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7.8.08

Minha vida sem mim


Não é um filme recente, foi feito em 2003, dirigido por Isabel Coixet (diretora espanhola) e tendo Almodóvar como produtor executivo. Inspirado no conto Pretending the Bed is a Raft, de Nancy Kincaid, conta a história de Ann (Sarah Polley), 23 anos, casada com Don (Scott Speedman ) e com duas filhas de sete e quatro anos (Penny e Patsy), que tem um relacionamento conturbado com sua mãe e o pai preso há mais de 10 anos. Tempo esse que ela não o vê. Ao saber que estava condenada a morrer dali a dois meses, com um câncer terminal, faz uma lista com algumas coisas para fazer antes da partida.

Coisas simples, como visitar o pai na prisão, pintar os cabelos, colocar unhas postiças, dizer todos os dias que ama suas filhas e outras nem tanto, como encontrar uma nova esposa para seu marido, ter outro relacionamento (pois seu marido foi o único homem que conhecera e beijara em toda sua curta vida) e fazer alguém se apaixonar por ela nesse período. Fazer alguém se apaixonar, sabendo da sua morte eminente e não o avisar não é algo filantrópico. É até mesmo egoísta. Dessa forma, ela encontra Lee (Mark Ruffalo em mais um papel único de sua carreira) em uma lavanderia e inicia um romance. Quase temos pena de Lee, tão sozinho em seu apartamento sem móveis e sua vida sem pessoas, tanto que nos pegamos torcendo para que ele encontre a felicidade que ele vê estampada na foto das filhas de Ann.

Com a mãe de Ann há algo complicado. Ela a define, em uma das cenas como uma pessoa boa, porém frustrada na vida. E em suas tantas gravações que serão ouvidas após sua morte, deixa-lhe conselhos para que viva, arranje alguém, e que tente não só amar, mas também dizer às pessoas ao seu redor, como as netas, que as ama. É um discurso triste, e revela imaturidade ao iniciar com um pedido de desculpas por mais uma vez ter feito algo que a mãe iria condenar: morrer sem lhe informar antes. Nesta parte notamos o esforço de Ann em, apesar da adversidade, não se tornar igual à sua genitora. E assim ela vai reforçando suas metas. Para as filhas, fitas que serão ouvidas durante todos os anos, no aniversário de cada uma delas, até completarem 18. São conselhos, declarações de amor, e até desculpas por não poder aconselhá-las com relação aos garotos: ela própria não tem experiências para lhes passar.

É um filme difícil de ser visto impunemente. E impossível não absorver a idéia de que a vida deve ser aproveitada em seu máximo. Ela sabe o tempo que tem, e terá que correr para cumprir metas enquanto seu corpo se esvai. O interessante é que o filme não traz aquela monótona melancolia, própria da situação, mas esperança. Nós nos esquecemos por momentos que se trata de alguém condenado à morte para torcermos pelo futuro que Ann desenha para sua família. Ela sabe que não mais estará ali, e presume que mortos não sentem, e por isso preocupar-se consigo enquanto presente, e com os outros que lá ficarão após sua ida.
O filme nos traz a sensação de que precisamos correr. Logo. Ann sabe o tempo que tem. Nós não. Mesmo assim ela vive o que lhe resta numa calma infernal, que chega a doer nos nervos. Não há tempo para adiar nada. Nem para se lamentar: A vida continua, apesar de nossa ausência.

O filme conta ainda no elenco com Julian Richings (médico que lhe conta a notícia), Leonor Watling (enfermeira e provável esposa do marido, quando Ann se for) e Amanda Plummer (amiga obcecada pela magreza).

Ao término do filme ficamos com a vontade de fazer a nossa lista de metas a cumprir antes do grande dia, mesmo sem sabermos ao certo se será amanhã ou daqui há longos anos. Ficamos pelo menos com a frágil idéia, feliz, de que não somos nós que iremos morrer daqui há dois meses, e que teremos mais tempo para cumprirmos tudo. Mãos à obra. Façamos a lista.

Por Carla Marinho, para o jconline

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