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22.10.08

Porque eu não concordo com tudo isso


Estava lendo um dia desses uma matéria que dizia que os atores, lá pela década de 30, 40, talvez 50, eram patrocinados por fabricantes de cigarro. Com isso eles faziam propagandas, fumando em seus filmes e ganhavam por isso. Isso me fez lembrar de algumas cenas célebres, enormes baforadas, nas cenas de bares, em conversas de gangsters ou entre jovens rebeldes. Mas, vem cá, marketing e cinema não andaram sempre de mãos dadas? Não é mérito somente do cigarro não. O que pega é a campanha massiva para que as pessoas não se viciem, que trazem à tona essas minúcias lógicas (alguém pagava a alguém para fazer propaganda do seu produto).

Não estou aqui criticando campanhas antitabagistas ou seja lá qual for, mas tem hora que o contexto vale mais do que qualquer coisa. Para mim não há nada mais sensual (tá, há...) do que Clark Gable trocando baforadas com a Joan Crawford, e depois dando um soco nela. James Dean preparando-se para arrancar em seu carro, fumando um cigarrinho. Ou Chaplin fazendo um truque com a fumaça. Tudo contextualizado. Se essa cena fosse realizada nos bons costumes que tentamos ter hoje em dia, no mínimo seria algo extremamente monótono. Não existiriam.

De uns tempos para cá é proibido fumar em novelas. Daqui a pouco alguém terá a idéia de ampliar para os filmes de cinema. Daí outro louco chegará e dirá que as cenas de sexo terão que fazer menção ao uso da camisinha, e que a bebida deve ser destinada somente para os antagonistas, os vilões. Já vejo que filmes sobre a violência gratuita não deverão ser feitos, por ser politicamente incorreto bater em pessoas indefesas ou fazer delas bucha de canhão.

Não defendo de maneira alguma a propaganda gratuita de vícios, empurrando-os goela abaixo, defendo aqui a colocação dentro de um contexto. Só. Eu já tenho idade suficiente, e desde criança sou bombardeada por imagens que nada me dizem, e não fazem mudar as minhas vontades. Dá licença, que eu sei escolher o que pode atingir-me ou não? Mentes fracas sempre existirão, apesar de tudo. Você pode se criar no mato, não ver gente, e ser um psicopata quando encontrar um.

Faz um tempinho que eu vi um filme magnífico, La Belle Verte, de Coline Ferreau, que conta a história de uma mulher, que vive em outro planeta mais evoluído do que o nosso, e decide visitar-nos para aprender mais com os humanos da terra. Pois bem, aqui chegando ela passa mal com a fumaça dos carros, não consegue se alimentar enquanto toca nas pessoas de cá e faz com que elas evoluam. O filme é bacana, indico para todos, mas, juro por Deus que se a única temática for essa vou morrer de tédio assistindo os filmes que virão. Já sou por demais bombardeada com coisas corretas, e, francamente, estou me cansando com essa conversa toda de que é errado fazer ou não fazer. Os filmes são uma recriação da realidade, e não a realidade em si. Libertem-me e deixem-me pensar seriamente sobre o assunto vendo documentários ou jornalísticos. Enquanto eu assistir aos filmes, quero parar de pensar que a fumaça inalada por Bogart foi o motivo de sua morte. Quero apenas vê-lo com as mãos ocupadas, enquanto diz seu texto para Ingrid Bergman.


Carla Marinho

Um comentário:

Virginia. disse...

Por que concordo com tudo isso? Porque cinema é catarse, é fugir dessa realidade mesquinha muitas vezes, e grandiosa demais para entendê-la apenas em 2 horas. Porque cinema é diversão: fazer algo diverso do que se faz rotineiramente. Porque fazer o certo ou errado realmente é algo do aprendizado de vida, e não precisamos de mais moralismos.

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