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27.5.08

Ladrão de Casaca (To Catch A Thief) — Cary Grant Em Seu Momento Máximo. Grace Kelly Dando Uma Aula de Interpretação. Hitchcock Fazendo Humor.



Noutro dia — um canal da TV aberta —, reapresentou Uma Linda Mulher. Creio que, poucos são os que não virão esta bela película. Engraçado, passado tantos anos, não consigo imaginar a mesma sem a presença de Richard Gere e Julia Roberts. Tantos foram os talentos que surgiram depois — e antes —, mas, não há meio de imaginar outros atores assumindo seus lugares.
De certa maneira — como nos relacionamentos reais —, a química entre atores, é o que leva um simples filme — isto, em boa parte —, a se tornar algo inesquecível para nós. Um exemplo: o reencontro de Julia e Richard em Noiva e Fuga. O que não ocorre com o segundo em Outono Em Nova York, ao lado de Winona Rider. Por mais bem escrito, e lindo que seja o filme, não há nada que aparente ser amor — ou ódio —, no olhar deles, nos trejeitos, etc e tal.
Do mesmo modo, não consigo imaginar ...E O Vento Levou sem a presença forte de Vivien Leight e Clark Gable. Alma Sem Pudor, tendo outros há não ser Joan Fontaine e Robert Ryan. Minha Melhor Garota, sem a inocência no olhar de Mary Pickford e o sex-appel de Buddy Rogers. Simplesmente Amor — um filme realmente onde Rodrigo Santoro dá um banho como ator dramático, com uma intensidade nas frases ditas, que fazem-nos torce por um final feliz —, desprovido de Hugh Grant e Martine McCutcheon. O Amor Não Tira Férias, sem Cameron Dias e Judy Law. E claro, Casablanca, sem a trinca Humphrey Bogart, Paul Henreid e Ingrid Bergman — respectivamente: Rick, Laslo e Ilsa — e, Top Gun sem Kelly McGillis e Tom Cruise.
Mas, de todas as grandes parcerias, Cary Grant — para mim —, é o maior. O irrepreensível galã teve três grandes musas ao seu lado: a mais que explosiva Mae West em She Done Him Wrong, a carismática e talentosa Audrey Hepburn em Charada, e a elegante musa de Alfred Hitchcock, Grace Kelly, em Ladrão de Casaca (1955), onde o sotaque britânico de ambos, embala o filme do gênio.
Confesso, o último é o meu preferido. Parte graças ao trabalho de Grant e Kelly — como dito anteriomente. Outro lado, pelos figurinos de Edith Head — sobre o qual já escrevi aqui no Purviance, tempos atrás —, a fotografia de Robert Burks, a música de Lyn Murray. E um Hitchcock um pouco mais descontraído, permitindo inclusive algumas piadinhas no roteiro — que desconcertam seus fãs, acostumados com a carga de mistério e suspense de seus outros filmes.
Cary havia pendurado as chuteiras, quando certa manhã um telefonema de Alfred o tirou da sua rede — e conturbada vida, segundo as más línguas. Pensara nele para interpretar o papel principal de uma adaptação do livro de David Dodge, ao qual John Hayes estava incumbido de roteirizar para a Paramount — comprara os direitos do autor em 1950, e segundo ele “só haveria uma pessoa no mundo capaz de interpretar John Robie”, este era Grant. Kelly — eterna divã de Hitchcock, desde Disque M Para Matar e Janela Indiscreta —, garantira já sua participação. Grant no início irredutível — estava disposto mesmo a se aposentar —, acabou aceitando: era um pedido de um velho amigo, no mais, ambos eram fãs um do outro e de Kelly, de modo que, viu-se entrando em ação novamente.
As gravações foram descontraídas — e mesmo depois de horas consecutivas repetidas tomadas —, os atores mantinham-se dispostos a gravar. Murray, trabalhou exaustivamente para criar os temas, enquanto via as cenas serem gravadas — quase sempre estava no estúdio, na Riviera Francesa, presente não estava. Os jogos de câmera — marca do mestre do suspense —, ganharam com as intervenções sonoras de Harold Lewis/John Cope, e os efeitos especiais de Farciot Edouard/John Fulton. Tanto trabalho valeu indicações para a Academia e o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Segundo seus biógrafos, o período em que trabalhou em Ladrão de Casaca, fora um dos melhores da vida de Alfred na Paramount.

Sinopse

A abertura do filme é um tanto quanto longa. Hitchcock apresenta todo o elenco, tendo ao fundo uma vitrine, onde a Riviera Francesa é apresentada por cartões postais. O tema mantêm um clima morno, evitando qualquer improvável interferência na paz ali apresentada. Isto é, até que um grito inesperado, leva o espectador a dar um salto da cadeira — experimente assistir a abertura quando a casa estiver em total silêncio, e você irá compreender a ‘pegadinha’ feita por Alfred e Murray —, símbolo para o tema que rege o filme: o roubo de jóias valiosas.
Um ladrão está atormentando as famílias ricas da cidade — idem, as seguradoras. Seu modo de roubar — estilo —, aparenta-se em muito com o lendário ladrão de jóias John Robie, que atende pela alcunha de “O Gato” (The Cat). Todavia, este há quinze anos deixou a vida do crime, quando após ser preso com outros, durante a guerra é libertado — após uma explosão —, e junta-se a Resistência por seis anos, tornando-se um herói nacional, e ganhando por isso a sua liberdade. Robie agora cultiva flores e uvas para sobreviver, e, como mais a frente irá dizer: “tem de provar dia após dia que é um homem regenerado”.
Os inspetores Lépic (René Blancard) e Mercier (Jean Hébey), depois de mais um valiosíssimo roubo — e levados pelos jornais que insistem em dizer que O Gato voltou —, vão até a casa onde John mora, dispostos a levá-lo até Nice para um interrogatório, no intuito de prendê-lo de uma vez por todas. Quando adentramos a residência de Robie, vimos uma brincadeira por parte de Hitchcock. A primeira vista, o gato que apresenta-se no sofá, seria uma referência ao apelido do ladrão, todavia, se notarmos, a cor deste é preta, o que significa azar — conforme tradição. Em verdade, a primeira cena em que Cary é apresentado, já está em maus lençóis, sofrendo acusações de roubo. Após enganar os policiais, e uma perseguição feita por automóveis de tirar o fôlego. John Robie (Cary Grant), procura um antigo companheiro da resistência chamado Bertani — no papel, Charles Vanel —, atualmente dono de um restaurante, que emprega ex-ladrões e membros da Resistência que atuaram com John. Os mesmos — seus ex-companheiros —, estão furiosos com O Gato, visto este ter voltado ao crime — caso o perdão de liberdade seja revogado pelo Governo para Robie, o mesmo pode ser feito com estes. Bertani intervém. John afirma que há quinze anos não rouba mais nada. Quando sabe que a polícia encontra-se no restaurante, o proprietário pede que Danielle — Brigitte Auber — filha do garçom Foussard — manco, pois usa uma perna de pau —, que o leve de lancha à Cannes, prometendo enviar alguém para ajudar John a se livrar da encrenca — Robie deseja ter uma lista dos donos das mais valiosas jóias da cidade, para descobrir quando será o próximo roubo. Danielle, apaixonada por John, assim o faz. Ocorre uma perseguição em alto-mar. A jovem tenta convencê-lo a fugir com ela para a América do Sul em vão.
Conforme o prometido, Bertani manda Hughson — John Williams —, persona de grande importância da Lloyds Seguros de Londres, que está tendo prejuízos enormes para pagar o seguro das jóias roubadas. Um acordo ocorre, Hughson dará a lista para Robie, se este conseguir pegar o verdadeiro Gato. Nova perseguição entre as estreitas ruas de Cannes, e uma cena de comédia um tanto quanto ingênua, mas divertida no fundo entre cestos de flores. Devido o orçamento, a mesma fora alterada do original, ficando mais curta.
Livre da polícia, e com a ajuda do agente da seguradora, John hospeda-se em um hotel — mas, precisamente o Carlton Hotel —, onde estão à senhora Jessie Stevens (Jessie Royce Landis) e sua filha Frances (Grace Kelly), afortunadas graças aos poços de petróleo que têm. Robie acredita, que uma das próximas vítimas será a senhora Stevens, de modo, que tenta aproximar-se destas. Obtém isto no cassino, apresentando-se logo depois como Conrad Burns, dono de uma madeireira no Oregon. Enquanto a mãe, demonstra simpatia para com o novo conhecido. Grace Kelly rouba a cena, não deixando transparecer sentimento ou emoção alguma, mesmo diante dos insistentes flertes com os olhos por parte de John — na verdade, ela já o tinha visto na praia. Seu modo de sentar a mesa, ou quando se retira, seu trejeito, mostra realmente que ela só poderia ser uma princesa no futuro — o que por sinal, infelizmente, terminou com sua carreira artística. Creio eu, que se fosse um pouco mais longe, e se esforçado, poderia ter-se tornando tão célebre quanto Catherine Hepburn. Tudo o que ela queria era ser lembrada como uma atriz — e infelizmente, o que nos ficou foi seu nome ligado a um título.
Frances mantêm-se distante, a ponto de Robie — e nós os espectadores — perdermos as esperanças, quando rouba um beijo do ex-ladrão, fecha a porta do quarto, e, deixa-o atônito do lado de fora.
Na manhã seguinte, outro roubo é a notícia da cidade. Hughson insiste para que a senhora Jessie, guarde suas jóias no cofre. Ela ri, e diz que não pode andar com o mesmo pendurado no pescoço.
— Mas, elas devem de ter pelo menos um valor sentimental — prossegue.
— Para mim, elas não têm valor sentimental algum. Uso-as para não envergonhar minha filha. Ou pelo menos, para que ela tenha menos vergonha de mim — responde, noutro momento. Algo que a filha escuta.
O ar gélido de Frances, muda da noite para o dia. Robie e ela vão até a praia. Todavia, antes, o mesmo recebe uma ameaça. Na praia, Danielle surge, trava uma conversa com John, e insiste para que ambos fujam para a América do Sul, compara Frances a um “carro velho”. Em um piquenique, Frances diz à John que sabe de toda a verdade, de que ele é um ex-ladrão, e, mesmo sobre diversas negativas e insistentes “eu sou Conrad Burns”, ela pergunta se ele seria capaz de roubar a mãe dela. Antes de voltarem ao hotel, Frances que dirige o carro, despista a polícia.
Na suíte do hotel, mostra para John onde estão as jóias, provoca-o a roubar. Ele a deixa, depois de alguns beijos.
Logo depois, as jóias da senhora Stevens desaparecem. Frances acusa John de ter roubado tais. Deixada no quarto dele, põe-se a vasculhar seus pertences.
O verdadeiro ladrão não é John, isto se sabe, mas, alguém que por sinal conhece bem seu método de trabalho. O próprio Hughson está com um pé atrás no que se refere a ele, com medo que, sua idéia não tenha sido tão boa assim — visto não ter obtido os resultados tão desejados, até o momento. Agora, mas do que provar sua inocência para a polícia, Robie tem uma dívida para com seus amigos e a mulher que veio a se apaixonar.
Ladrão de Casaca é uma mistura de comédia, romance, policial e suspense, em doses certas. Os suspeitos são muitos. Hughson em certo momento, confessa já ter enganado a seguradora, e uns hotéis levando “algumas lembrancinhas”. O passado da milionária senhora Jessie Stevens, não é lá muito limpo, sentindo nostalgia do marido, que vivera muitos anos a base de trapaças. A certa altura diz que trocaria toda a sua fortuna para que ele estivesse ali, e pudessem ‘viver como antigamente’. Frances, quer de certo modo chamar a atenção da sua mãe — ela não é tão mimada, apenas, carente.
Depois deste filme — sucesso de crítica e público —, Grace conheceria o príncipe Rainier, e daria adeus ao cinema. Grant, no entanto, adiaria sua aposentadoria por mais um tempo. Hitchcock criaria outros clássicos. E muitos diretores, passariam a gravar as cenas de perseguições de helicópteros.
Quanto ao final? Vou lhes dar apenas uma dica: há mais de um ladrão, mas as patas do Gato são mais fêmeas do que se imagina. Uma bela fêmea, por sinal.

Colaboração: Ricardo Steil — Itajaí/SC

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