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3.7.08

Musicais clássicos: uma breve história - parte 1

Acabei de saber da morte de Cyd Charisse. Meu primeiro sentimento foi o de perda de uma amiga. De certa forma o é. Pode parecer exagero, visto sob a ótica de quem não admire o cinema clássico, mas para quem o ama, e tem a nítida impressão de que nasceu com um certo atraso, é sim uma grande perda. A perda de algo físico, a prova de que eles estiveram aqui. Curiosamente eu estava começando um texto sobre o gênero que consagrou a Cyd, os musicais, quando recebi a notícia. E resolvi segui-lo. Há as tentativas de reviver tal gênero, com filmes como Chicago, Moulin Rouge e Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da Rua Fleet, mas a verdade é que o musical é considerado hoje um gênero obsoleto, cansativo e irreal. Mas... o que é o irreal, considerando que qualquer filme é uma grandessíssima ilusão? Penso que o que mudou, no final das contas, foram os anseios do público, que busca outro tipo de ilusão.

Dizem que uma vela não se apaga quando sua luz é compartilhada com outras velas. Tal pensamento cabe a Cyd Charisse, que se foi... ela não se apagou, pois sua arte foi passada para outras pessoas, ao longo do tempo, e chega a nós, hoje, com filmes memoráveis como “Meias de seda”, “Cantando na chuva” ou “Roda da fortuna”. E é para ela que dedico esse texto, um passeio sobre a história dos musicais. Eis-lo.

Os musicais nasceram praticamente com os filmes falados. Depois de anos de experiências, “Don Juan”, de Alan Crosland passou a ser o primeiro filme com partes faladas, em 1926. No ano seguinte, “O cantor de Jazz”, do mesmo diretor, entra para a história ao ser o primeiro inteiramente falado. Dois anos depois o cinema falado já representava metade da produção cinematográfica. E surgia o primeiro grande musical: “Hollywood revue of 1929”, que trazia a primeira versão da música “singin’ on the rain” interpretada por Cliff Edwards. O filme era um desfile de grandes estrelas, incluindo a estreante Joan Crawford, Lionel Barrymore, Marion Davies, Buster Keaton, Marie Dressler e Ramon Novarro, mas resumia-se a esquetes isoladas de sapateados e canto.


Seguindo a fórmula de grandes espetáculos, “Broadway melody of 1929” ganhou o Oscar de melhor filme do ano, e a MGM descobriu um novo filão: filmes que retratavam os bastidores de produções de teatro, problemas com atores e ensaios, que fulminavam com uma grande apresentação: tema que viria dominar os musicais durante um bom tempo. Em 1936, “The great Ziegfeld” ganharia também um Oscar de melhor filme. Trazia centenas de pessoas e a imagem triunfal de um grande bolo com pessoas. No período de guerra, os musicais eram considerados uma bela forma de fuga. O povo precisava sorrir! A iluminação, coreografia e vestuários faziam a todos esquecerem por hora as grandes dificuldades enfrentadas. E quando muitos filmes passaram a ser bloqueados pela censura, os dançados passavam facilmente, apesar de algumas mulheres ostentarem pouquíssima roupa ou as danças evocarem o erotismo. O nível tornou-se tão alto que era difícil superar.

Surgiram as grandes vozes. Uma das parcerias com maior êxito das telas foi Nelson Eddy e Jeanette McDonald. Estrelaram juntos alguns filmes, como “Naughty Marietta”, “Rose Marie” e “Maytime”. Mario Lanza foi outro grande tenor, que se converteria numa das vozes mais potentes dos filmes. “The toast of New Orleans” ao lado de Kathryn Grayson seria um dos seus melhores. Ele fez apenas 07 filmes, mas sua interpretação de Caruso ficaria na história. Outros destaques foram Bing Crosby (com filmes como “Fuzarca a Bordo”, “Os sinos de Santa Maria” e “High Society”), Frank Sinatra, Judy Garland e Julie Andrews.

E as parcerias... uma das poucas coisas que temos certeza acerca do cinema, é que o resultado dessas parcerias jamais serão igualadas. Fred Astaire sapateia ao lado de Eleanor Powell em “Broadway melody of 1949”, numa ininterrupta e deslumbrante apresentação de música de Cole Porter. Eis Fred Astaire novamente, ao lado dessa vez de sua maior parceira na dança: Ginger Rogers. Os dois dançam a música “cheek to cheek”, de Irving Berlin, em Picolino (1935), e nós sonhamos. Gene Kelly e Frank Sinatra também eram irresistíveis juntos: “Take me out to the ball game”, “Anchors aweigh” (Marujos do amor) e “On the town” (Um dia em New York, o primeiro musical com cenas externas).
Diante do sucesso dos musicais, estava claro que todos deveriam estrelar pelo menos um.
Dessa forma, Liz Taylor, aos 15 anos cantou razoavelmente bem em “Cynthia” (1947), mas em “Date with Judy” (1948), seria dublada. Peter Lawford também estrelou alguns musicais, mas ele mesmo reconhecia que nunca foi bailarino e não tinha condições de competir com Astaire ou Kelly. Segundo o ele, “só fazia o que me mandavam, assim como os demais atores”. Robert Montgomery era outro que não parecia ficar a vontade, mesmo contracenando ao lado de Joan Crawford em “Forsaking All Others”. Jean Harlow, a primeira blondie foi dublada ao cantar em “ReckLess”, e em “Suzy”, dividiu a cena com Cary Grant, que surpreendentemente cantou muito bem. James Stewart teve a oportunidade de interpretar uma música de Cole Porter em “Born to dance”, ao lado de Eleanor Powell. Ele costumava dizer que a música era tão boa, que “apesar” dele, ficaria boa de qualquer forma. E Clark Gable... foi um enorme canastrão, ao cantar e dançar em “Idiot’s delight”. A platéia odiou, pois não queria ver seu maior galã dançando nas telas.

Durante a década de 40, surgiram também os filmes familiares e os dedicados ao público jovem. Alguns ídolos jovens surgiriam a partir daí. Dentre eles, os de maior destaque foram June Allyson, Debbie Reynolds, Jane Powell, Deanna Durbin, Mickey Rooney e Judy Garland. June Allyson foi um dos rostos mais populares dos musicais da MGM, estrelando “Words and music” e “Good news”, ao lado de Peter Lawford, o filme foi considerado um dos favoritos da juventude da época. Jane Powell era uma estreante ainda, ao lado de Carmen Miranda e Liz Taylor em “Date with Judy”, mas soube aproveitar bem as oportunidades, e com seu olhar doce e voz de soprano, brilhou também em “Royal Wedding”, ao lado de Fred Astaire e “Seven Brides for Seven Brothers”. Mickey Rooney estreou ainda criança, aos 10 anos, em Broadway to Hollywood, e depois disso firmou-se como um dos grandes astros juvenis. Já aos 17 era um veterano.

Ao lado de Judy Garland fez alguns dos maiores êxitos, baratos e populares, filmes que pareciam mudar apenas os nomes dos protagonistas, pois os papéis eram os mesmos: jovens que buscavam o sucesso na Broadway/teatro/teatro da escola, com um final presumivelmente de sucesso. Encantavam o público. Aos 12 cantou para Clark Gable, aos 15 tornou-se Dorothy em “Wizard of Oz” (O mágico de Oz), abocanhando o Oscar juvenil de 1939 e uma carreira que seguiria para fora das telas.

Se haviam aqueles que eram “obrigados” a fazer musicais, havia também os que nasceram com o dom da dança, hoje considerados os maiores dançarinos e dançarinas de Hollywood e os maiores diretores e coreógrafos. É sobre eles que nos deteremos melhor, na semana que vem.

Por Carla Marinho para o jconline

Um comentário:

Heri, hodie, cras, cotidie... disse...

Que texto maravilhoso! Beijos.

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