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2.5.08

A Caixa de Pandora, de Pabst



"Você só poderá livrar-se de mim matando-me". Esta bem poderia ser a frase do filme A Caixa de Pandora (Die Buschse der Pandora), G. W. de Pabst. Um filme lançado em 1929, mas com elementos tão eternos que poderia ter sido feito hoje. O diretor austríaco demorou um bom tempo procurando a atriz perfeita para o seu papel, e não foram poucas as possibilidades, tendo até Marlene Dietrich como uma delas. Mas quando viu Louise Brooks, americana, percebeu que a estava procurando no continente errado. Lá estava a sua Lulu. Mas quem é Lulu? Segundo a Mitologia Grega, Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus, tendo recebido dos demais deuses, conforme o que possuíam, beleza, talento, habilidades. Foi-lhe confiada uma caixa, que lhe incumbiram de cuidar e não a abrir em hipótese alguma. Desobedecendo a ordem, ela abriu-a, e viu surgir de dentro dela todos os males que afligiriam a humanidade.

Assim, como a Pandora da mitologia, Lulu tinha seus "talentos", dados pelos deuses-homens, que lhe cobravam, e muito, um preço alto por eles. Foi, desde o princípio, um misto de mulher explorada e Vamp. Não a Vamp já conhecida e imortalizada por Theda Bara, perigosa e imoral, trazendo a desgraça para os homens. Mas uma mulher diferente, suave, moleca, e ao mesmo tempo forte, posto que conseguia quase tudo o que queria.

Lulu é uma dançarina, que, sendo explorada por um velho (seu primeiro "chefe"), envolve-se com um rico dono de jornal, que lhe informa que se casará em breve. Lulu o ama? Provavelmente não, mas ser deixada em nome da moral não está em seus planos. Afinal, o casamento para ela não é empecilho para continuarem amantes. Os dois acabam sendo flagrados pela noiva, que rompe o noivado. E para que sua honra não seja definitivamente jogada na lama, o homem resolve casar-se com a dançarina. O homem sente ciúmes de Lulu, a quem sabe não possuir. Nem ao corpo nem à alma. Quem a possui, afinal? Talvez nem ela. Após uma cena de ciúme, o marido tenta matá-la. Ela o havia dito que esta seria a única forma de livrar-se! Mas Lulu escapa, e acaba por matá-lo em legítima defesa. Acusada de assassinato, foge com o filho da vítima, e acaba também por envolvê-lo num jogo de sedução, fugas e exploração sexual. Neste ponto ela torna-se mais vítima de sua própria imagem, tendo que se prostituir para sobreviver e sustentar aos outros. Mesmo não tendo uma visão clara do mal que fez, Lulu sofre as conseqüências dele. Na verdade, uma boneca nas mãos dos deuses, ela não é má, apenas não tem a noção da devastação que causa, e se o sabe, não o entende. É tudo tão simples!

O filme chegou a ser censurado durante várias décadas na América, e em alguns outros países, devido às cenas fortes, e quando liberado teve cenas cortadas. Mas o que vemos é um erotismo bem explorado: a inocência quase infantil, o jogo de flertes e a louca juventude da década de 20, naturalmente sensual e que foge da vulgaridade. O olhar de Lulu é mais sexual do que mil mulheres nuas. E talvez por isto mais perigoso. Ela é uma mulher, apenas uma mulher. Livre. E alto é o preço pago por isto. Assim é a mulher de Frank Wedekind, autor da peça que inspirou A Caixa de Pandora. Pabst talvez não soubesse na época, mas faria um dos momentos mais memoráveis de toda a história do cinema: no flagra que a mulher faz de Lulu com seu noivo não temos palavras. Apenas gestos. E mesmo sem elas, entendemos perfeitamente que Lulu conseguiu o que queria, transmitindo erotismo, satisfação, e algo mais, interpretável particularmente por cada um de nós. Isto nos faz pensar na necessidade da palavra, que cobre qualquer tentativa de interpretação. Isso que nos faz querer ver e rever este filme, curiosamente, abrindo caixas e revelando não só os males, mas toda a beleza de interpretar a imagem eterna de Lulu.


Publicado por Carla M. no Adorocinema.com

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