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1.4.08

Crepúsculo dos Deuses: Sunset Boulevard


Publicado em 24.03.2008, às 09h24






"Estou pronta para o meu close, Mr. DeMille."

Norma Desmond (Gloria Swanson), por não ser uma personagem redonda, causa sentimentos conflitantes, pena, desprezo, curiosidade ou simpatia. No início do filme, ei-la em sua janela observando o jovem Joe Gillis (Willian Holden) tão astuto quanto inocente, que foge de seus credores. Em sua juventude, ela fora atriz de cinema mudo, e fez imenso sucesso, porém vive no limbo, esquecida como os demais astros de sua época. Norma e seu fiel mordomo Max (Erich Von Stroheim.) convidam o jovem rapaz a ficar em sua mansão deteriorada e terminar um roteiro para o grande retorno de Norma Desmond. Um péssimo roteiro, diga-se de passagem.

A mansão transpassa em seu ar um passado mal conservado em tintas fortes: Mabel Normand, Mary Pickford, Rodolfo Valentino, todos citados como freqüentadores da casa agora envolta em penumbra. O que resta é somente sombra do que se foi, paredes descascadas como o rosto do passado, a piscina cheia de ratos, como a mente de Norma.

Ela ressente-se de ter sido deixada para trás, por ter deixado a juventude esvair-se e não ser mais a grande diva de outros tempos. Tudo culpa do cinema falado, dos "talkies", sentencia. Em sua loucura, conta com o apaixonado Max, que lhe acompanha desde a época do sucesso, como seu diretor, amante e amigo. A loucura da casa é tão latente, que o pobre Joe acaba por sucumbir e ver-se envolvido com ela. Em todos os sentidos.

O filme foi lançado em 1950. Billy Wilder buscou Montgomery Clift para o papel de Joe Gillis, e após um período de negociação, Monty desistiu do papel. Melhor para Willian Holden, que assumiria soberbamente. DeMille fez uma ponta, como ele mesmo, talvez um pouco romantizado, como um diretor bondoso que é um dos poucos a ter pena daquela "menina" que ele viu ascender às telas. E, por fim, Gloria Swanson. Se um só papel ela tivesse feito, e tivesse sido este, ainda assim estaria imortalizada como atriz. Gloria foi a última das opções, depois Mae West, Mary Pickford e Pola Negri. Billy buscava uma atriz experiente, que tivesse vivido a época retratada por Norma. Em algumas cenas somos presenteados por cenas de filmes protagonizados pela própria Glória. Mas o filme surpreende-nos mesmo com frases marcantes, como no momento em que define-se como alguém tão grande que não cabe nos filmes: "Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos."

Billy escolheu trabalhar o filme através de flashback, narrado pelo assassinado Joe. Inteligentemente mostrado já na cena inicial, o "corpo" boiando na piscina propõe-se a contar sua história. A idéia inicial era mostrar vários mortos no necrotério, trocando idéias de como cada um morrera. Numa sessão pré estréia, o público começou a achar graça e riu loucamente, e Wilder teve que voltar atrás, modificando para um tom mais sério. Diálogos curtos e humor refinado, envoltos numa atmosfera noir. O filme não foi uma unanimidade: falar de Hollywood em Hollywood era uma tapa sem mão certa, e Billy foi aclamado e criticado ao mesmo tempo. Com isso o filme ganhou 2 Oscars, o de melhor roteiro, direção de arte e trilha sonora.

O título original, Sunset Boulevard é uma clara referência à famosa localidade de Los Angeles, onde a fictícia residência de Norma se localiza. A passagem dos anos em Hollywood não foi poupada, assim como a vida dos sobreviventes de uma época áurea do cinema, nos fazendo refletir no que seria melhor para o astro: morrer ou sobreviver a todos os outros contemporâneos.

por Carla Marinho

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