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12.3.08

The Misfits – Os desajustados

0/03/2008 09h27


Roseyn Tabor (Marilyn Monroe) é uma mulher fragilizada, refugiando-se em Nevada durante o processo de divórcio. Lá conhece três homens também castigados pela vida: Gay (Clark Gable), um velho vaqueiro, abandonado pela esposa que o trocara pelo primo, e com quem Roselyn inevitavelmente acaba tendo um romance; Guido (Eli Wallach), um taxista que lhe oferece a casa que vivera com sua mulher, morta em trabalho de parto ("Talvez estivesse viva se falasse o que sentia, se vocês se comunicassem mais", preconiza Roselyn a respeito do evento) e Pearce, um jovem e decadente vaqueiro que vive sozinho. Quatro almas em desespero, vivendo simplesmente, tentando esquecer suas realidades. Roselyn vai viver com Gay, num processo de negação do mundo, de si mesma. Os três apaixonam-se por ela, que permanece fiel a Gay, e a si mesma. E cada qual tenta de sua forma conquista-la, Guido traindo o amigo e Pearce sendo de certa forma tão frágil quanto ela. A personagem Roselyn nos remete biograficamente à própria Marilyn, e não é somente impressão: Gay acha-a triste, e lhe diz isso. Ela retorna dizendo que é o único que percebe isso, já que todos acham-na feliz. Pensamos até que ponto não estamos falando da própria atriz. Arthur Miller quando escreveu o conto inspirou-se claramente em sua esposa Marilyn, queria prestar-lhe uma homenagem, dar-lhe uma personagem que não era somente caras e bocas, que tinha sua integridade e não servia apenas de divertimento aos outros.

Quando as filmagens se desenrolavam, os problemas já constatados em outros filmes da diva loura se verificavam: faltas, ausências prolongadas, internamentos, crises por causa dos remédios, crises existenciais, alcoolismo, inseguranças... Os remédios eram tão fortes que prejudicavam sua aparência, pois ela parecia estar sempre dopada. Particularmente Marilyn não gostara da personagem, achando-a quase patética em sua fragilidade, chorando por todos, ela, homens, animais. Não era a personagem forte que Miller lhe prometera. Tampouco Montgomery Clift estava bem: entregue ao álcool devido ao trauma sofrido em acidente automobilístico que deformara seu rosto, jamais conseguiria se reerguer ("Meu rosto está bem, você iria reconhecê-lo", diz em uma das cenas em que fala com a mãe ao telefone). Clark Gable sofria com problemas no coração, mas mesmo assim arriscava-se em cenas fortes, negando-se a usar dublê durante a cena em que é arrastado pelo cavalo. Mesmo assim não conseguia evitar sua aparência cansada. O galã não mais empolgava, era uma sombra de si mesmo. Poucas semanas depois de findas as filmagens, ele sucumbiu à doença.

The Misfits tornou-se, com isso um dos filmes mais angustiantes de se ver, e sentir, já realizados no cinema. A película, que contava com pessoas tão cansadas quanto suas próprias personagens, acaba se tornando um grande questionamento ao casamento e à vida. "Estamos todos morrendo, todos os maridos, todas as esposas", fala Roselyn/Marilyn em determinado momento, com todas as discussões acabando carregadas de tensão, pois cada um em seu mundo defende suas angústias. Ela ama a vida, mas tem medo, ao passo que não gosta de ver nada morto. Gay lhe ensina que até a morte faz parte da vida, e ela não pode negar isso. Por isso, para Gay um homem gentil como ele também mata. Mata inclusive as esperanças de uma mulher que tenta se erguer. Um filme para ver sozinho, questionar-se o limite tênue entre a realidade da vida, um filme e as pessoas envolvidas.

por Carla Marinho

Um comentário:

Cah disse...

Realmente é um filme angustiante... Que acabou sendo o último de três ícones do cinema. Com personagens que tinham mais a ver com eles mesmos do que eles pensavam...

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