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17.6.08

JAMES STEWART - 100 ANOS


PARTE II - COMO SERIA O CINEMA SE JIMMY NÃO TIVESSE EXISTIDO?


Quando regressou, após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, James Stewart já era tenente-coronel do exército norte-americano, depois de iniciar a guerra como recruta e pegar no pesado, realizando várias missões como piloto de bombardeio. A princípio, não quiseram aceitá-lo com medo que morresse em cobate, mas ele tanto fez que conseguiu participar das missões. Dizem que houve uma enorme fila admiradoras do sexo feminino no aeroporto quando ele embarcou. Ainda assim demorou pra voltar e, de certa forma, sua vida passou a estar sempre ligada às Forças Armadas. Continuou na Força Aérea como reservista até chegar a General-Brigadeiro e se aposentar mais tarde nos anos 50. Todos as suas medalhas foram fazer companhia ao Oscar ganho por Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story) na vitrine da barbearia do pai na Pensilvânia. Mas a guerra o abalou pra sempre.
Nunca falou sobre ela, o que muitos creditam ao choque de ter matado tantas pessoas, além de ver seus companheiros morrerem. Inegavelmente passou por um crise que o fez pensar em largar o ofício de ator. Lelan Hayward não era mais seu agente, nem tinha mais contrato com a MGM, e, enquanto ele servia na guerra, muitos outros atores ficaram em casa preservando sua fama junto ao público, enquanto Jimmy só havia participado de documentários feitos pelos Aliados enquanto estava no front. E os que foram depois dele, que foi o primeiro, voltaram mais cedo. Sem falar dos novos astros que surgiam. A Segunda Guerra foi um divisor de águas em Hollywood como não se via desde o fim do Cinema Mudo e muitas estrelas do passado perderam seu espaço. Algumas ainda arrumaram trabalho, mas nem todas com a força de antes, se tornando pálidas sombras do que tinham sido. Nesse cenário difícil, se tornava ainda mais grave o desencanto dele pelo trabalho.

Foi quando, em 1946, Lionel Barrymore o chamou a participar de um projeto de Frank Capra, que se tornaria sua última e mais marcante parceria com o diretor. Um filme chamado A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life). Capra, que também acabara de voltar da Guerra, tinha fundado a produtora independente Liberty Films com George Stevens, William Wyller e Sam Briskin pra produzir o filme com distribuição da RKO. Apesar da impressionante afinidade que havia entre Capra e Stewart, neste filme, assim como em Do Mundo Nada Se Leva (You can't take it with you) e A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith goes to Washington), o astro não foi a primeira opção para o papel. Inicialmente queriam que Cary Grant protagonizasse ao lado de Jean Arthur, mas não conseguiram nenhum dos dois. Depois do astro, ainda tentaram Olivia de Havilland e Ginger Rogers (ambas atrizes que viveram um romance com Jimmy na vida real), mas no fim acabaram contratando Donna Reed, que no ano anterior tinha feito o clássico do terror O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray) na Metro, o que se revelou um grande acerto. Ela até mesmo recusou dublê em uma das cenas em que devia arremessar uma pedra, pois era exímia jogadora de basquete. A história é baseada num conto de Philip Van Doren Stern, que foi estendido no roteiro, co-escrito pelo próprio Frank Capra, mas é nítida a inspiração também em Um Conto de Natal de Charles Dickens.
A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life) é a história de George Bailey, mas também é um pouquinho a história de cada um de nós, inclusive do ator que o interpretou. George cresceu na cidadezinha de Bedford Falls e sempre foi um jovem sonhador. Queria viver, viajar o mundo, construir grandes obras, mas seu coração sempre acabava mudando o seu destino, fazendo-o se sacrificar por alguém. Salvou a vida do irmão, mas ficou surdo de um ouvido (outra semelhança com Stewart que tinha problemas de audição), impediu um farmacêutico com quem trabalhava de ministrar um remédio errado a uma criança, ajudou seus amigos e vizinhos e, mais importante, contra a sua vontade assumiu o negócio de seu pai e seu tio Billy, os quais emprestavam dinheiro sem juros aos habitantes da cidade para que eles pudessem financiar sua casa própria, atitude que era constante entrave nos negócios do milionário Henry Potter, Lionel Barrymore, que ganhava uma fortuna explorando a população de baixa renda da cidade com aluguéis caríssimos. No entanto, isso arruinou o sonho de George de fazer uma faculdade, mas ele seguia sonhando... E sonhando George continuou na sua cidadezinha... Compartilhou esses sonhos com sua amiga Mary, Donna Reed, uma jovem também sonhadora, e por quem se viu irremediavelmente apaixonado, mas o único sonho que acabou conquistando foi se casar com Mary, enquanto seu irmão já terminara sua faculdade, casara e seguira carreira trabalhando com o sogro... E George continuou na sua cidadezinha... Até que Henry Potter tenta comprá-lo, mas George segue seus princípios, ganhando um inimigo. Os anos passam, os filhos nascem, uma guerra vem e se vai, a vida encarece... e George continua na sua cidadezinha... Até que um dia, próximo do Natal, as coisas vão ficando cada vez mais difíceis, chega a um ponto em que todos os amigos de George em Bedford Falls dependem dele, enquanto ele mesmo mal consegue sustentar a família. O âmago do drama ocorre quando Potter se aproveita de uma distração do Tio Billy, tendo a possibilidade destruir George e amigos em mãos e aproveitando pra se vingar. Desesperado, George vaga de bar em bar sem achar uma solução fora do copo de bebida e como último recurso decide se matar para a família poder aproveitar o seguro. Ele se dirige a uma ponte decidido a pular.
Porém, ao chegar lá algo inesperado acontece: outra pessoa pula da ponte primeiro! George se joga pra salvá-la e assim conhece Clarence, Henry Travers. Após se abrigarem, George desabafa com ele dizendo que seria melhor se não tivesse nascido. Clarence, então, se revela como o seu anjo da guarda, em missão para conseguir suas asas. Segundo ele toda vez que um sino toca um anjo ganha asas (óbvia referência a Peter Pan) e então realiza o desejo de um incrédulo George. Ele volta então a Bedford Falls e, choque após choque, vai descobrindo a verdade nas palavras de Clarence. Naquela que talvez seja a reviravolta mais fantástica da história do Cinema, George não reconhece seu lar e não é reconhecido por seus entes queridos... PORQUE SUA VIDA FOI APAGADA DA EXISTÊNCIA!

É muito difícil comensurar num texto a importância de A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life) na cultura popular mundial. O filme não fez muito sucesso na estréia, mas mesmo assim a produção foi indicada a vários Oscars, incluindo diretor e ator para Stewart, mas foram perdidos para Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Beste Years of Our Lives), filme com orçamento cinco vezes maior sobre a dura readaptação de três ex-combatentes da Segunda Guerra à seus lares e, ironicamente, dirigido sob contrato pra MGM por William Wyller, um dos sócios da Liberty Films, que acabou falindo. Talvez por essas e outras, Wyller ficou conhecido como "diretor de encomenda", já que sua única tentativa de criar obras independentes foi prejudicada indiretamente por seu trabalho para uma grande produtora. Mas seria absurdo culpá-lo por sua competência. Até porque se você perguntar a dez cinéfilos qual dos dois é melhor, uns vinte vão aparecer dizendo que é A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life). Isso porque o filme de Wyller tem um grande valor histórico e é um clássico, mas o de Capra é uma obra atemporal e uma verdadeira lenda, praticamente o filme mais copiado de todos os tempos. Sua trama, seus personagens e conceitos são usados ou citados constantemente em vários meios de comunicação. Então por que ele não fez o sucesso esperado? Porque o mesmo público que antes prestigiava Capra quando queria espantar o fantasma da Depressão, agora parecia ver sua obra como algo antiquado e ingênuo para um mundo pós-Guerra, de onde os Estados Unidos emergiam como super-potência global, como se houvesse uma necessidade inconsciente de querer ser "adulto". Não foi só o cinema quem mudou. O povo e o país inteiro haviam mudado. Tanto que no ano anterior outra produção de cunho duro e realista ganhara o Oscar, o excelente Farrapo Humano (The Lost Weekend) de Billy Wilder. E essa linha de pensamento pareceu ser a tendência da Academia na época ao premiar Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Beste Years of Our Lives), mesmo este não sendo melhor que A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life). Mas o tempo é o senhor da razão.
Nos anos 70, quando caiu em domínio público, o filme de Capra passou a ser apresentado sempre no fim do ano pelas emissoras de tv, tornando-se mais simbólico no Natal que o próprio conto de Dickens. Hoje o filme é cult, mas ainda é considerado ingênuo por alguns, além de outros o acusarem de não contribuir para a arte cinematográfica com nenhuma inovação, embora só no cinema é possível ver reflexos do história em incontáveis filmes como Destino em Dose Dupla (Mr. Destiny), Ghost - Do Outro Lado da Vida (Ghost), Todo Poderoso (Bruce Almighty), Um Homem de Família (The Family Man), Click, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of The Spotless Mind), Efeito Borboleta (The Buterfly Efect), Nimitz - De Volta ao Inferno (The Final Countdown), a trilogia De Volta Para o Futuro (Back to The Future), O Show de Truman, O Show da Vida (The Truman Show), entre muitos outros, além do seriado Além da Imaginação (The Twilight Zone). Isso porque, apesar de filmes anteriores adotarem temas parecidos como Que Espere o Céu (Here Comes Mr. Jordan) de Alexander Hall em 1941 e O Tempo é Uma Ilusão (It Happened Tomorrow) de René Clair em 1944, foi A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life) o primeiro filme falar diretamente sobre o fascinante tema viagem no tempo/realidade paralela. Mas ninguém até hoje fez isso como Frank Capra, porque ninguém focalizou o conceito do "o que aconteceria se..." sob um aspecto tão radicalmente humano. No começo somos apresentados ao passado, depois ao presente, resultado das escolhas anteriores e o clímax mostra um mundo onde o presente é afetado por mudanças no passado. Alguns acham um erro o que na verdade é uma sacada genial de Capra, pois através dessa elipse, a viagem no tempo acontece na mente do público, que vai deduzindo boa parte do que aconteceu através das mudanças do mundo paralelo, o que por si só torna a narrativa bem mais inteligente do que o jugo preconceituoso dos que criticam sua história simples. E na verdade a simplicidade é a chave de tudo, porque partindo desse ponto obras posteriores passaram a buscar outros mundos, realidades, possibilidades e sonhos como os de George, ou melhor, de Capra, e A Felicidade Não Se Compra (It´sa Wonderful Life) teve papel fundamental nesse desabrochar do inconsciente coletivo na ficção. Depois deste filme, a frase "O Que Aconteceria se..." nunca mais foi a mesma. Mas talvez o maior êxito da produção seja a história de amor, drasticamente afetada pela dinâmica do filme. Ironicamente hoje tal expediente é implacavelmente taxado de lugar-comum, mas essa ousadia narrativa deve ter causado muito estranhamento na época, especialmente na cena do reencontro no mundo paralelo, uma das mais aflitivas da história do Cinema. O romance por si só já garante a força do filme, tanto que a parte "ortodoxa" da trama, como as cenas da piscina, da Lua e das pedras na casa foram repetidas inúmeras vezes em outras produções. George e Mary vivem um amor simples ao longo de suas vidas, como poderia acontecer nas vidas de qualquer um. É isso que o torna tão precioso e que faz do final algo tão apoteótico dentro do contexto da sua simplicidade. Donna Reed cintila em cena, num papel que tinha tudo pra ser um clichê. A atriz ficou pra sempre imortalizada como a esposa e dona-de-casa perfeita (outra personagem que também serviu de inspiração a tantas outras depois) e ela imprime tal humanidade ao papel que deixaria muitas feministas convictas com lágrimas nos olhos. Quanto a James Stewart... basta dizer que, se esse não é o papel da sua vida, concerteza é o papel que salvou sua vida. Alguns críticos defendem que a maior força do filme reside no contraste entre um Stewart marcado e transtornado pela guerra e um Capra com sua fé inabalável frente às maiores desgraças da vida, e por isso a produção conseguir soar tão alegre e triste ao mesmo tempo. A partir daí, Jimmy revezaria seus papéis mais cômicos e despreocupados com outros com uma tonalidade bem mais sombria de personalidade, mas talvez aqui fosse o único aonde ele atingiu o auge do equilíbrio entre ambos, como um personagem que não era unilateralmente bom, mas que escolhia fazer o bem, e amargava cada consequência de seus atos ao longo da vida. A experiência marcou tanto que até hoje tanto o astro quanto o diretor consideram esse seu filme favorito, aonde também pela quarta e última vez Beulah Bondi fez o papel da mãe de Jimmy em um filme. Foi assim o fim da parceria entre Capra e Stewart, ao longo da qual o ator foi indicado ao Oscar duas vezes e ganhou o prêmio da rigorosíssima Assossiação dos Críticos de Nova York por A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith goes to Washington), embora seu trabalho mais premiado juntos tenha sido Do Mundo Nada Se Leva (You can't take it with you), que faturou 5 Oscars. Com a falência da Liberty Films e os novos tempos Capra nunca mais filmou do mesmo jeito até se aposentar de vez, com a sensação do dever mais do que cumprido para com a Sétima Arte e o público. Mas a carreira de James Stewart ainda iria longe. Nenhum fracasso profissional ou problema pessoal seguraria mais sua vontade de trabalhar.

Por essa época, até voltar a se firmar como ator de cinema ele fez bastante no teatro, encenando a peça de grande sucesso Harvey. Em 1947 fez o filme Cidade Mágica (Magic Town) de William Wellman, com roteiro de Robert Riskin, antigo colaborador de Capra no pré-Guerra. O filme também não fez sucesso, apesar de tratar de forma criativa de um tema que estava criando grande interesse na época e que até hoje permanece atual, especialmente em época de eleição nos Estados Unidos. Stewart interpreta o chefe de um grupo de pesquisadores que descobrem numa pequena cidade dos Estados Unidos o sonho de todos os partidos políticos: um lugar onde a medição dos votos dos habitantes é uma réplica perfeita do percentual de votos do país como um todo, como se fosse um microcosmo da opinião pública norte-americana. Eles vão até lá dispostos a usar seus habitantes como cobaia, fazendo um trabalho barato e fácil. Mas a relação entre Stewart e editora do jornal local, Jane Wyman, coloca o segredo em risco, levando posteriormente a cidade à loucura e abalando totalmente a credibilidade da pesquisa. Apesar do filme conservar um lado bastante ingênuo, ele foi inspirado num estudo de sociologia famoso na época e claramente influenciado pelo controverso resultado das sondagens eleitorais que davam como certa a derrota da candidatura de Harry Truman, que acabou de fato se tornando presidente.
Na vida real Stewart também se viu às voltas com problemas na política. Ele havia se tornado colaborador de J. Edgar Hoover, o chefe do Bureau de Investigação Federal (FBI), na tentativa de afastar a criminalidade crescente em Hollywood. Stewart, republicano e conservador convicto, ajudou a denunciar gângsters como Bugsy e Lucky Luciano. Este último, para perplexidade de Jimmy, escapou por ter um foto comprometedora de Hoover vestido de mulher. Infelizmente o astro parecia confiar cegamente em Hoover e este o teria manipulado para ajudá-lo na caça aos comunistas de Hollywood, mandando informações através de seu colega Ronald Reagan (que muitos anos depois se elegeria presidente pelo Partido Republicano). Stewart teria chegado a espionar seus amigos Frank Capra e Cary Grant, mas teria receio que eles descobrissem. No entanto quem acabou descobrindo foi justo seu melhor amigo, Henry Fonda, democrata e liberal convicto, e na primavera de 1947 teriam tido uma briga muito feia. Eles não tiveram um desentendimento assim nem quando estavam na Universidade de Princeton, no grupo de teatro de Joshua Logan (que revelou ambos) e Fonda se casou com Margareth Sullavan, até então namorada de Stewart, casamento esse que durou apenas dois meses. Dizem que a discussão foi tão acalorada que eles só pararam quando viram que estavam comprometendo uma amizade de anos e concordaram em nunca mais falarem sobre política de novo, nem sobre esse tempo, o qual depois ficaria conhecido como Machartismo, devido a caça às bruxas no meio artístico promovida pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, encabeçado pelo Senador Joseph MacCharty, e que teria tido apoio de Stewart. Porém, o ator José Ferrer, um democrata liberal, acreditava que o colega simplesmente forneceu os nomes das pessoas em Hollywood que ele sabia serem membros do Partido Comunista, e não aqueles que ele simplesmente suspeitava de terem simpatias comunistas, atitude comum na época e que interrompeu a carreira de vários artistas que tiveram inclusive que deixar o país, como Charles Chaplin.
De fato, tirando a briga com Fonda, não se sabe de outros episódios que tenham a abalado a relação de Jimmy com seus colegas, até porque ele evitava falar de política em público. Aliás, foi bastante comedido durante toda sua carreira. Na contramão de outros astros, não usava roupas estravagantes, nem carros caros ou se envolvia em escândalos. Apesar disso, era muito gentil com seus pares e com os fãs, os quais dizia serem seus maiores críticos e que só gostava de uma interpretação sua se eles também gostassem. Seu carisma era tão forte, que o presidente democrata Harry Truman, ao assistir A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life) teria dito: "Se eu e Bess (sua esposa) tivéssemos um filho, eu só queria que ele fosse como Jimmy Stewart."

Em 1948 James Stewart estrela Sublime Devoção (Call Nothside 777) de Henry Hathaway, um espetacular filme noir no estilo semi-documental que vinha marcando uma revolução no gênero (e que virou até referência em paródias de desenhos animados). Baseado numa história real, o filme conta a história de um jovem, Richard Conte, condenado a 99 anos de prisão pela morte de um policial em Chicago. 11 anos depois sua mãe, uma humilde faxineira, após muita luta para juntar o dinheiro, põe um anúncio no jornal, oferecendo uma recompensa de cinco mil dólares a quem provasse a inocência de seu filho. O editor do jornal, Lee J. Cobb, se interessa e incumbe da matéria um repórter cínico chamado P.J. MacNeal, Stewart, mais preocupado em achar um furo de reportagem do que qualquer outra coisa. Mas seu envovimento com o caso vai transformando sua atitude conforme ele se dá conta da inocência do réu e de que a polícia não está nem um pouco disposta a admitir um erro. Hathaway traça um belo e envolvente retrato da Chicago do pós-guerra, focando certeiramente no aspecto social da cidade e não se inibindo de mostrar também o lado mais pobre do lugar. James Stewart tem uma grande atuação como o repórter investigativo, mas infelizmente ainda havia pessoas que tinham dificuldade em dissociá-lo de seus personagens mais leves de comédia, tanto que alguns não gostam de classificar o filme como noir, devido a personalidade do seu protagonista ser tão devotada à justiça no decorrer da trama. A despeito disso, a luta de MacNeal reflete de forma verdadeira o trabalho dos jornalistas da vida real, sendo bastante fiel ao duro, penoso, e por vezes impossível, processo de fazer as autoridades legais voltarem atrás e reconhecerem um erro, mesmo quando tal erro destrói a vida de uma pessoa. Sublime Devoção (Call Nothside 777) não deixa de ter suas semelhanças com a vida real, seja com a campanha do Machartismo que vigorava na época, ou mesmo com qualquer caso de denúncia de corrupção e mau uso do poder público que aconteça em qualquer grande cidade até hoje.
Depois Stewart participa de No Nosso Alegre Caminho (On Our Marry Way), uma antologia dirigida por Leslie Caron, George Stevens, John Huston e King Vidor em que um casal vivido por Paulette Goddard e Burgess Meredith é a ligação entre várias histórias sobre como as crianças influenciam a vida das pessoas. No filme Stewart e Henry Fonda vivem dois músicos amigos, mas a relação deles na vida real não andava nada bem. Após a briga, Fonda passou muitos anos sem falar com Stewart e algum tempo depois se mudou de Hollywood por não suportar o clima de perseguição do Marchartismo, se dedicando mais a sua carreira na Broadway. Stewart chegou a dizer que invejava Fonda, pelo tempo que ele dedicava ao teatro.

Mas graças ao diretor Alfred Hitchcock Jimmy teve a oportunidade de trabalhar no primeiro "teatro filmado" da história do cinema: Festim Diabólico (Hope). No filme, Farley Granger e John Dall, interpretando respectivamente Brandon e Phillip, são dois estudantes que resolvem pôr em prática a seu modo as teorias de Nietzche, o inventor da expressão Super-Homem, veiculadas pelo professor Rupert Caldell, Stewart, e matam um colega de classe, trancando seu corpo em um baú do apartamento, enquanto começam a chegar os convidados de um jantar preparado pela empregada, que nada sabe, em cima do baú onde está o defunto. Os convidados são os parentes do morto, sua noiva, o ex-namorado dela e o professor. Conforme a noite segue eles tentam provar suas teorias de que existem pessoas superiores a outras, o que justificaria a "eliminação" das inferiores. Em meio a debates aparentemente inocentes, a falta do amigo morto que também deveria ter vindo ao jantar se faz cada vez mais presente. No início, o professor Rupert desconfia de um trote envolvendo o assassinado, sua noiva, e o ex dela, mas começa a mudar de opinião conforme Brandon defende veementemente seu ponto de vista e Phillip começa a entrar em pânico ao sentir as suspeitas do professor. Toda essa tensão vai seguindo até ficar insuportável (toda hora alguém quase abre o baú) e ser descarregada com a inevitável descoberta no clímax. Hitchcock filmou toda a história, sua primeira produção à cores, como se fosse uma única cena. Na verdade, ele filmava o máximo que um rolo de filme aguentava, uns oito minutos, então focalizava algum ponto escuro (como as costas de um personagem), enquanto trocava o rolo, garantindo assim a sensação de que a história corria em tempo real. Pode parecer um truque tosco hoje em dia, mas em 1948 era de uma ousadia experimental sem precedentes. Infelizmente, tanto Festim Diabólico (Hope) quanto a interpretação de James Stewart são bastante subestimadas. O filme não fez sucesso na época e, mesmo hoje, alguns relutam em classificá-lo junto às grandes obras de Hitchcok, de certa forma por uma dificuldade de compreender uma realização que usa a linguagem do teatro feita pelo diretor que talvez tenha sido o maior gênio da linguagem cinematográfica.
Pelo roteiro ter sido inspirado num caso real envolvendo um casal homossexual houve muita polêmica, fazendo o filme ser proibido em algumas cidades americanas. O professor também deveria ser homossexual, mas a censura vetou tudo isso e Hitchcock teve que se virar como pôde. Inicialmente o Professor Caldell seria vivido por Cary Grant, e o roteirista Arthur Laurentes critica James Stewart por ele não passar a sugestão homossexual e garante que Grant faria melhor, o que pra mim é um equívoco, pois Grant, imortalizado como um galã por quem as mulheres suspiravam no cinema, era homossexual na vida real e enfrentou muitos problemas na sua vida pessoal e profissional devido a isso. Portanto, mesmo que fizesse o filme é muito difícil acreditar que ele interpretaria o personagem desse jeito, tanto é que se recusou a participar da produção. O próprio roteiro sofreu diversas modificações devido a censura, então seria um equívoco culpar James Stewart por essa mudança de tom, que deixa a homossexualidade envolvendo o caso como algo velado. Quem vê o filme sem saber desse detalhe não perde nada e muitos acabam concordando que Jimmy teve uma grande atuação. Hitchcock parecia concordar com isso já que, numa das cenas, Stewart disse a ele que se errasse naquele filme seria o maior erro da história, devido ao método de simular um take só, e o diretor disse: "Eu sei. Por isso escolhi você para o papel."
Além disso, é evidente que o que motiva o crime não é tanto "compulsão sexual" e sim mais as polêmicas teorias Nietzchianas. Nietzche era um filósofo tão controverso que muitas idéias suas foram adotadas pela Alemanha Nazista em campanhas contra os judeus, embora ele tenha dito textualmente que todos os anti-semitas deveriam ser fuzilados em paredões. É esse o ponto genial de Festim Diabólico (Hope). Ele não só é um filme que se propõe a discutir as teorias de Nietzche, mas também discute porque as pessoas não o compreendem, daí a relevância da interpretação de Stewart principalmente no final, demonstrando toda a amargura de um professor que vê seus alunos corrompendo seus ensinamentos, o que por sua vez também alça o filme entre os mais inteligentes, ao tratar de forma tão completa, dentro dum espaço físico tão curto, da responsabilidade de um mestre para com seus discípulos.
Ainda em 1948, Stewart estrelou com Joan Fontaine A Conquista da Felicidade (You Gotta Stay Happy), uma screwball comedy de H. C. Potter, numa das últimas tentativas da Universal nesse tipo de produção, sobre um piloto que só quer dormir, uma noiva em fuga, um chimpanzé e um cadáver, entre outras coisas... o filme também não atingiu a bilheteria esperada, mas vale a pena ser visto. Dizem que Joan Fontaine convidou Stewart para o filme por ele ter sido o único ator a visitá-la no hospital quando ela teve um filho. Fontaine faz uma rica herdeira que foge na noite de núpcias e acaba se envolvendo com Stewart, um piloto comercial que faz uma escala no hotel dela. Juntos com o co-piloto, Eddie Albert, eles embarcam no avião do protagonista em uma viagem cheia de imprevistos. O filme vale mais como comédia do que como romance, inclusive devido as várias subtramas que se sucedem no decorrer da história. Jimmy, pela primeira vez após servir na Força Aérea, faz papel de piloto, coisa que seria comum daí por diante. A aviação foi uma das grandes paixões de sua vida. Curioso também é ver Eddie Albert num papel bem semelhante ao que faria anos depois em A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday), como o amigo de Gregory Peck, e também tendo que ajudá-lo a lidar com outra bela rica e fugitiva: Audrey Hepburn.

Já o tão almejado reconhecimento do talento do astro pelo público do pós-Guerra viria no ano seguinte.
Em 1949, James Stewart voltou a trabalhar com o diretor Sam Wood em Sangue de Campeão (The Stratton Story), baseado na história real do jogador de beisebol Monty Stratton, um grande ídolo na década de 30, que teve a perna amputada acima do joelho e tenta se adaptar a nova situação com a ajuda da devotada esposa, June Allyson, e da mãe, Agnes Moorehead, enquanto se esforça para voltar ao esporte. O filme fez tanto sucesso que ajudou a redefinir o rumo da carreira de Stewart na década que viria com outros dramas românticos semi-biográficos, alguns também ao lado de June Allyson, que a exemplo de Donna Reed ficou marcada como a "mocinha perfeita", muito por causa da sua química com Stewart. Sam Wood já havia feito outro filme biográfico de muito sucesso sobre outra lenda do beisebol de destino trágico, Lou Gehrig, em Ídolo, Amante e Herói (The Pride of the Yankees), estrelado por Gary Cooper em 1942, e Sangue de Campeão (The Stratton Story) era quase a repetição dos mesmos ingredientes do sucesso anterior, inclusive com a participação de jogadores de verdade em ambos. Por essa expectativa, devia haver uma natural resistência a pôr Jimmy como o protagonista, já que ele não havia emplacado nada de muita repercussão junto ao público desde que voltara da guerra e ainda mais que o filme era feito pelos seus ex-patrões da MGM. Van Johnson e Gregory Peck eram outras opções para o papel, mas creio que a bem-sucedida parceria anterior entre o astro e o diretor em Juventude Valente (Navy blue and gold) pesou na hora da decisão. Stewart acabou prevalecendo e deu show no filme, o qual é menos sobre o amado esporte dos norte-americanos e bem mais sobre as agruras de um atleta lutando corajosamente pra dar a volta por cima. Tanto o filme quanto o ator ganharam o Photoplay Awards, o mais antigo prêmio da história do cinema, dado pela conceituada revista Photoplay através de votação popular.
Ainda no mesmo ano ele faria Malaia (Malaya), de Richard Thorpe, onde voltou a contracenar com Spencer Tracy, o astro do primeiro filme importante do qual participara, Entre a Honra e a Lei (The Murder Man), lááá em 1935. 14 anos depois, eles agora estrelavam um filme juntos. Jimmy admirava tanto Tracy como ator, que teria aceitado um faturamento menor que o do colega, apenas pela oportunidade de trabalhar com ele novamente. Infelizmente o valor do filme é mais histórico, ao tratar de um inusitado fato real, o contrabando de borracha na época da Segunda Guerra, já que o produto começara a escassear no território americano. Um jornalista, Stewart, e um ex-presidiário, Tracy, são chamados pela CIA para trazer a borracha de solo malaio guardado pelo exército japonês. Lionel Barrymore, Valentina Cortese e Sydney Greenstreet, com um papel que lembra sua participação em Casablanca completam o elenco da produção.
Mas o fato mais importante de 1949 ocorreu em 9 de agosto, quando James Stewart se casou com Gloria Hatrick Maclean, uma ex-modelo, a partir de então mais conhecida como Gloria Stewart. Ao que se sabe, Gloria virou a cabeça de Jimmy, já que ele era um solteirão já com seus 41 anos e contabilizava vários casos conhecidos com atrizes famosas. Jimmy não só não se importou dela ser divorciada com dois filhos, Ronald e Michael, como adotou-os e ainda teve com Gloria um casal de gêmeas dois anos mais tarde, Judy e Kelly. Seu casamento foi uma dos raras em Hollywood que se pode afirmar com segurança que realmente deram certo. O astro era tão apaixonado pela mulher que costumava dizer: "Tudo que vc está vendo que eu sou é graças a Gloria."

A partir daí, parecia que tudo começou a dar certo de uma vez só.
Em 1950, com um par de filmes, Stewart ajudou a revolucionar o faroeste. Primeiro atuou em Winchester 73, de Anthonny Mann, outro marco em sua carreira. Os produtores da Universal não tinham dinheiro para pagar o que o astro costumava receber em suas produções, então ele aceitou trocar seu salário por parte dos lucros da bilheteria do filme, um fato inédito e seguido por muitos outros atores com o correr dos anos, tão lucrativa se revelou essa idéia, devido ao grande sucesso de público e crítica do filme. Na história, Stewart é Lin MacAdams, um homem amargo e sorumbático que chega à famosa cidade de Dodge City acompanhado de seu parceiro, Millard Mitchell, em busca de vingança contra seu inimigo, Stephen MacNally, por causa de um segredo do passado. Lá, ele o enfrenta num torneio de tiro cujo prêmio é o cobiçadíssimo rifle Winchester 73. Lin vence seu rival, mas é emboscado e tem seu troféu roubado. A partir daí ele parte em outra jornada, enquanto o rifle passa de mão em mão e Mann vai delineando um profundo e fascinante mosaico humano dos grandes mitos do velho oeste, incluindo pessoas reais como o xerife Wyatt Earp, além de uma mulher cujo noivo é assassinado, Shelley Winters, um chefe indígena, Rock Hudson estreando no cinema, um soldado bêbado, Tony Curtis também em início de carreira, e um assassino psicopata, numa grande performance de Dan Duryea, entre outros. Mas mesmo com uma grande sorte de tragédias acontecendo ao redor do rifle, o clímax ainda aguarda o seu retorno às mãos de Lin, o confronto decisivo entre Stewart e MacNally, com a revelação de um segredo que seria o início de uma abordagem de elementos psicológicos pioneiros no gênero que o diretor, egresso dos filmes B, passaria a usar nos faroestes seguintes, quase sempre acompanhado por Stewart. Eles formaram uma parceria menos famosa do que a de John Ford e John Wayne, mas também muito importante para a Sétima Arte.
Não é tarefa fácil examinar as várias influências de Winchester 73 em trabalhos posteriores do gênero ou mesmo fora dele, tão imitada foi essa produção. Se os westerns estão para o cinema como os contos de cavalaria estão para a narrativa oral, então pode-se dizer que a Winchester 73 é a Excalibur do velho oeste! A arma que simbolizava o poder numa terra onde as armas ditavam as leis. Tanto que ela aparece mais tempo em cena que o próprio Stewart, contando a história e os conflitos de cada um de seus breves donos. Esse recurso de usar um objeto como uma espécie de narrador da trama já havia sido usado antes, mas jamais com tanta maestria quanto a de Mann, então se você por acaso vir um filme nos dias de hoje que saiba tirar proveito desse conceito, certamente foi de Winchester 73 que veio a inspiração direta ou indiretamente.
Outra característica impressionante é a visceral interpretação de James Stewart, que aqui criou um personagem que seria vital em todos os westerns seguintes: o primeiro caubói amargo e solitário da história do cinema! Personagem esse que consagraria de vez John Wayne em Rastros de Ódio (The Searchers) e Alan Ladd em Os Brutos Também Amam (Shane). E foi justamente Jimmy, que o público tantas vezes tinha dificuldade de separar da sua persona mais alegre de outros filmes, o precursor desse modelo de herói, mais sombrio e vingativo, finalmente provando ao grande público o quanto poderia ser um intérprete multifacetado. Infelizmente ainda estava longe de ter esse reconhecimento por parte da Academia. A fotografia em preto-e-branco e os diálogos de Winchester 73 também são excelentes e as várias tramas se encaixam perfeitamente pela hábil direção de Anthonny Mann, que ascendeu ao nível dos grandes diretores de seu tempo.
Logo depois Stewart estrelou Flechas de Fogo/ Flechas Ardentes (Broken Arrow), de Delmer Daves, simplesmente o primeiro faroeste em que o índio, ao invés de vilão, é a vítima do homem branco. Stewart faz um ex-soldado do exército, Tom Jeffords, que salva a vida de um jovem índio, ficando amigo do Chefe Apache Cochise, Jeff Chandler (indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel), e se apaixonando por uma jovem mestiça, Debra Paget. Cada vez mais envolvido com seus novos amigos ele tenta promover um acordo de paz entre índios e colonizadores, mas os brancos não conseguem compreender a amizade entre um dos seus com o "perverso" chefe de um tribo selvagem, levando a um desfecho dramático. Curiosamente, a produção teria sido filmada antes de Winchester 73, mas só foi lançada no cinema um mês depois desta. O filme pode até parecer superado nos dias de hoje, mas imagine o choque do público em 1950, ao ver o seu astro tipicamente americano defendendo os índios, os grandes vilões da matinês desde o Cinema Mudo! E ainda por cima sendo incorporado na sua sociedade e cultura. A história foi tão polêmica que o roteirista Albert Maltz, também indicado ao Oscar pelo trabalho, entrou na lista negra do Machartismo. Apesar de toda essa atribulação, Flechas de Fogo/ Flechas Ardentes (Broken Arrow) foi essencial para uma visão mais humana dos índios e sua condição nos faroestes que se seguiram, até culminar muitos anos depois em Dança Com Lobos (Dance With Woves) de Kevin Costner em 1990, que muitos críticos apontam como uma refilmagem não creditada da trama do filme de Jimmy. Além disso, Daves, com uma bela fotogrfia que também concorreu ao Oscar, criou uma comovente história de amizade entre os personagens de Stewart e Chandler, separados por dois mundos diferentes, mas unidos por um único ideal e contou boa parte da história do Arizona. Dizem que o diretor havia passado por um retiro solitário por lá antes de resolver filmar westerns.

Ainda em 1950, Jimmy se associou ao diretor Henry Koster, outro importante colaborador de sua carreira e constantemente negligenciado em suas biografias, na hilária adaptação da peça estrelada por Stewart e ganhadora do Pulitzer, Meu Amigo Harvey (Harvey). O astro vive um homem tranquilo e despreocupado, Elwood P. Dowd, que passa a maior parte do seu tempo conversando com um coelho invisível de dois metros de altura, o Harvey do título! Tal hábito causa tamanho rebuliço, que impede os planos constantes de sua irmã, Josephine Hull, de casar a filha com um bom partido. Desesperada, ela tenta interná-lo no hospício, mas seu jeito exasperado, em contrapartida ao estilo comedido do irmão, faz os médicos pensarem que a louca é ela. E esse é só o início de uma série de mau-entendidos, já que todos que tentam perseguir Elwood é que acabam passando por loucos aos olhos de terceiros, tanto que depois da irmã, o dono do hospício e até o próprio coelho (!) acabam internados no lugar dele. Daí a genialidade da trama, que esconde atrás de uma história aparentemente ingênua, um inteligente e subliminar roteiro que trata do preconceito da sociedade, marginalizando quem é diferente, e como justamente tal preconceito pode terminar marginalizando a própria pessoa preconceituosa. James Stewart tem uma assombrosa interpretação como Elwood. Ele contracena com o ar o tempo inteiro, uma verdadeira lição pra muitos atores de hoje em dia que reclamam de ter que contracenar com um fundo azul em filmes com efeitos especiais. Jimmy não só tira de letra como nos faz crer que Harvey existe, e aí reside outro êxito do filme. Mesmo com uma trama tão surreal, Stewart consegue transformar uma história previsivelmente cômica, graças a sua interpretação recheada com alguns momentos dramáticos de pura melancolia, como um homem solitário que espanta a tristeza com uma improvável amizade com um Pooka, um duende de outra dimensão! É difícil assistir ao filme e não querer ser amigo deles também. Por Meu Amigo Harvey (Harvey), Jimmy foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor ator. Josephine Hull também foi indicada e ganhou o Oscar de atriz coadjuvante. Mesmo não vencendo ele estava novamente consagrado em todas as frentes, voltando ao seu lugar de direito entre os grandes astros de Hollywood.
Encerrando 1950, Stewart ainda achou tempo pra fazer Radiomania (The Jackpot). Nessa comédia do diretor Walter Lang, ele vive um homem comum que tem sua vida virada de cabeça pra baixo ao participar de um Quizz Show num programa de Radio. Conforme vai ganhando mais prêmios, que vão do útil ao estapafúrdio, ele vai se envolvendo mais no jogo, o que faz de sua casa uma confusão constante, que piora ainda mais quando a Receita Federal resolve cobrar impostos absurdos sobre todos os seus ganhos. Natalie Wood, ainda criança, faz a filha de Stewart. Esse é um dos filmes injustamente esquecidos do ator, não só por ser muito engraçado, mas por permanecer atualíssimo no nosso tempo onde cada vez mais todo mundo arruma seus quinze minutos de fama e anônimos que se tornam famosos graças a reality shows e afins acabam tendo sua vida transformada, nem sempre pra melhor.


Estava desenhado o rumo que sua carreira tomaria durante a década de 50, fosse nos faroestes psicológicos de Mann, nos suspenses instigantes de Hitchcock, nos dramas românticos semi-biográficos e algumas vezes nas comédias surreais, além de ter liberdade pra escolher os papéis que quisesse em outros trabalhos (alguns revolucionários pra época), já que não tinha contrato fixo com nenhum grande estúdio. Sem contar que o fato de se tornar pioneiro em receber percentagem dos lucros de bilheteria favoreceu muito suas finanças. Por tudo isso e muito mais, Jimmy recuperou seu posto de astro preferido da América ao longo dos anos 50, feito impressionante pra alguém que pensara em largar a carreira de ator de Cinema nos anos 40 quando, para que ele aceitasse o papel de George Bailey no emocionante e cultuado A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life), Lionel Barrymore lhe dissera: "Já pensou que consegue comover milhões de pessoas e que não há nenhuma outra profissão onde consiga o mesmo?"


Por Guilherme Cunha

Um comentário:

Anônimo disse...

James Stewart, foi um dos atores mais queridos no Brasil.Tanto é a prova disso,que ele esteve com a esposa Gloria,no Rio de Janeiro em 1957.Tenho 2 livros dele editados na américa.Fiquei sabendo que na sua terra natal,tem até um museu dedicado a sua memória.Como um Historiador de Cinema,adoro adoro o jimmy.Parabéns pela matéria. mlmlmarcoslima@gmail.com

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