. Seu filme ´Cidadão Kane´, até hoje unanimemente apontado como a melhor e mais criativa realização do cinema, ganhou somente o troféu de Roteiro Original e perdeu o Oscar principal para o apenas razoável e bastante convencional ´Como Era Verde o Meu Vale´, uma produção aquém dos melhores momentos de seu diretor John Ford.

Injustiças gritantes

Até hoje os cinéfilos ficam indignados ao lembrar que um dos melhores filmes do cinema ´noir´, o impactante ´Pacto de Sangue´, de Billy Wilder, tenha perdido para um melodrama trivial como ´O Bom Pastor´, no qual a única nota de expressivo registro era o vozeirão do cantor e ator Bing Crosby. No ano seguinte, em face dos protestos generalizados pela injustiça, a Academia resolveu se redimir e dar o troféu de Melhor Filme e Melhor Diretor a Billy Wilder pelo excelente ´Farrapo Humano´, corajosa abordagem sobre o alcoolismo com notável interpretação de Ray Milland, ator também premiado em sua categoria.

Grace Kelly, em ´Amar é Sofrer´, ganhar de Judy Garland com sua arrasadora performance em ´Nasce Uma Estrela´, até hoje faz os amantes e estudiosos da Sétima Arte engolirem em seco. O desnível dos dois desempenhos, com notória vantagem para Judy, resultou num dos mais estranhos deslizes já cometidos pela Academia de Hollywood.

Divas preteridas

No ano em que Glória Swanson arrebatou as platéias em ´Crepúsculo dos Deuses´ e o mito Bette Davis cumpriu sua mais perfeita interpretação no antológico ´A Malvada´, a vencedora do Oscar foi a desconhecida Judy Holliday em ´Nascida Ontem´. Judy era uma comediante de razoável talento, mas seu desempenho, hoje completamente esquecido, não admitiria sequer comparação com os das divas Bette Davis e Swanson.

Também não dá para entender como a insípida Gwyneth Paltrow levou a melhor sobre a brasileira Fernanda Montenegro, quando esta concorreu ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação irretocável em ´Central do Brasil´, em tudo superior à descolorida intervenção de Gwyneth em ´Shakespeare Apaixonado´.

Dois dos maiores absurdos, na categoria Melhor Filme, foram ´Táxi Driver´, de Martin Scorsese, ter sido nocauteado por ´Rocky, Um Lutador´, e o notável ´Apocalypse Now´, de Francis Ford Coppola, um dos grandes clássicos da tela, haver perdido a batalha para ´Kramer vs. Kramer´.

Um horror: ´Atlantic City´, de Louis Malle, levou a pior diante de uma realização primária: ´Carruagens de Fogo´, um amontoado de pieguice e falhas técnicas onde só se salva a trilha musical. Sempre se tenta justificar o injustificável, arranjando razões pífias para tão acintosas distorções. Orson Welles teria sido prejudicado por campanhas difamatórias promovidas pelo magnata da imprensa Randolph Hearst, suposto inspirador do personagem Cidadão Kane. Charles Chaplin seria preterido pelo seu posicionamento político à esquerda e, de quebra, a paixão por ninfetinhas de quinze anos.

´O Segredo de Brokeback Mountain´, por certo, deixou de levar o Oscar em decorrência dos preconceitos contra o homossexualismo, cedendo seu lugar ao medíocre e esquemático ´Crash - No Limite´. Em ´Filadélfia´, Tom Hanks só foi agraciado porque interpretou um ´gay´ devidamente ´justiçado´ pelo vírus HIV.

Este ano, a francesa Marion Cotillard colhe a unanimidade da crítica por sua extraordinária incorporação da cantora Édith Piaf, mas talvez a Academia não veja com bons olhos tamanho tributo à cultura artística da França e prefira dar o Oscar a uma representante da pátria-mãe, a atriz Julie Christie.

José Augusto Lopes
Repórter

--------------------------------------------------------------------------------

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails