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19.5.08

Silent actress: as doces e esquecidas damas do silêncio

Quando o som ainda não existia, os gestos e o olhar tornaram-se o princípio de tudo. No início havia um certo de temor dos atores em serem reconhecidos, pois a nova arte ainda caminhava, e muitos a viam como arte menor; Algo parecido com o que ocorre hoje em dia entre os que fazem cinema e os que fazem televisão. Além disso, os produtores negavam-se a colocar os créditos, temerosos que futuramente os astros, já famosos, pedissem cachês mais altos. Diante disso, as atrizes eram conhecidas pelos nomes das Companhias onde trabalhavam. Assim, Florence Turner ficou conhecida como a "Vitagraph girl". Turner estreara na Vitagraph em 1906, e se tornara a atriz mais popular da companhia. Florence Lawrence era a sua rival mais direta na Biograph, sendo mais conhecida como a "Biograph girl". Após alguns sucessos como Ressurrection, Lawrence recebeu uma proposta para tornar-se a "Imp girl", em outra companhia. Um golpe publicitário foi lançado (um dos primeiros em termos de marketing hollywoodiano) em que publicaram nos mais diversos jornais que a jovem atriz teria sido atropelada.
Com o sucesso crescente do cinema, a partir de 1910 já era impossível ocultar o nome das estrelas. E surge Mary Pickford, a "The Girl With The Curls" (Garota de cachinhos), uma canadense acabou por se tornar a primeira namoradinha da América. Pickford vinha do teatro, e fez sucesso interpretando adolescentes e crianças, graças a sua baixa estatura, sendo lançada no cinema por David Griffith. Em 1918 era a atriz mais bem paga do cinema americano, fazendo mais de 200 filmes (a maioria mudo) e fundando, juntamente com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks (seu marido na época) e D.W. Griffth a United Artists, sua própria companhia de filmes. Sua imagem angelical acabou por influenciar outras atrizes que vieram, como Mae Marsh e Olive Thomas. Mary ganhou seu Oscar pelo filme Coquette, onde, curiosamente, interpretava uma mulher compatível com sua idade e sem seus famosos cachinhos dourados. Sua cunhada, Olive Thomas (casada com o também ator Jack Pickford), graças ao seu carisma conseguiu enorme sucesso nas telas. Chamando a atenção desde criança com seus olhos violetas (sim, antes dos famoso olhos violetas de Liz Taylor existiram os de Olive), ela ganhou alguns concursos de beleza e fez parte das dançarinas do ziegfeld Folies. Em 1916 ela estreou em Hollywood, assinando com a Selznick Pictures. Em suas fotos publicitárias Olive aparece sempre angelical e com um ar saudável, o que destoava com a sua vida privada, regada a orgias, drogas e bebidas desenfreadas. O casamento com Jack Pickford (também famoso por seus vícios) viria para apaziguar uma possível revelação do seu passado. Não foi suficiente: após uma noite de farras e drogas, Olive foi encontrada morta, provavelmente de overdose de medicamentos. Tinha somente 26 anos. Cogitou-se que sua morte foi devida a uma combinação errada de bebidas e comprimidos, mas também comentou-se que ela teria ingerido uma dose enorme de uma medicação utilizada na época para combater a sífilis, prescrita por seu marido Jack. Falou-se também em suicido. Depois das investigações, a morte foi considerada acidental, Jack liberado e Olive Thomas esquecida.
Por outro lado haviam as vamps, mulheres egoístas e capazes de tudo para satisfazer o seu ego e conseguir dinheiro e fama, passando por cima de tudo. Mulheres "fabricadas" para chocar a sociedade. Nessa classe, a primeira a ganhar destaque foi Theda Bara, nascida em Ohio, mas, para aumentar a áurea de mistério, dizia-se que era filha de um artista francês com uma amante árabe. Foi divulgado que seu nome era um anagrama de Arab Death (morte árabe). Pronto, eis um ícone. Foram ao todo 40 filmes, com personagens como Cleópatra e Salomé, mas boa parte do que foi produzido foi perdido. Theda, na verdade, mantinha uma vida discreta. Ao contrário de sua contemporânea Clara Bow, um dos símbolos sexuais mais marcantes do cinema, e que tornou-se mais lembrada por seu comportamento fora das telas do que nela. Clara começou a carreira ganhando um concurso de beleza, e com isso uma aparição rápida numa película. "It" (1927) acabou sendo seu maior sucesso, passando então a ser conhecida como garota "It", numa clara referência ao filme. A atriz seria protagonista do primeiro filme a ganhar o Oscar, "Asas". Aos 25 anos já tinha realizado mais de 50 filmes. Os escândalos eram freqüentes (homens e mulheres iam e vinham em sua vida, enquanto a bebida e os jogos lhe corrompiam). Conhecida como ninfomaníaca, teve entre seus amantes Gary Cooper, Eddie Cantro, Bela Lugosi (!), rex Bell (com quem casou). Foi quando chegaram os filmes falados e a decadência na carreira. Sua voz em nada ajudou, alguns problemas mentais (herança materna) tomaram conta dela e ela acabou abandonando as telas.
Enfim Louise Brooks. Esquecida durante muito tempo, após a década de 60 tornou-se cult. Teve uma carreira cinematográfica curta (24 filmes entre 1925 e 1938), porém marcante. O corte melindrosa, foi amplamente divulgado após ela aparecer com ele em filmes como "Pandora’s box" . A atriz tinha uma personalidade forte, e negava-se a seguir à cega as ordens, o que lhe rendeu a fama de má profissional e explosiva. Após ser renegada pelo cinema americano, Louise que, assim como Olive Thomas, foi uma ziegfeld girl, retornou às raízes, tornando-se dançarina e posteriormente professora de dança. Dizia-se que em determinado momento de sua vida, também foi prostituta, mas revelou-se uma ótima escritora, relatando fatos de sua vida em seu livro "O diário de Lulu".
Tantas foram as estrelas, hoje já esquecidas na poeira... Imagens distorcidas, de um tempo em que vida e filme se confundiam. Elas fizeram a alegria e a tristeza daqueles primeiros amantes da arte cinematográfica. Seus filmes e suas imaegns seriam esquecidos, porém nunca apagados.

Por Carla Marinho em http://jc.uol.com.br/2008/05/19/not_169129.php

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