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20.5.08

JAMES STEWART - 100 ANOS

PARTE I - O SR. STEWART VAI À HOLLYWOOD

A primeira vez que vi James Stewart eu era uma criança sonhadora e ele era um palhaço triste. Durante toda a projeção de O Maior Espetáculo da Terra (The

Greatest Show on Earth) ele ficava com o rosto coberto pela maquiagem, enquanto fugia da polícia e de um segredo do passado dentro do circo do personagem de Charlton Heston. Se vem daí ou não o meu encantamento pela figura circense do palhaço faz parte dos mistérios da memória, mas sem dúvida me tocou sua interpretação nesse filme. Mas o que realmente impressiona é que igualmente marcantes foram suas interpretações em TODOS os filmes que assisti dele até hoje.

James Maitland Stewart nasceu dia 20 de maio de 1908 em Indiana, Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos e dia 20 agora estaria completando 100 anos se estivesse vivo. Sua história se confunde com a própria história do cinema. Sua filmografia é tão diversa e tão densa quando um tesouro que merece ser descoberto, daí a grande revolta que me toma sempre que ouço os injustos rótulos colocados nele: ora "americano demais" ora "bonzinho demais", ora "jovem demais", ora "velho demais", ora "franzino demais" ora "grande demais", ora "simples demais", ora "intenso demais". Todas as críticas que diminuem de alguma forma o trabalho dele sempre soaram muito contraditórias. Um clássico exemplo é que certa vez na cerimônia do Oscar ele brincou por sua voz ser muito arrastada, o que o atrapalhava em algumas cenas, e muitos apreenderam isso como uma limitação irrevogável. Mas o fato é que do começo ao fim da carreira Stewart foi sempre chamado para trabalhar em rádio-teatro, longas músicais, narração de filmes, locução de comerciais e dublagem de desenhos. Seu último trabalho foi justamente dublando o xerife do longa animado Um Conto Americano: Fievel Vai Para o Oeste (

An American Tail: Fievel Goes West). Ou seja, trabalhou mais com a sua voz "horrível" do que muitos que eram considerados de bela voz.

O começo de sua carreira em Hollywood, ao lado do amigo Henry Fonda, com quem dividia um dormitório, e da ex-namorada e amiga Margareth Sullavan, todos vindos da Brodway, não foi fácil. Mas o fato de ter os dois amigos tão próximos no começo da carreira ajudou-o a superar sua natural timidez, sendo contratado pela MGM. Estreou aos 26 anos de idade no obscuro curta-metragem Art Trouble em 1934. A seguir participou ao lado do grande Spencer Tracy de Entre a Honra e a Lei (The Murder Man) em 1935. Essa primeira gravação numa cena de uma grande produção foi descrita por ele como o pior momento de sua vida, de tão abalado que ficou diante das câmeras e holofotes. Mas já em 1936 obteve seu primeiro papel marcante na segunda e mais famosa versão do musical Rosie Marie. Baseado na popular opereta homônima, conhecida como a primeira a ter um homicídio como tema central, o filme foi um dos grandes sucessos da dupla Jeanette Macdonald e Nelson Eddy, o mais famoso par romântico do gênero na década de 30. Jimmy Stewart, fazendo o irmão da protagonista, desempenha um papel pequeno, porém chave para o desenrolar de toda a trama. Curiosamente ele aparece mais tempo ilustrando cartazes de Procura-Se do que propriamente atuando, mas bastou uma única sequência pra roubar a cena no filme, expressando toda a sensibilidade que depois ficaria famosa e caindo nas graças dos chefões da MGM. Nessa época viveu um breve romance com Ginger Rogers, o famoso par de Fred Astaire nas telas.

Graças a Margareth Sullavan, estrelou com ela e Ray Milland o melodrama romântico Amemos Outra Vez (Next Time We Love), baseado numa idéia original de Preston Sturges e um dos primeiros a retratar os conflitos de um casal após as núpcias. O filme sofreu críticas por ser exagerado no melodrama, mas foi durante os ensaios para a filmagem com Sullavan que Jimmy perdeu o medo das câmeras. Aliás, o então marido de Margareth, Lelan Hayward, se tornou seu agente na mesma época. Já em Ciúmes (Wife vs. secretary), estrelado por Clark Gable e Mirna Loy, Stewart faz o namorado da outra ponta do triângulo amoroso principal do filme, interpretada por Jean Harlow. Foi sua primeira colaboração com o diretor Clarence Brown, que declararia que a cena aonde Jimmy espera pela namorada num táxi fora "um dos mais notáveis exemplos de representação sutil e emotiva que o cinema apresentara". Marcou presença representando um rapaz simplório em Garota do Interior (Small Town Girl), de William Wellman, onde contracenava com Janet Gaynor e que até hoje é um filme muio copiado em comédias românticas de Hollywood sobre moças ingênuas do campo que se apaixonam por jovens experientes da cidade, mas nunca mais houve um "ingênua" tão esperta como Gaynor. Como protagonista em Volante Ciclone/ No Limite da Velocidade (Speed) foi piloto de corridas. Ao lado de Joan Crawford teve outra grande atuação num pequeno papel em Mulher Sublime (The Gorgeous Hussy).

Estrelou com Eleanor Powell o musical de grande sucesso Nasci Para Dançar/Nasci Para Bailar (Born to Dance), que pode ser considerado o primeiro marco em sua carreira, demonstrando grande química com Powell e dando conta do recado cantando e dançando ao lado dela, uma das maiores sapateadoras do mundo. Também se tornou célebre a passagem em que ingenuamente ele pediu a Cole Poter para cantar mais devagar.rsrs Aliás, as músicas de Cole Poter foram outra razão do sucesso do filme. Ainda em 1936 participou de A Comédia dos Acusados (After The Thin Man), sequência de A Ceia dos Acusados (The Thin Man), comédias policiais baseada nas histórias do grande escritor Dashiell Hammett e que anos mais tarde serviram de inspiração para a criação do seriado de tv Casal 20.

A MGM ainda não sabia bem o que fazer com ele e o jogava pra tudo que é lado, inclusive dentro do sistema de empréstimos entre os estúdios, o que possibilitou trabalhar com vários atores e cineastas. Porém, diferente de outros astros do estúdio como Judy Garland (que tinha que lidar com seus próprios demônios internos e externos) e Nelson Eddy (que era sabotado descaradamente dentro do estúdio), Stewart com seu jeito tranquilo nunca teve problemas com os superiores e sempre se compenetrava a realizar o melhor trabalho, não importava em qual gênero, daí sua versatilidade natural, que a princípio me fazia acreditar que devia haver uns dois ou três atores chamados James Stewart... e realmente havia, pois esse é o verdadeiro nome do ator Stewart Granger, astro de Scaramouche, que adotou esse nome quando ingressou na Sétima Arte, para não ser confundido com o xará consagrado.

Em 1937 teve uma comovente interpretação na refilmagem do clássico do cinema mudo Sétimo Céu (Seventh Haven). Sob a direção de Henry King, a partir da obra-prima original de Frank Borzage, com quem Jimmy trabalharia anos depois, a história narra o difícil romance entre dois marginalizados, Stewart e Simone Simon (a futura Mulher- Pantera dos clássicos de terror da RKO), que encontram um sentido pra suas vidas ao morarem juntos no sétimo andar de um cortiço, até a guerra vir acabar com suas ilusões. James Stewart se confirma neste belo melodrama como grande ator dramático e cheio de nuances, que ainda levariam uns anos para serem devidamente exploradas. Participou de O Último Gângster (The Last Gangster), ao lado do gângster por excelência, Edward G. Robinson, como um repórter que se envolve com a ex-mulher e o filho do dito cujo. Após isso brilhou junto com Robert Young e Lionel Barrymore em Juventude Valente (Navy blue and gold), do diretor Sam Wood, em que três jovens se tornam grandes amigos ao cursarem a Academia Naval Americana em Annapolis, mas entram em atrito quando dois deles se apaixonam pela irmã do terceiro e uma infame acusação põe em xeque a honra e amizade do grupo. Foi assistindo este filme que se revelou para o diretor Frank Capra o melhor tipo papel de Stewart, e que depois o próprio Capra se encarregaria de revelar ao mundo a partir do ano seguinte: o herói simples.

Mas 1938 começou com outra elogiadíssima interpretação no clássico

Ingratidão (Of Human Hearts), estrelada com Walter Huston. Novamente sob a batuta de Clarence Brown, Jimmy faz o papel do filho de um ministro da fé, Huston, que entra em conflito com o pai ao querer ajudar as pessoas no plano terreno como médico. Roubam a cena Beulah Bondi, como a mãe pega em meio à tensão familiar que se sacrifica pelo filho, quando a chegada da Guerra Civil muda o rumo dos acontecimentos e John Carradine, em uma das mais perfeitas representações do presidente Abrahan Lincoln. Vale destacar que na vida real Stewart havia enfrentado o pai, um humilde barbeiro de Indiana, ao largar a faculdade de arquitetura em Princeton para ingressar no teatro e mesmo nessa época que começava a fazer sucesso em Hollywood, o pai sempre o chamava de volta para se casar com uma moça da região e constituir família. Mas ele ficou e teve um intenso romance com Norma Shearer, simplesmenta a viúva do chefão da MGM, Irving Thalbert, e "Rainha de Hollywood". Romance devidamente "documentado" pelos jornais em 1938 e tão fugaz quanto tumultuado.

Reencontrou Ginger Rogers em Que Papai Não Saiba (Vivacious lady), de George Stevens, que começou a ser filmada no ano anterior, mas devido a uma doença de Jimmy fora interrompido, sendo retomado depois com mudanças de parte do elenco, mas mantendo Stewart no papel principal. Este foi um grande acerto, pois esta comédia rasgada sobre um respeitado professor universitário que vai buscar o primo boêmio e volta tendo que contar aos pais que ele próprio se casou com uma cantora de cabaré fez muito sucesso, revelando toda a veia cômica e romântica de Stewart e Rogers numa screwball comedie com bastante sugestão sexual pra época e que faz rir até hoje. Depois foi a vez de seu segundo par romântico com Margareth Sullavan na terceira versão de O Último Beijo (The Shopworn Angel), em que ele vive um soldado prestes a ir para Primeira Guerra Mundial que pede a uma egoísta atriz vivida por ela, para se passar por sua noiva para seus companheiros, mesmo ela estando comprometida com um playboy (Walter Pidgeon). Mais uma vez o filme não fez juz a química do casal em cena.

Finalmente, então,

aconteceu a consagração com Do Mundo Nada se Leva (You Can't Take It with You), de Frank Capra, com roteiro de Robert Riskin, baseado em peça de grande sucesso de George S. Kaufman e Moss Hart, em que Jimmy, num dos muitos empréstimos da MGM à Columbia, vivia Tony Kirby, herdeiro de um grande investidor de Wall Street, Edward Arnold, que se apaixona por uma simples secretária, Jean Arthur (um dos melhores pares românticos de Jimmy), membro de uma anárquica família cujo amável patriarca, um Lionel Barrymore surpreendente, incentiva todos a fazerem o que quiser da vida e serem felizes. Claro que esta postura altruística sempre causa enorme confusão no casarão onde vivem parentes, vizinhos, empregados, agregados e loucos (que devem ter servido de inspiração a muitas sitcoms familiares televisivas anos depois), mas que encantam a personagem de Stewart, mais uma vez confrontando a figura paterna como na vida real, para seguir seu sonho e fazer o que quiser na vida. Ele tenta apresentar seus pais a família da namorada e casar com ela sem que ambas as partes saibam que o casarão onde vivem é o último impedimento para a maior ambição de seu pai, de despejar todas as pessoas da vizinhança e vencer um ex-amigo e atual adversário nos negócios. A colisão dessas tramas é inenarravelmente cômica e supreendentemente emocionante. Os Estados Unidos ainda enfrentavam a Grande Depressão iniciada com a Quebra da Bolsa de Valores em 1929 e os filmes estimulantes e otimistas de Capra causavam um forte impacto no público pesaroso e preocupado da época, que sofria uma enorme catarse com as histórias da dupla Capra/Riskin. A despeito disso, o roteiro sempre competente, a direção sensível e o desempenho sincero dos atores tornavam as obras verossímeis. Do Mundo Nada se Leva (You Can't Take It with You) é contagiante ao apostar todas as suas fichas na simplicidade da vida e suave e envolvente ao tornar isto crível a quem o assiste. Foi o primeiro filme de Jimmy a ganhar o Oscar de melhor filme e o terceiro Oscar de Capra como diretor. Dizem que ele queria Henry Fonda o papel de Tony, mas Stewart acabou chamado e sobressaiu como nunca antes nesta que é uma das comédias malucas com contornos dramáticos mais inteligentes de todos os tempos, e pra alguns o melhor trabalho de Capra, que disse sobre Stewart: "Eu acho que ele é provavelmente o melhor ator que já chegou às telas."

Enfim no auge, Jimmy começou a ser requisitado por todo mundo. Dizem que 1939 foi o ano da ascenção artística quando Hollywood produziu mais filmes de qualidade do que nunca, e nesse ano ele era o grande astro. Fez Nascido para casar (Made for each order), melodrama romântico com Carole Lombard sobre as agruras de um jovem casal, produzido por David O. Selznick; Folias no gelo (Ice follies of 1939), com Joan Crawford, um inusitado musical sobre casal de patinadores, que teve mais propaganda da MGM do que resposta do público; Que mundo maravilhoso (It's a wonderful world), terceiro encontro com o diretor W.S. Dike, de Rosie Marie e Comédia dos Acusados

(After the Thin Man), que rendeu outra hilária, embora não unânime, screwball comedie ao lado de Claudette Colbert. Enquanto isso, Capra queria fazer uma sequência de O Galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes to Town), mas como Gary Cooper não estava disponível, resolveu criar um novo personagem protagonista e chamou Stewart para interpretá-lo. Nascia A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington), onde o líder escoteiro e patriótico Jefferson Smith é chamado para sem saber servir de testa-de-ferro às manobras políticas de um Senador corrupto, Claude Rains, e um empresário poderoso, Edward Arnold, que usam sua secretária, Jean Arthur de novo, para enganá-lo. Mas a cínica Arthur se apaixona pelo honesto personagem de Stewart e revela a verdade a ele que tenta deunciar o esquema, mas acaba responsabilizado por tudo frente a seus pares e a opinião pública. A partir daí se sente todo o poder da máquina política sobre os mais fracos e a única saída da dupla Arthur e Stewart é usar um artifício da própria lei a seu favor e levá-lo até as últimas consequências, mesmo com os políticos e toda a mídia contra. O final é um dos mais lendários e criativos do cinema, com Stewart falando sem parar por mais de 23 horas seguidas (ele chegou a pincelar mercúrio na garganta para simular o desgaste da voz) para um bando de políticos e repórteres egoístas e preguiçosos demais para enfrentarem uma fraude e arriscarem seu próprio status quo. Destaque mais uma vez para o embate final com a figura paterna representada pelo Senador vivido por Claude Rains num final dramático e memorável, que entrou pra história do cinema. A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington) causou muita polêmica ao retratar, mesmo no estilo suave de Capra, políticos como ladrões e jornalistas como bêbados. A Columbia chegou a receber propostas de grupos políticos que queriam comprar e QUEIMAR os negativos! Talvez por tudo isso este seja pra alguns até hoje o melhor filme político já feito, e pra outros também divide a honraria de ser a grande obra-prima de Capra. Jimmy, pelo seu soberbo desempenho foi finalmente indicado ao Oscar pela primeira vez, mas não levou, o que foi e é lembrado como uma das incontáveis injustiças da Academia; mas, sinceramente? Olhando pra trás, a gente acaba notando que não ganhar o Oscar trouxe mais prestígio a muita gente do que ganhá-lo. Coisas de Hollywood.

Naquele tempo havia o episódio das três damas "Veneno de Bilheteria", um boicote feito pelas distribuidoras a Marlene Dietrich, Greta Garbo e Katharine Hepburn, o que praticamente fechou as portas pra elas nos filmes. Direta ou indiretamente Stewart acabou ajudando as três. Primeiro aceitou estrelar com Marlene Atire a Primeira Pedra (Destry Rides Again) de George Marshall, quando ninguém mais quis. Ela não queria fazer um faroeste de jeito nenhum, mas um amigo a aconselhou a topar e o resultado foi sensacional. Enquanto no mesmo ano, No Tempo das Diligências (Stagecoach) elevava os werterns para um gênero sério, Atire a Primeira Pedra (Destry Rides Again) fez o caminho oposto, fazendo uma paródia do velho oeste. Parte do sucesso é creditado a ardente química entre Stewart e Dietrich, que virou romance na vida real, mas não durou, presumivelmente porque ambos eram pessoas bem diferentes. Imagina ele chegando na barbearia do pai na cidadezinha de Indiana e apresentando a Mata Hári como namorada? Marlene não era muito fã do estilo de interpretação de Jimmy, achava-o muito disperso até durante as cenas de amor, mas reconhece que ele foi o pioneiro em superar o estilo do "galã suspirante" que havia em Hollywood antes. Além disso, ela não gostava de quase nenhum ator de Hollywood mesmo... profissionalmente, é claro. ^^

O ano de 1939 foi tão cheio que Stewart não pôde trabalhar com o diretor Ernest Lubitsch, que fazia questão do ator para seu script. Enquanto esperava por ele, simplesmente filmou outro clássico: Ninotchka, com Greta Garbo, e foi a vez dela ser catapultada de volta ao estrelato. Em 1940 Jimmy finalmente foi conhecer o projeto de Lubitsch, o igualmente clássico A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner), uma das mais engenhosas, senão a mais engenhosa, comédia romântica realizada. Jimmy e Margareth Sullavan novamente atuam juntos, enfim com um roteiro a altura do talento de ambos. Stewart faz um empregado de uma loja de presentes em Budapeste, Alfred Kralik, que vive um amor idílico por correspondência com uma desconhecida, enquanto Sullavan é a nova funcionária da loja, Klara Novak, que o detesta à primeira vista, mas curiosamente mantém também um romance profundo com alguém que ela só conhece por carta. Paralelo a isso, o dono da loja investiga a esposa, que acredita o estar traindo. Após muita antipatia e hostilidade recíproca, Alfred descobre que Klara é sua musa, e, obviamente, ele a dela, mas quando tenta consertar as coisas é expulso da loja, pois o dono pensa ter descoberto que é ele o amante de sua mulher. A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner) é um dos mais belos filmes tendo como pano de fundo o Natal. Nem precisa dizer quantos e quantos filmes depois se inspiraram nos desencontros amorosos de Alfred e Klara, incluindo a refilmagem

Mensagem Para Você (You've Got Mail), que foi um sucesso comercial, mas não teve a perfeição entre melancolia e ternura que Lubitsch alcançou no original.

Em seguida Jimmy e Margareth repetem a dobradinha em Tempestades d'Alma (The Mortal Storm), do diretor Frank Borzarge, um drama trágico, em que a ascenção de Hitler ao poder na Alemanha (que ocorrera recentemente na época em que o filme fora feito), afetará a vida de um Professor vivido por Frank Morgan, que vê familiares e alunos contaminados pelo fanatismo ariano. Stewart é um amigo do Professor que é contra o nazismo e se apaixona pela filha do mestre, Sullavan, que está noiva de um partidário do Terceiro Reich, vivido por Robert Young. A situação fica cada vez mais insustentável, tanto na política do país quanto na relação do triângulo amoroso e da família do Professor. Pouco a pouco fica claro que não resta outra saída pra ninguém que seja contra Hitler a não ser o exílio, mas nem todos conseguirão se salvar. Borzage fez um libelo contra a supremacia ariana ao retratar como ela tristemente destruiu uma família e partiu a sociedade alemã ao meio. O inesquecível final cheio de tensão nos Alpes Austríacos, onde a intempérie da natureza é mesclada ao drama humano, é um dos mais bonitos do cinema. Embora a maioria dos fãs de Borzage possa discordar, Tempestades d'Alma (The Mortal Storm) talvez seja a obra-prima do diretor. O embaixador da Alemanha pediu a Lois B. Mayer pra pensar duas vezes antes de lançá-lo, mas não adiantou. O filme fez com que Hitler proibisse a exibição de qualquer produção da MGM em solo alemão e possivelmente foi a primeiro produção descaradamente anti-nazista de Hollywood até ali.

Então Stewart fez A Vida é uma Comédia (No Time for Comedy/Guy with a Grin)

com Rosalind Russel, com quem também teve um breve caso (é, ele não perdoava uma!). O filme era uma comédia ácida com toques de drama, que aparentemente não agradou muito.

Sorte diferente teve Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story). Como já foi dito Kate Hepburn não conseguia mais papéis após seu boicote, mas estava fazendo sucesso no teatro com a peça que inspirou esse filme. Howard Hughes, seu ex-amante e fiel amigo, comprou os direitos e ela conseguiu que aceitassem fazer o filme se algum astro topasse participar. Jimmy foi o primeiro a aceitar o papel, mas houve problemas com Cary Grant, que só topou fazer se seu personagem tivesse o mesmo espaço concedido a Stewart e se seu nome aparecesse primeiro no letreiro... nada demais... hehehe. Graças aos roteiristas, dois personagens da peça foram habilmente fundidos, com Grant ganhando assim mais tempo em cena. Hepburn não queria concordar em ceder seu lugar nos créditos, afinal a história era sobre sua personagem, mas acabou concordando ao ver que as coisas demoravam pra se resolver. George Cukor dirigiu esplendidamente esse formidável elenco, em que Kate vivia uma socialite fútil prestes a se casar pela segunda vez com um homem muito centrado, mas que às vésperas da cerimônia fica terrivelmente balançada por seu ex-marido debochado, Grant, e ao mesmo tempo pelo cínico repórter, Stewart, que veio cobrir a cerimônia e abomina o mundinho da alta sociedade, ao menos até cair nos encantos de Hepburn. James Stewart e Cary Grant foram tavez os maiores entre os maiores astros de Hollywood, mas tinham um bom relacionamento. Uma das mais belas homenagens a Stewart é exatamente um depoimento de Grant sobre uma cena do filme: "Ele fazia papel de bêbado. E era de tal modo convincente naquela cena que se pode ver o meu ar de espanto no filme, admirado com o talento de Stewart." Esse desempenho marcante rendeu a Jimmy nova indicação e, mais que isso, a conquista do Oscar, a qual muitos creditam a uma das muitas tentativas da Academia de consertar erros passados, mas de fato ele foi notável no filme. Kate Hepburn conta em sua autobiografia que o autor da peça viu uma cena de Stewart no set de filmagem, chorou de emoção, e ao fim da mesma deu um grande abraço no ator. Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story) foi boa pra todo mundo, principalmente pro público que ganhou talvez a mais sofisticada e irônica comédia do cinema. Também foi bastante influente e teve uma refilmagem musical, Alta Sociedade (High Society), também um sucesso, mas que também não era a mesma coisa. Outra muito beneficiada com o filme foi a barbearia do pai de Jimmy, já que o astro deu o Oscar de presente ao pai! E ele o colocou na vitrine da barbearia pro pessoal de Indiana poder apreciar. :)

Em 1941 James Stewart teve a sua derradeira colaboração com Clarence Brown em Pede-se um marido (Come live with me), em que Heddy Lamar vivia uma imigrante ilegal com um amante casado que recorre a um escritor frustrado, Stewart, para, com um casamento de conveniência, poder ficar no país. Para isso ela paga um "salário" a ele, financiando seu próximo livro e eles acabam se aproximando cada vez mais. O que serve de inspiração pra sua história, quando se descobre que o editor que enfim publica o livro dele é o amante dela. Uma comédia romântica agradável, não chega a ser um grande filme, mas tem méritos. Clarence Brown conseguiu fazer fluir uma doce história de amor e o tema foi bastante original e revisitado várias vezes depois. Em seguida Jimmy foi novamente dirigido por George Marshall em Ouro do céu (Pot o' gold), comédia romântica musical, onde Jimmy vive um ex-dono de uma loja de música (que também se chama Jimmy) que vai trabalhar na fábrica de seu tio e conhece uma banda famíliar, que seu tio odeia e a qual tenta ajudar, enquanto se envolve com a filha cantora, Paulette Godard. Esse filme divide opiniões. Tem a fama de ser o pior da carreira de Stewart, mas tem muita gente que gosta dele. Na realidade é um filme muito simpático com bons números musicais e é dinâmico nas investidas de Jimmy de tentar esconder de seu tio seu relacionamento com a família de músicos e ao mesmo tempo esconder deles que é sobrinho do homem que os detesta. O Pote de Ouro do título é uma referênica a cultura irlandesa e o filme acaba sendo uma homenagem à música. Seguiu-se então o musical O Mundo é um Teatro (Ziegfeld Girl), o menos conhecido filme da trilogia Ziegfield (tenho a sensação que eu acabei de inventar esse termo). O filme trata de três das garotas da famosa companhia de dança de Ziegfield, Heddy Lamar, Lana Turner e Judy Garland. Das três, só Judy foi elogiada pela crítica. Stewart faz o interesse amoroso de Lana Turner. Nessa época a MGM e seus musicais estavam em franco declínio e acredito que isso se reflita no filme.

Enquanto a MGM chegava ao seu crepúsculo, a guerra na Europa chegava ao seu ápice e James Stewart foi o primeiro astro a se alistar, sem imaginar o que lhe esperaria do outro lado do oceano... e muito menos tudo o que ainda lhe esperaria na Terra do Cinema quando ele voltasse pra casa.

Por Guilherme Martins

2 comentários:

Flapp disse...

Coisa linda!

Estou preparando algo muito mais singelo para os 100 º aniversário de Jimmy e cheguei aqui.
Parabéns!!!!!!!!

Deyvis disse...

Que bom saber que mais gente além de mim não deixou passar em branco essa data! Parabéns, Jimmy, e muito obrigado por existir.

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