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24.10.08

Rodolfo Valentino


Há vidas que parecem destinadas a serem breves e intensas. Algumas deixam marcas profundas, outras passam à margem, sem nódulos, sem deixar, no entanto, de ter a sua importância. Conhecemos pelo menos um caso desses, de vidas que se esvaem tão rapidamente que deixam sempre um amargor das coisas nunca vividas. E quando esses exemplos encontram-se sob os holofotes, podem causar uma comoção generalizada pelo medo natural que temos da morte e pela fascinação da eterna juventude, enraizada pela ida precoce. Jamais os veremos enrugar-se ou preocupar-se com o esquecimento, pois eles não mais estarão aqui para ver sua descendência, se tiverem tido tempo para tê-la. James Dean, e mais recentemente Heath Ledger, mortos antes dos trinta anos, passaram como cometas, provando e vivendo intensamente, e trazendo-nos esses sentimentos contraditórios do medo e da idealização. Antes deles, um jovem italiano surgiu, revirando conceitos, tendo em suas veias uma tendência à vida tragicômica, uma história que daria um roteiro, um breve roteiro, mais precisamente, de trinta e um anos. Falamos de Rodolfo Alfonzo Raffaelo Pierre Filibert Gugliemi di Valentina d’Antonguolla, mais conhecido como Rodolfo Valentino.

Valentino chegou à América em 1913. Trazia em si o sangue latino, e uma vontade de enriquecer, tão comum aos jovens imigrantes. Não tinha perspectivas reais, mas tinha a esperança, inerente a quem faz sua própria história. Havia aprendido a dançar em Paris, e depois de algum tempo exercendo as mais diversas atividades, como office boy, jardineiro, garçom e copeiro, pôde enfim fazer algo de que gostava: dançar. Ganhava pouco como dançarino, e passou a oferecer seus serviços de acompanhante.

O que brilha é visto de onde quer que se esteja. E o jovem começou a fazer pequenas participações em películas, na maioria como dançarino, sem qualquer destaque. Algo em torno de 20 filmes, que incluem “Alimony” (1917), “The battle of the sexes” (1914), “My official wife” (1914), “Seventeen” (1919), nenhum destes creditado. Em “A Society sensation” trabalhou ao lado de Carmel Mayers, fazendo finalmente uma personagem com nome, o de filho de magnata. O filme seguinte, “Eyes of youth” faria os produtores abrirem os olhos para um potencial sucesso do rapaz. Mas o início de tudo viria com “The four horsemen of the apocalypse” (Os quatro cavaleiros do apocalipse). A cena de tango, dirigida por Rex Ingram, integrava toda uma gestualidade amorosa, soltura, versatilidade e segurança de expressão, tão comuns ao dançarino Valentino, que ensaiara durante anos dançando, mas novo para o cinema. Até então, o papel de homem no cinema estava restrito a coadjuvante das grandes estrelas, a quem sim, a câmera seguia. Estava claro que algo estava surgindo. Além de atrair para si as luzes, o homem utilizava-se de artifícios até então considerados femininos, como a sensualidade e a delicadeza dos gestos, muito bem ensaiados em seu quarto, em frente ao espelho.

Rodolfo tinha algo de andrógeno numa época em que nem se sabia da androgenia. Sucesso imediato. As histórias e lendas sobre sua vida começaram a pipocar e espalhar o mito: escândalos com mulheres casadas, casos com colegas de elenco, casamentos com lésbicas (Jean Acker e Natasha Rambova), prisão por bigamia e depoimentos contraditórios (o maior amante do mundo afirmara, para escapar da prisão, que não consumara o casamento com sua segunda esposa, apesar de morarem juntos). Valentino ultrapassava o limite da imagem, e tornava-se ele próprio a personagem, a máscara. Tornou-se assim, o primeiro dos grandes ídolos de massa, algo pop, nos dias de hoje.

Em “The Sheik” havia a cristalização do produto, com o ator no papel título, um Sheik que apaixonava-se por uma mulher, interpretada por Agnes Ayres, acabando por rouba-la. Não havia mais volta. Estava criado o mito. Nessa altura, ele já rendia muito para os Estúdios, e milhares de mulheres sonhavam com o latin man. “Blood and sand” (sangue e areia), de 1922 contava a história do toureiro Juan Galiardo, famosa novela de Vicente Blasco Ibánez, homem simples, dividido entre o amor verdadeiro e os prazeres trazidos pelo dinheiro. Ao seu lado, as atrizes Lila Lee e Nita Naldi. Esta última, sua grande parceira em mais três filmes: “A sainted devil”, “The hooded Falcon” e “Cobra”.

Foram nove sucessos em dois anos. Ele precisava de descanso. O fez retornando à sua terra. Faria mais alguns sucessos. Sua última película foi “The son f the Sheik” (O filho do sheik), uma continuação do filme de 1922, trazendo, além de Agnes Ayres, a atriz Vilma Banky. Mais rumores de romance com Vilma, apesar dele estar envolvido com a também atriz Póla Negri. O ator não veria a histeria causada pela estréia nas telas,de seu novo sucesso: Uma apendicite que lhe acompanhou durante bom tempo lhe tirou a vida em poucos dias. Parecia irreal para ser verdade. A galinha dos ovos de ouro trazia seu maior golpe, a retirada de cena, no ápice da popularidade. Manchetes de jornais noticiaram, e milhares de viúvas faziam plantão na porta da funerária. Acabava-se a vida, aumentava-se o mito. Falar sobre Rodolfo Valentino, faz-me lembrar de um poema de Cora Coralina, que diz:

Não sei... Se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura... Enquanto durar.

Morrem os homens que se transformam em mitos, morrem as flores deixadas para eles, morrem as pessoas que os amavam, e depois as que nasceram delas. Mas os mitos permanecem, imortais, vivos, presentes enquanto alguém lembrar-se deles. Valentino tornou-se o eterno amante, jovem e ausente das rugas do tempo, rugas que transformam a todos em algo comum, esquecíveis por não serem breves.

Por Carla Marinho
para o jconline

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