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29.9.08

As memórias de Geraldine

Na véspera do Lisbon Village Festival, filha de CharlesChaplin esteve em Lisboa e visitou mostra dedicada ao pai

2008-09-27

JOÃO ANTUNES
Está já em marcha a 3.ª edição do Lisbon Village Festival. Antes do início do festival de cinema, na próxima segunda-feira, Geraldine Chaplin esteve, ontem, na capital, onde visitou a exposição de fotografia dedicada ao pai, "Chaplin in Pictures".
Geraldine teve um dia bastante ocupado em Lisboa, cidade que considera "a mais bonita da Europa, de longe, apesar de os franceses não estarem de acordo. De cada vez que cá venho, as experiências são extraordinárias. Adoro esta cidade, é uma verdade."
A meio da tarde, a actriz, de 64 anos e um dos oito descendentes de Chaplin, visitou a exposição, que está ainda patente no Palácio Pombal. Mais tarde, assistiu à inauguração do cinema City Classic Alvalade, onde será exibido o filme "Cria Cuervos", realizado em 1976 por Carlos Saura, com quem então vivia em Espanha.
"Esta exposição de fotografias, que já vi em Paris e na Suíça, faz-nos sentir que Chaplin ainda está vivo", começou por dizer. "Gosto mais de falar do meu pai do que de mim. Adorava-o, como, aliás, a maior parte das pessoas de todo o Mundo. Era um homem e um artista extraordinário."
E fez uma revelação: "Ele está enterrado muito perto de onde vivo, na Suíça. Quase todos os dias, passo pela campa dele e digo: 'olá, pai'. E as pessoas ainda deixam lá pequenas lembranças. No outro dia, estava lá uma carta que dizia: 'por favor, volta, Charles Chaplin, o Mundo precisa de ti'."
A actriz, que confessou ser este um dia carregado de emoções para si, mas que não tinha feito nenhuma preparação especial para o enfrentar, revelou que, ao contrário do que possa parecer, o pai não incentivou nenhum dos filhos a seguir a vida artística. "Queria que tivéssemos uma profissão decente, como médicos ou advogados. Não gostava muito da ideia de irmos trabalhar para o cinema. Mas saí de casa cedo, já não estava a viver com ele quando comecei a trabalhar como actriz."
O filme exibido ontem, à noite, em sua homenagem, "Cria Cuervos", foi realizado por Carlos Saura em 1976, já em plena liberdade. Mas a actriz recorda um episódio curioso, ainda sob o regime de Franco, mas já depois da revolução portuguesa. "O Pablo del Amo, o montador dos filmes de Carlos Saura, também trabalhou em Portugal e chegou a estar preso aqui. Um dia, trouxe-me uma t-shirt do 25 de Abril. Saí de casa com ela, mas um polícia mandou-me voltar para trás e mudar de roupa. E o del Amo fazia um bacalhau com batatas tão bom."
Geraldine Chaplin, que salientou ter ficado impressionada com "Body Rice", de Hugo Marques da Silva, recordou que conheceu João Mário Grilo no Festival de Biarritz e que quis logo trabalhar com ele, tendo sido um milagre ter surgido a possibilidade de o fazer com "Os Olhos da Ásia".
Mantendo o humor e simpatia que sempre a caracterizaram, explicou porque tem sido vista nos últimos anos em vários filmes de terror. "Como não faço plásticas, sou das raras actrizes da minha idade que têm rugas. Por isso, os papéis de avozinha são todos para mim. Os das avozinhas boas e os das avozinhas assassinas."
Mas era mais para falar do paique Geraldine se mostrava disposta. "Como trabalhava em casa, estava sempre presente. Bom, passava o tempo todo fechado no quarto, a escrever os filmes ou a autobiografia. Como pai, era muito severo, muito victoriano. Mas adorávamos ir com ele ao restaurante, e não era pela comida. Ele estava sempre na brincadeira."
Geraldine Chaplin não terminou o encontro sem salientar a herança que o pai lhe deixou: "Trabalhar no duro. Ele sempre disse que o talento não era nada."

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