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7.8.08

Irina Palm



O que você é capaz de fazer por amor? Essa parece ser a pergunta que permeia Irina Palm, desde o início.

Costumamos dizer que somos capazes de fazer de tudo para salvar alguém que amamos. Tudo. Mas na maioria das vezes a hipocrisia permeia os sentimentos, encobrindo o que de verdade deveria ser levado em consideração. Os tabus cegam. E muito.

"Irina Palm", filme de Sam Garbarski (O Tango de Rashevski) inicia-se com um drama, e temos a falsa impressão de que estaremos daí para frente com mais um dramalhão: o neto de Maggie (Marianne Faithfull) possui uma doença rara, que em poucas semanas irá matá-lo se não viajar para a Austrália para um tratamento revolucionário. Seus pais não possuem dinheiro, e Maggie busca, em vão, pegar empréstimos em bancos ou arrumar emprego. Nunca trabalhara fora antes, e aos cinqüenta anos está velha demais para conseguir algo. Ao passar por uma rua do Soho Londrino, já desesperançada, verifica que uma boate precisa de recepcionistas. Um eufemismo para a verdadeira função: masturbação de homens, através de um buraco na parede. À princípio o susto, depois o desespero. Mas algo há de ser feito. Pelo neto ela faz tudo o que for possível. Até mesmo isso. O pagamento é bom, e ela, sem experiência alguma, assume o emprego. Luisa (Dorka Gryllus), uma profissional do local ensina-lhe a mazela do serviço, e Maggie parece ter um dom para a função.

Afasta-se dos poucos amigos que tem e começa a viver uma vida paralela, oculta sob a sala. Em pouco tempo começa a ganhar mais e mais clientes, que desconhecem quem ela é. Torna-se Irina Palm, a mais procurada das "recepcionistas". Consegue um empréstimo com o dono da boate Mikky (Miki Manojlovi) e dá o dinheiro para que seu filho possa embarcar com a mulher e neto para o tratamento. Maggie incrivelmente acaba encontrando também o amor, inusitado, ao lado de Mikky.

Curioso por saber como a mãe conseguira tanto dinheiro em tão pouco tempo, seu filho a segue. E descobre. Incapaz de entender os motivos, renega a própria mãe. A nora, com quem ela não se dá bem, incrivelmente, e talvez por também ser mãe, entende o motivo: Maggie fizera isso por eles. E não há razão para que seja perdoada, mas sim aclamada. Não há mais nada a esconder, e ela conta às amigas o motivo de sua ausência. Todas chocadas, e a exposição de mágoas passadas, quando uma delas a acusa de ter se tornado uma prostituta, e Maggie retribui, educadamente, dizendo que sempre soube que a amiga tivera um caso com seu marido. Hipocrisia revelada. Irina Palm é um daqueles filmes que nos faz pensar no que vale mesmo a pena, a honra ou o amor?

Marianne Faithfull, que tem uma extensa carreira como cantora desde a década de 60 (quando esteve ao lado de Mick Jagger), convence como a mulher idosa que, de repente, se redescobre como mulher e, porque não dizer, descobre também um dom. Ela acerta no tom, ignorando a melancolia, que poderia estragar a essência da roteiro. O elenco afiado, com Miki Manojlovi, Kevin Bishop e Siobhán Hewlett compensa a ausência de musicalidade, que poderia ter sido melhor explorada. Mas no final, a história compensa qualquer provável falha. A verdade é que, na ânsia de salvar o neto, Maggie acaba salvando a si mesma, do tédio em que vivia.


Carla Marinho, para o jconline

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