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10.3.08

Love's Prisoner — O Único Registro De Olive Thomas Em Ação

Lembro como se fosse ontem. Estávamos sentados na Aldeia — reduto literário e artístico da minha geração. Infelizmente, há pouco, o mesmo veio a ser fechado —, discutindo sobre qual seria a maior força do universo — naquele dia, este era o tema. Houve os defendessem a necessidade das coisas — sede, frio, fome —, como roda motriz da humanidade. Outros — no meu caso —, o amor. Um terceiro grupo, o desejo de liderança, notoriedade. E entre cappuccinos e express, nossa conversa divagava, sem uma conclusão satisfatória.
Em um desses momentos, Henrique — poeta, amigo meu, já falecido —, fitou-nos com seriedade. Pouco depois, ergueu-se. Mirou o relógio, ajeitou o terno, pegou o chapéu —, há muito devido à doença, seus cabelos estavam ficando ralos. Próximo ao fim dos seus dias, não mais os teria, de modo que, obrigado era a usar este. Sorriu, despedindo-se de nós, sem palavra alguma dizer, quanto ao assunto que tratávamos.
Confesso que, um tanto quanto estranha viera a ser sua atitude. Sempre gostou de discutir em nossa roda todos os assuntos, mas, naquele momento escolhido o silêncio houvera.
Precisamente em um domingo — na mesma semana do encontro na Aldeia —, um conhecido meu, adentrara o outro plano, de modo que, fui prestar meus pêsames a família no cemitério local.
Pouco antes de partir, no entanto, sentado à sombra de um carvalho, encontrei Henrique. Era inverno, as folhas secas todas caídas no chão. Ele e seu caderno de apontamentos. Ele e seu terno escuro — com ares do início do século passado. Fora no seu apartamento, que tive o privilégio de ver Chaplin pela primeira vez — em VHS. Marc — outro companheiro nosso da Aldeia, pintor — conhecendo o fascínio dele pelo lendário Carlitos, no seu vigésimo segundo aniversário, presenteara-lhe com um quadro do gênio, ao qual, até os dias findos, permaneceu na sala de estar deste.
— Não esperava encontrá-lo, por aqui.
— O mesmo, Rick.
— Perdeu alguém? Desculpe-me, inoportuna a minha...
— Não, vim somente passear.
— ???
— Gosto de caminhar ao largo dos túmulos. Freqüentemente, isto faço.
— Não é um tanto quanto mórbido?
— Todo o interesse pela morte e pela doença não passa de uma forma de exprimir aquele que se tem pela vida.
— Thomas Mann: A Montanha Mágica.
— Exato. Sério, a discussão de vocês foi um tanto quanto inútil esta semana.
— Ora, um tema interessante...
— Um tema com conclusão simples: o tempo é a maior força do universo. Não existe nada que escape às mãos do tempo, no fim das contas. Veja, nem os nomes dos célebres nas lápides dos túmulos resiste à ação do tempo. O tempo tudo destrói.
— O talento resiste ao tempo. E, nem vou adentrar na área literária. É só pegarmos a sétima arte...
— Um exemplo, incrédulo amigo. Lembra do quadro que tenho no meu quarto?
— Uma réplica de um Alberto Vargas, não? Realmente uma bela pintura. Deixe-me ver: uma garota de olhos fechados tendo em uma de suas mãos uma rosa. É isso?
— Sempre me impressionou esta sua memória para os detalhes.
— Não confie tanto nela.
— Retornando. Tem idéia de quem seja esta garota?
— Uma modelo... Uma namorada do pintor... Musa inspiradora... Não, excetuando o quanto ela venha a ser bela, não faço idéia alguma.
— Tanto na réplica, quanto no original, impressa em tinta está uma das maiores atrizes do seu tempo e, considerada uma das mulheres mais lindas do mundo durante os meados da primeira e segunda década do século passado. Seu nome: Olive Thomas.
— Desconheço. Mas, se ela fosse tão talentosa quanto uma Clara Bow ou Edna Purviance, lembrada seria, não?
— Enganado, estás. O motivo pelo qual esta jovem atriz não vem a ser lembrada, não é falta de talento, mas a mão impiedosa do tempo.
Fitei-o. Henrique, além de ser um grande poeta — não um rabiscador de versos como eu —, era um apaixonado pelo cinema clássico. Pouco antes de partir, confidenciara-me ter-se arrependido de não ter uma filha e a batizado de Edna.
— Deixemos de lado, todo o burburinho quando a sua vida pessoal, incluindo um possível suicídio ou assassinato. Os mortos não têm como se defender, não? E a mídia, desde os primórdios, tem por intuito vender, sem preocupar-se com a imagem ou as chagas provocadas em outrens. Olive Thomas, que conforme relatos chamava-se Olivetta, Ollie ou Oliva R. Duffy, estreou em vinte e dois filmes, teve duas participações especiais em um seriado chamado Beatrice Fairfax. Trabalhou no teatro, era exima dançarina. Segundo o diário de Mary Pickford. Conhece?
Respondi com um meneio de cabeça.
— Ambas eram cunhadas. Segundo Mary, Olive tinha olhos azul-violeta, longos cílios escuros e pele alva. Para nossa infelicidade, Vargas não pintou seus olhos, e as imagens das películas fotográficas coloridas não haviam sido desenvolvidas naquele tempo. No mesmo diário, ela ressalta os dotes da parenta como atriz. Mas, diferente de Bow, Purviance ou Pickford e, mesmo sendo mais bonita que todas as três, o tempo foi implacável com o trabalho dela.
— Implacável em que sentindo?
— Não restou nada do trabalho de Olive. Algumas fotos, capas de revistas, cartazes de shows. É engraçado, creio que saibas, mas o cinema no início não era visto como arte, mas, simples entretenimento. Com isso, muitos filmes foram destruídos, jogados fora. Os trabalhos de Olive tiveram o mesmo fim.
— Não restou absolutamente nada?
— Existe em torno do fato a lenda de que, como os trabalhos barrocos de Aleijadinho, películas dela estejam guardadas a sete chaves em mão privadas.
— Como os primeiros de Joan Crawford...
— Somente um dos seus trabalhos resistiu. Quer dizer, o finalzinho da película se deteriorou ao longo do tempo, há cortes bruscos na imagem por causa disso. E o trabalho se chama: Love's Prisoner.

Sinopse

Filhas de um ex-criminoso — interpretado por Walter Perry —, Nancy (Olive Thomas), Sadie (Ann Kroman) e Jane (Dolly Dare), vivem com o mesmo em absoluta pobreza, sendo que, tem por vizinho o estranho Jonathan Twist — no papel Williem V. Mong —, apresentado nas legendas inicialmente como um misterioso filósofo.
Em certo momento, as três irmãs são surpreendidas pela repentina prisão do seu pai, sob a acusação de um crime — mesmo que, a polícia em si não tenha certeza de que este seja o infrator, apenas suspeitas.
De maneira que, Nancy assume a responsabilidade de — por ser a mais velha da família —, sustentar as jovens irmãs. Jonathan lhe instiga a procurar um emprego. Através de um anúncio de jornal, ela acaba conseguindo um trabalho no Climax Cocoa.
Situação estável, o tempo passa. Numa manhã qualquer, Nancy vislumbra em uma vitrine uma belíssima jóia. Um senhor, Lorde Cleveland — no papel Harvey Clark —, dono de propriedades rurais na Inglaterra, aproxima-se da jovem e, põe-se também a admirar o objeto.
Nancy sorri após algumas palavras. Logo depois, parte.
Todavia, um reencontro ocorre quando Lorde Cleveland entra no Climax Cocoa. Nervosa, a pequena quase derruba o café.
Há um salto no tempo — creio, que talvez devido à deterioração da película —, visto que, após isto, Nancy e Cleveland estão casados, e seu pai morto na cadeia.
Sendo agora uma lady, Nancy passa a circular pela alta sociedade.
Os negócios não vão bem para Cleveland — suas terras já não suprem os gastos —, mas, Nancy só irá descobrir tão logo o cônjuge venha a falecer.
Vestida de preto, retorna ao bairro pobre onde morou. Uma família passando por necessidades, pede-lhe esmola.
Nancy procura Jonathan Twist — aqui apresentado, não mais como um filósofo, mas sim, um joalheiro, que analisa uma peça trazida pela viúva. Minutos depois, a jovem entrega uma soma em dinheiro aos necessitados que a pouco vira.
Tendo um título, a viúva ainda circula pelas grandes festas da alta sociedade. Em uma destas encontra o jovem detetive Jim Garside (Joe King). O mesmo conta que está investigando sobre o misterioso “Bird” — notório ladrão de jóias. Nancy pergunta se o policial tem um retrato falado ou algo que possa identificar este ladrão. Resposta negativa, no entanto, afirma que, sua equipe quase o pegou noutro dia. Lady Cleveland diz ser a primeira vez que conhece um policial vestido a paisana. Ele ri. Minutos depois, na mesma festa, um colar desaparece.
Nancy e Garside, acabam por se apaixonar, enquanto as investigações prosseguem, sem dar-se conta de que a jovem é na verdade a ladra que tanto procura.
Os indícios levam o detetive até Twist, por fim, acaba descobrindo que ele é cúmplice de Nancy.
Levada a júri, condenada à prisão, é. Cumprida a sentença, Garside — após longos anos de espera —, procura por Nancy, pedindo-a em casamento. Enfim, a jovem passa a ter uma vida descente ao lado do homem que ama.

Uma Década Depois

— Estranho, não?
— O que, meu caro?
— Nós dois, caminhando entre as lápides do cemitério, indo levar flores a um velho amigo.
— Realmente.
— Sabe Rick, é inevitável não lembrar do Henrique toda vez que escuto aquela canção: “é tão estranho, os bons morrem jovens”.
— Foi um grande homem, um grande amigo, um grande poeta. Jamais haveremos de esquecê-lo.
Paramos diante do seu túmulo.
— Tenho um arrependimento comigo.
— Qual?
— Lembra da Aldeia, das discussões que tínhamos sobre um tema e outro.
— Bons tempos. Tanta coisa mudou, né. Uns casaram, outros mudaram de profissão...
— Verdade. Mas, uma vez discutimos sobre qual seria a maior força do universo.
— Recordo-me brevemente sobre o assunto. Mas... é claro, você defendeu o amor! E que discurso, hein?
— Na mesma semana, encontrei com o Henrique aqui.
— Aqui? Quer dizer, em frente a este...
— Não, sentando em um dos carvalhos que há os montes por entre estas quadras.
— Hum.
— Bem, ele disse que nossa discussão era um tanto quanto inútil, visto que, a maior força do universo era o tempo que tudo destruía e, citou uma célebre atriz do cinema mudo: Olive Thomas.
— Sim, mas do que você se arrepende?
— De não ter dito para nosso amigo que ele estava errado. O amor continua sendo a maior força do universo, a força que tudo move. Henrique dizia que o tempo apagou a imagem de Olive Thomas, que ela tinha sido esquecida, que nada sobrara do seu trabalho. Mas, uma película sobreviveu ao tempo. E esta película chegou até nós, graças ao amor de alguém pelo trabalho dela, de alguém que acreditou que seu trabalho era significativo, que ela jamais deveria de ser esquecida, que diferente dos outros, não destruiu o rolo do filme, mas, o preservou. E o amor de outras pessoas por ela, é que permitiu que esta película agora presente esteja no Youtube.
— Quando descobriu a sua doença, nosso amigo, passou a ver o quadro na parede por um outro ângulo.
— Metáfora de pintor, Marc?
— Sério. Pegue um quadro, digamos um Agnes Martin. Você a adora, se sente bem vendo aquelas imagens, não?
— Sim, para mim é a maior pintora que já existiu pós-Manet.
— Exato, mas há pessoas que só vem um risco pintado. O Henrique, passou a se preocupar com o tempo, sua força, após descobrir que lhe restava pouco. É só um ângulo diferente de se enxergar o mesmo quadro. No mais, ele tinha medo de um dia ser esquecido, mesmo por aqueles que o amavam enquanto esteve aqui.
Depositamos as flores. Na lápide a fotografia do jovem poeta, em sépia, vestindo seu terno preto.
Quando estávamos as portas da morada dos mortos, voltei meu olhar, vi ao longe seu túmulo, e em silêncio agradeci a tudo o que ele nos ensinara, jurando a mim mesmo, que ele jamais haveria de ser esquecido por nenhum de nós.

Colaboração: Ricardo Steil — Itajaí/SC.

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