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31.10.08

O grande ditador (1940)

Fico imaginando a grandessíssima confusão que Chaplin arrumou quando resolveu estrear um filme sobre a guerra numa época em que todos só queriam esquece-la. Já estava com problemas com o Governo americano, que suspeitava ser ele um comunista. Depois de tantos anos na América, Chaplin ainda insistia em não se naturalizar e ainda desposara meninas. Demais para o orgulho ianque.

Ano de 1940. Chaplin quer se desvencilhar do personagem que o acompanhou desde que chegara aos Estados Unidos, quase três décadas antes. Resolve fazer dois personagens: um judeu e um ditador. Idênticos apenas na aparência. A idéia surgiu em uma das conversas com amigos, que diziam que o personagem criado por Chaplin, o vagabundo, apesar de trilhar caminhos opostos, parecia-se com Hitler.

E os dois tinham mesmo nascido no mesmo ano, com alguns dias de diferença. Em "O grande ditador", o judeu é um ex-combatente da primeira guerra, tentando retornar à sua vida normal como barbeiro, depois de ficar internado em um hospital. Enquanto estava internado, muitos acontecimentos mudaram os rumos do mundo, sem que ele soubesse: o partido de Adenóide Hynkel tomara o poder e, fazendo discursos inflamados, assustava a multidão. Nas ruas, os soldados invadem as casas dos judeus, agredindo-os moralmente e fisicamente, exaltando a raça ariana como superior. O judeuzinho, alheio a tudo, acaba sofrendo conseqüências quando tenta salvar uma jovem pobre, Hannah, que é maltratada por soldados. A cena em que ele toma por engano uma frigideira na cabeça mostra que Chaplin, apesar de contar mais de 50 anos, ainda consegue fazer um bailado perfeito, quando tonto, sai "dançando" entre a calçada e a pista, com passos perfeitos. Os soldados conseguem pega-lo e tentam enforca-lo num poste, mas ele acaba sendo salvo por um de seus amigos, também ex-combatente de guerra, e que agora serve Hynkel.

Em outro plano, Hynkel prepara o grande golpe. Depois de uma grande discussão, condena os judeus, que começam a se esconder. Hannah e seus amigos fogem para Austerlich, onde encontram uma paz transitória. Hynkel tenta acordo com Napaloni (sátira a Mussolini)outro ditador, interpretado por Jack Oakie. A competição entre os dois torna-se outro ponto chave para o filme, com um sempre querendo ser melhor que o outro. Conta-se que nos bastidores também havia tensão, pois Chaplin sempre fora acostumado a ser o principal protagonista de suas histórias, e Jack brilhantemente toma-lhe por vezes o protagonismo.

A grande mudança ocorre quando o pequeno judeu e Hynkel trocam de lugar. Isso acontece enquanto Hynkel, apesar de toda guerra ocorrendo, resolve caçar patos. Acaba sendo confundido com um judeu e é preso.O barbeiro, por sua vez, é confundido com o ditador, e caminha para fazer o seu discurso. Ao invés de ouvirem o discurso inflamado do antigo ditador, o que houve é uma exaltação à paz. O grande discurso, inflamado, acabou ganhando mais fama que o próprio filme de Chaplin. Era a primeira vez que o ouviam falar diretamente para a tela, por 6 minutos ininterruptos, e o discurso causou frisson: a quem o judeu falava? Seria mesmo o judeu quem falava, ou o próprio Chaplin vestido em um personagem adequado?

Bem, com a estréia do filme, uma relação do diretor com os Estados Unidos, que já estavam abaladas, ficaram insuportáveis. O filme acabou sendo proibido em diversos estados americanos. Para piorar a situação, um escritor chamado Konrad Bercovici disse que a história do judeu e o ditador era sua, acusando Chaplin de plágio. O ator acabou pagando $ 95.000 para que a queixa fosse retirada. Segundo Chaplin, em suas memórias, o acordo foi proposto pelo próprio juiz, que solicitou às partes que entrassem em um acordo pois ele tinha outro compromisso. Ao meu ver, isso fortalece a idéia de que em pelo menos alguns aspectos, Konrad realmente tenha razão.

Recentemente foram encontradas cópias de um filme caseiro, colorido, feito pelo irmão de Chaplin, Sydney e que mostra vislumbres de cenas, bastidores das gravações, ensaios e testes. Estava guardado em malas velhas, no porão da mansão do ator na Suíça. É possível ver essas cenas no DVD da coleção branca da obra de Chaplin.

Apesar de toda a crítica envolvida, o filme teve indicações para Melhor Ator, Melhor Música, Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original. Associação dos Críticos de Nova York 1940 - Vencedor de Melhor Ator.

Para alguns poucos, Chaplin dizia-se arrependido de ter feito o filme. Dizia que se soubesse o que tinha acontecido de verdade nos campos de concentração, não teria brincado com um tema tão sério.

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