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19.6.08

Iniciais BB — A Autobiografia de Brigitte Bardot




Lembro como se fosse ontem, da primeira vez que ouvi o nome Briggitte Bardot. A década havia iniciado, o Kuwait e o Iraque, trocavam os primeiros tapas que desencadeariam em uma guerra que a televisão transmitiria ao vivo — a maioria das vezes, através de plantões (até hoje, sinto frio na barriga, quando a música do Plantão Globo, audível se faz). E eu, ah eu, dava meus primeiros passos na carreira literária, enviando as oitenta laudas datilografadas do livro — Sapo, o Detetive Particular —, para a Editora Ática — o sonho de todo o escritor. Nesse intervalo da espera por uma resposta — negativa, por sinal, o que pode se esperar do primeiro romance escrito por um menino de onze anos —, do medo que o conflito desencadeasse uma guerra em proporções maiores — conforme as centúrias de Notradamus —, e tendo o coração dividido pelo amor não correspondido de duas garotas — passara já a fase de me apaixonar toda a semana por alguma menina diferente —, discutia o recreio inteiro com meu amigo Itamar, um meio de mudarmos o mundo — você sabe, quando jovens, todos queremos mudar o mundo —, até que um dia, veio a cair em nossas mãos o livro Utopia de Karl Marx, e sua teoria socialista nos deixou abobalhados. Sim, era possível! Nós iríamos mudar o mundo, implantando tal idéia.
E enquanto, tentávamos em vão tornar nossa pátria em um país como a extinta URSS, estudávamos e pesquisávamos tudo o que havia sobre o assunto — na época, você deve compreender, a Internet não existia ainda e, computadores eram assuntos de filmes de ficção científica —, de modo que, tornamo-nos em ratos de biblioteca, abrindo empoeiradas edições Barsa, do Mirador, etc e tal.
O Pasquim — revista reacionária — nos instruíra muito, assim, descobrimos o militarismo, os anos de ditadura, a coisa horrível toda que aconteceu nos anos que antecederam nossos respectivos nascimentos.
Perto do final do ano — entregara meu coração a uma das duas meninas, infelizmente, jamais correspondido — a Globo apresentara uma minissérie sobre estes terríveis anos de ditadura, intitulada Anos Rebeldes — e nós, vimos então, uma nova fonte de conhecimento.
Esta minissérie tinha uma abertura linda, toda em desenhos psicodélicos e, tocava uma música do Caetano Veloso — Alegria, Alegria —, onde o poeta cantava: “...as pernas de Brigitte Bardot”.
Mas, quem era esta mulher, por que dela em meio a uma música de um cara que era — e para muitos ainda é —, celebrado como gênio?
Perguntei à duas professoras quem era afinal Brigitte Bardot. Me fuzilaram com os olhos, respondendo ser “somente uma mulherzinha”.
Mas, o que queria dizer, “uma mulherzinha”? Uma terceira foi mais simples: “qual sua curiosidade sobre esta mulher escandalosa, que não passa de uma....”. Melhor, não completar a sentença — o resultado é que aprendi um tabuísmo que hoje em dia, não choca mais ninguém.
Então, Brigitte Bardot era isso, uma... Deus, mas como ela pode estar em meio a uma música tão interessante?
Um professor falou-me por outra perspectiva, após um assovio: “É uma linda mulher, uma loiraça rapaz, com umas pernas...”.
E fiquei sem saber ao certo quem era Brigitte Bardot, por muito, muito tempo.

A Primeira Vez Que A Vi

Os anos passaram a nascer e morrer com mais velocidade, do que naquela época. A inocência — saudosa inocência — perdida fora nalgum canto. Minha cidade, começava a trilhar o caminho da urbanização. As ruas, em grande parte, não mais eram de barro. Automóveis circulavam por todos os lados, e pegar na mão de uma menina tendo ao fundo o pôr-do-sol, não era mais cena de filme da Sessão da Tarde, mas realidade — isto é, de vez enquanto. A guerra não se espalhara pelo mundo — Notradamus, errara —, amava ainda aquela menina, mas ela, estava longe, longe demais. A URSS caíra por terra, e o sonho socialista passara a ser ilusão.
Tinha um emprego: era office-boy. Lia o tempo todo, continuava aperfeiçoando-me como escritor. Dominava alguns acordes de guitarra, mas, solar que é bom, nada. No punk-rock me encontrei. Não havia guitar-leaders, só acordes — três, quatro no máximo —, e muito, muito barulho.
Sendo que, agora trabalhava, comecei a freqüentar o cinema — principalmente as matinês, que eram mais baratas (office-boy, ganha maus paca). Foi onde conheci os grandes clássicos.
Brigitte, havia desaparecido da minha memória. Isto é, até aquela tarde, que após terminar o meu trabalho mais cedo, vi um cartaz anunciando uma sessão dupla da francesa (...E Deus Fez a Mulher e A Verdade).
“Brigitte... Brigitte Bardot, onde ouvi esse nome?”, indaguei-me. Logo, veio-me à memória tudo o que ocorrera naquele início da década de noventa.
“Então, Brigitte Bardot é uma atriz. Mas, porque ninguém me falou isso antes?”, perguntei-me, pagando a entrada. Disposto a tirar minha própria conclusão sobre ela.

A Atriz

Confesso que como atriz, Brigitte Bardot não me impressionou tanto. Quer dizer, ela trabalha muito bem, em A Verdade. Mas, não fui tocado lá no fundo, compreendem?
Saindo do cinema, todavia, o mistério mantinha-se ainda. De certa forma, não decifrara quem era em si Brigitte Bardot.
Ao longo dos anos, descobri que as opiniões quanto ela eram sempre estas: de mulher promíscua ou dona de belas pernas. Mas, isto não me satisfazia — e a maioria das pessoas que falavam dela, mal tinham visto uma película na qual a mesma atuou. E o pior, para eles, a francesa ainda era jovem, como um dia todos fomos!
Brigitte era um mistério. Como fora um dia o primeiro beijo, ficar acordado até o sol raiar, os presentes que surgem do nada embaixo da árvore de Natal, ou porque, amamos sempre quem não nos ama. Coisas assim.

Um Novo Encontro

Os anos persistiram em continuar passando rápido. Meus cabelos, hoje são brancos — pintou-os, confesso —, já sei solar alguma coisa. Itamar está casado. E eu, bem, vivo a procura de uma mulher romântica, que goste de flores e jantar a luz de velas — e enquanto não a encontro, sigo o meu caminho. Também desisti do sonho de mudar o mundo.
Noutra noite, eis que me deparo novamente com Brigitte Bardot, ou melhor, suas memórias — escritas por punho próprio —, e sem pestanejar, compro-a, disposto a matar de uma vez por todas minha curiosidade.

O Livro

A autobiografia de Brigitte é um livro interessantíssimo — e suas seiscentas e seis folhas, são poucas para uma personagem tão fascinante.
Bardot relata do instante do seu nascimento até o momento em que decide largar o cinema e dedicar sua vida em prol dos animais. Cada capítulo é aberto e fechado com uma reviravolta. As fotos — poucas — são imperdíveis. Inevitável é, digressões da autora entre um parágrafo e outro — mas, quem sou eu para culpá-la. Sofro do mesmo mal.
Brigitte conta detalhes da sua infância que são de assustar. As neuroses de seus pais, com relação aos germes — a maioria do tempo a casa permanecia fechada, para que evitar que eles contraíssem doenças, não podiam ter gatos ou cachorros — juntamente com Mijanou, sua irmã mais nova —, a usar, mesmo durante o verão, camisetas e calcinhas de lã, obrigada era. E se o lençol da cama tivesse com uma dobra mal feita, apanhavam sem dó nem piedade.
Certo dia, em meio a uma brincadeira, ambas quebraram um vaso que estava na mesa. Condenadas foram, a nunca mais, chamarem seus progenitores de papai e mamãe pelo resto dos seus dias:
“Recebemos cada uma dois tapas na cara! [...] Mamãe, fora de si, fez cair sobre nós uma sentença, curta, seca, sem apelação e determinante: ‘A partir de agora, vocês não são nossas filhas, são estranhas e, como pessoas estranhas, quando falarem conosco devem dizer: senhor e senhora. Não se esqueçam também de que nada daqui lhes pertence, que está casa não é de vocês...”.
As brigas dentro do seu lar, a tentativa de suicídio de seu pai, as reuniões no final do ano, o sarcasmo e falsidade por parte dos adultos, são descritos de forma assustadora. Também como, o porque dela detestar arte africana e egípcia.
Mas em meio a isto, Brigitte relata como descobriu a dança — entre os anos de guerra —, sua primeira paixão, e os momentos ao lado da melhor amiga Chantal e avós amoráveis.
O tempo vai passando, e a pequena, procura seu lugar no mundo, até que, convidada é para fazer a capa de uma revista. Se não fosse a intervenção de seu avó, provavelmente, ela jamais teria conseguido fazer uma capa, visto, seus pais serem contra, já que “modelos e atrizes, não passam de mulheres de vida fácil”.
Outra cena inusitada é quando ela e Vadim — primeiro marido e namorado —, chegam uma hora mais tarde em casa:
“Tendo chegado depois de meia-noite, meu pai, branco de cólera, esperava-nos de pé na estrada.
— De onde vêm vocês, a esta hora?
— Do cinema — Vadim responde.
— Do cinema [...] Você está zombando de mim! Não se leva duas horas para vir do Champs-Elysées!
— Viemos andando devagar.
[...] Meu pai sacou então um revólver de seu armário, apontou-o para Vadim e disse:
— Amiguinho, eu o previno de que se você tocar em Brigitte, eu o mato!
Mamãe chegou justamente naquele momento, só de roupão. Tomou o revólver das mãos de papai [...] Mas, por sua vez, ela o apontou para Vadim e gritou:
— Se meu marido não tiver coragem de matá-lo, eu é que o farei!
A célebre atriz, conta o quanto sofre uma iniciante na profissão, na mão de maquiadores, cabeleireiros, diretores e produtores.
Em meio a um dos seus primeiros filmes, descobre-se grávida, e como toda mulher, sente enjôos constantes.
O produtor Jacques Bar aproxima-se dela, com um charuto e indaga com cinismo:
— O cheiro do charuto não incomoda?
— Incomoda sim, senhor, não estou me sentindo muito bem — responde, mesmo com medo de perder o emprego.
Recebe então uma baforada no rosto, e escuta dos lábios deste:
— São os ossos do ofício.
Logo depois, Bardot faz o primeiro de seus abortos.
Até ser considerada como uma atriz, ela passou por todos os trâmites que uma profissional da área passa.
Adulta, acompanhamos como surgiu ...E Deus Fez A Mulher. As noites que passa sozinha em casa, com sua cachorra Guapa, enquanto Vadim se diverte com prostitutas, jogatina e bebida.
A vida amorosa de Bardot é um desastre — algo assim, trágico, só mesmo a de Rita Hayworth ou Lana Turner. Seu único encontro com Marlon Brando, também.
Famosa, vê-se cercada pela imprensa. Devido sua atuação em ...E Deus Fez A Mulher e seu envolvimento com um homem casado, vira símbolo da luxúria. Uma foto sua é colocada dentro de uma igreja para representar o pecado da carne.
Outros fatos interessantes: seu encontro com Picasso e Marilyn Monroe. Sua aparição na estréia de ...E Deus Fez A Mulher em Cannes, sendo que, tomara remédios para manter-se em pé, visto ter sofrido dias antes, uma hemorragia. Traições por parte de seu secretário, tentativas de suicídio.
O Brasil ganha destaque nas memórias da francesa. Segundo seu relato “o povo é maravilhoso, alegre. Trata-me com respeito, todos me cumprimentam nas ruas, e não fazem piadinhas”. E suas tardes ao lado de Jorge Ben Jor, são inesquecíveis “cantando bossa-nova e rindo muito”.
O filho Nicolas, também é destaque na sua autobiografia.
Um único arrependimento que surge em meio as suas memórias, o de ter preferido a carreira, do que continuar casada com Jean-Louis Trintignant, ao qual declara “ser o grande amor da sua vida”. Transcrevo o último encontro do casal:
“No primeiro dia de filmagem, cheguei nos estúdios de Boulogne um pouco nervosa. Despenteada, de óculos escuros, carregando minha sacola, um pouco atrasada como de hábito, eu corria pelo corredor, quando dei um encontrão em alguém.
— Desculpe — e quase desmaiei! Era Jean-Lou, que eu não tinha mais visto desde... desde a nossa separação.
— Como vai?
— Eu estou bem.
— Está filmando aqui?
— Sim, estou.
— Bom, então, tchau!
— Tudo bem, tchau...
[...] Subi a escada como uma sonâmbula.
Eu o amei tanto, eu o amava ainda, mas não pude lhe dizer isso, estava comovida demais, apressada demais, e ele também. E, além do mais, eu estava feia com os meus óculos, sem artifício de qualquer espécie. Isso aconteceu no mês de maio de 1961.
Nunca mais voltei a vê-lo”
Para encerrar sobre o livro, gostaria de destacar somente mais um parágrafo, dos inúmeros que este contem — todos interessantes:
“Alain Delon me irritava muitíssimo.
É preciso dizer que naquela época ele era odioso, só pensava no azul dos seus olhos, na sua carinha bonitinha e jamais na sua parceira [...] Não me olhava nunca nas cenas de amor, mas para os refletores colocados atrás de mim para ressaltar o azul dos seus olhos [...] O coquetel Delon-Bardot revelou-se insignificante...”

Curiosidade Saciada

Noutro dia, um leitor — no MSN — veio me perguntar, se acaso eu sabia quem era Brigitte Bardot.
— Quem é Brigitte Bardot? — digitei.
— Sim, vi algumas fotos dela, mas queria saber, o que você acha, já que gostas tanto de cinema clássico.
— Bem meu caro, como atriz, ela jamais me tocou lá no fundo — havia assistido, tinha alguns meses, outro filme dela Viva Maria de 65, o que ressaltara meu conceito sobre seu trabalho artístico —, mas, uma coisa eu sei, como pessoa, ela foi, e é, uma das mulheres mais fascinantes do qual li.
— Mais do que Monroe?
— Sim, com toda a certeza. Bem, mais.

Colaboração: Ricardo Steil — Itajaí/SC

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