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8.4.08

Roadblock: Um Clássico Esquecido

Olho-a novamente. É incrível, mas, já não detém a beleza de outrora. Deitada naquele leito, fisicamente abatida, há muito deixou de ser o que era. Minha ex-namorada, já não tem muito mais tempo. Os jovens também partem. Entretanto, parece sempre aos nossos olhos que a morte destinada é somente aos velhos.
Seguro sua mão, ela tenta sorrir. Não precisamos dizer mais nada um ao outro — todas as palavras de amor, de ofensa, ditas, foram no passado —, e, aquele era apenas o momento de estarmos ali novamente juntos. O momento da despedida. Mas, palavras são como pôneis selvagens, imprevisíveis sempre:
— Estou morrendo.
— Pelo amor de Deus, prometemos não falar sobre isso.
— Inevitavelmente, tocando ou não no assunto, a morte há de chegar.
— Gabrielle...
— Preste atenção. Sabemos que para o que tenho, cura não existe.
— Talvez uma outra sessão de quimioterapia...
— O melhor é aceitar o inevitável. Sabe, você tem razão, independente do fim, todo o amor traz consigo coisas boas e ruins. Aprendemos um com o outro não?
— Claro que sim, querida.
— Você me deu muitas coisas boas, e creio que também eu tenha te dado.
— Obviamente.
— No fundo, gostaria ter tido um pouco mais de paciência para te ensinar a dançar tango.
— Fostes paciente, meus pés é que indisciplinados são.
— Quando terminamos, queimei as fotos e as cartas, destruí todos os vestígios da nossa relação no diário com corretor líquido.
— Ah, todo mundo faz isso.
— Você também destruiu tudo?
— Obviamente.
— É, acho que todo mundo faz isso, mesmo.
— Todo mundo.
Quando estava preste a ir embora, ela ainda me disse:
— Sabe, jamais deveria ter desejado mudar você, a tua essência. Querer moldá-lo à maneira dos meus sonhos.
— E quem nunca tentou fazer isso?
— Volte logo, “Honest Joe”.
Sorri. Depois, fechei a porta.

Gabrielle — infelizmente —, jamais soube que guardei no sótão todas as minhas recordações dos momentos vividos ao seu lado. Lá estavam, em uma caixa de papelão, velhos discos de vinil com nossas músicas, um cachecol roxo horrível, pequenos bilhetes escritos por ela, lembranças simples, tradicionais: cartões dos dias dos namorados, natal, páscoa. Interessante era que, mesmo sabendo de tudo isto, não recordava de todas as palavras escritas, das velhas canções, e por fim, do primeiro presente que ela me dera, logo no início do nosso namoro — uma cópia de Roadblock, em VHS.

Roadblock (Estrada) — Sinopse

Um dos clássicos da era noir do cinema americano. Roadblock veio a ser lançado no ano de 1951. O interessante é que, sua produtora a RKO, jamais apostou no sucesso do filme, de modo que, gravado foi este com baixo orçamento, pois, o intuito era que fosse um simples filme categoria tipo B, para ser apresentado em sessões duplas.
Um lapso, evidentemente. Revendo hoje, Roadblock saiu-se melhor do que qualquer outra película de ponta da produtora de Howard Hughes.
O que torna este filme de certa maneira um clássico, é construção psicológica dos personagens em si. Enquanto a maioria dos filmes noir, voltam suas lentes para uma femme fatale e um crime, Roadblock ressalta as bruscas mudanças psicológicas e comportamentais de seus personagens — tal como em Crime e Castigo, do escritor russo Dostoievski.
Joe Peters — interpretado por Charles McGraw, que em seu currículo tem os ótimos The Threat (1949), e Armored Car Robbery (1950), ao lado da talentosa Adele Jergens —, é um jovem investigador de seguros. Certa manhã, o avião no qual ele se encontra, é obrigado a fazer um pouso de emergência na cidade do Kansas. Perdido nesta, acaba por conhecer uma jovem chamada Diane — no papel Joan Dixon, ótima atriz que merecia ser lembrada com mais freqüência, que protagonizou outro clássico policial dos anos 50: Bunco Squad, ao lado de Robert Sterling —, figura constante da alta-sociedade.
O amor entre ele é inevitável. Todavia, por mais que ame Joe, a garota prefere as finas coisas da vida — champagne, festas, caviar, jóias, peles —, algo que, Peters não tem como adquirir sendo um simples trabalhador.
Diane chama seu namorado sempre de “Honest Joe” — devido seu caráter e seriedade com o qual trata todas as coisas —, ela, no entanto, não vem a ser muito adepta a vida proletariada: “Sabe, poderia ter tido um monte de empregos: ser modelo, secretária... Tentei, confesso. Mas, trabalhar é algo tão difícil, que desisti de ir”.
Peters está mais do que apaixonado — e ao mesmo tempo, exausto daquela vida medíocre com seus trezentos e cinqüenta dólares mensais —, e vendo que, pode perdê-la, decide dar uma guinada com “um plano perfeito”.
O homem descente então, conta sua idéia para Diane: está disposto a roubar um malote de um banco na estação ferroviária, partir com ela para a cidade de Los Angeles, e se casarem. Diane topa. O roubo ocorre.
Todavia, Harry Miller — interpretado por Louis Jean Heydt — antigo amigo de Joe, e ex-investigador, acaba por solucionar o caso, denunciando Peters a polícia. Os mesmos fecham todas as saídas da cidade, de modo que, o casal não tem como sair.
As cenas finais de perseguição que ocorrem nas proximidades do rio Los Angeles, são dignas de qualquer clássico. E McGraw, mostra todo o seu talento, quando morto é pelos policiais. São setenta e três minutos de pura emoção.
Vale também destacar o trabalho de direção de Harold Daniels, e a fotografia de Nicholas Musuraca.

Epílogo

Visitei Gabrielle, ainda duas vezes naquela semana. No domingo seguinte, ela entrava em coma, e setenta e duas horas depois, partia definitivamente.
Enquanto voltava para casa, com os olhos marejados, recordei de muitas coisas — incluindo aquelas esquecidas há muito, muito tempo. Lembro de dançarmos juntos, do seu riso, do perfume, dos planos que fizemos juntos — filhos, casa, etc e tal. Mas nenhuma lembrança me marcou tanto, quanto as suas mãos procurando as minhas, nos minutos finais de Roadblock.

Colaboração: Ricardo Steil — Itajaí/SC

Um comentário:

Heri, hodie, cras, cotidie... disse...

Este filme não conhecia. Adorei o texto, uma análise perfeita. Um abraço.

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