Seguidores

21.11.08

Ainda sobre Dulce Damasceno de Brito

Um pedaço de Hollywood

Ignácio de Loyola Brandão

A morte de Dulce Damasceno de Brito não teve muita repercussão na imprensa. Uma pena, pelo que ela significou. Poucas notas, pouquíssimas. Somente o Estado deu destaque. Muitos, principalmente de gerações mais novas, estarão perguntando: quem é Dulce? No entanto, os mais velhos lamentarão, porque sabemos que foi ela quem nos introduziu nos bastidores da Hollywood dos anos 50 e 60. Como esquecer as fotos em que aparecia Troy Donahue (teve galã maior, depois de O Candelabro Italiano, que celebrizou a canção Al Di Lá? ) e Dulce? Tyrone Power, o homem mais bonito do cinema, e Dulce? Lauren Bacall e Dulce. Susan Hayward e Dulce. Como? Dulce estava em todas as fotos? Estava. Era a sua marca.

Vivia-se uma época na imprensa em que não havia o gravador e os jornalistas, para comprovarem que tinham entrevistado determinada personalidade, eram obrigados pelas chefias a tirar uma foto com a pessoa. Cansei de fazer isso na Última Hora, tenho fotos com Juscelino, Giulietta Masina, Sammy Davis Jr., Kim Novak, Carlos Lacerda...

Ela teve a coluna mais lida sobre cinema em seu tempo. Adorávamos ver Dulce ao lado de nossos ídolos. Porque a invejávamos. Ela estava em Hollywood, nosso sonho. Quando digo nosso, digo de muitos de minha geração e da que veio a seguir, porque Hollywood conservou seu status e glamour por um bom tempo. Ser correspondente dos Diários Associados, a maior rede da imprensa brasileira, foi algo que Dulce, nascida em Casa Branca, crescida em Mirassol e Mogi-Mirim, conseguiu no tapa, na cara dura. Ela queria porque queria ir para Hollywood e convenceu quem? Despachada, pegou no pé de Assis Chateaubriand que finalmente a mandou para lá. Em 1952, Dulce estava na “meca do cinema”, uma expressão cafona para uma cidade encantadora, louca, chata, misteriosa, fascinante, doida, sem igual.

Eu lia O Cruzeiro e seguia a coluna do Alex Viany, comunista do Partidão que, todavia, babava pelo cinema americano e fazia uma cobertura boa, era intelectual, culto e ideólogo. Mas confesso que quando Dulce assumiu seu posto, preferi Dulce. Porque ela era - e sempre confessou sem escrúpulos - mais fã do que os fãs. Ela fazia o que gostaríamos de fazer. Entrevistar Kim Novak, Rita Hayworth, Greer Garson, Carmem Miranda (de quem foi a amiga íntima, estava na casa dela na noite de sua morte), Gregory Peck, Marlene Dietrich, Audrey Hepburn, Sofia Loren, James Dean.

Gente, Dulce conheceu James Dean, falou com ele. O ídolo de minha geração, jamais igualado. Por que Dulce nos conquistava? Porque manteve em Hollywood o jeitão caipira, com seus tailleurzinhos de coquetel em Casa Branca, penteados para ir à domingueira no clube de Mirassol. Ou chapeuzinhos bregas. Mas essa era a sua marca. Ela era de uma inocência que encantava. O seu sorriso ao lado dos astros, e eram todos superastros, seria o nosso sorriso, nosso embevecimento.

Ela adorava aquela Hollywood que não existe mais. Uma cidade fantasia, onde tudo era fake, até mesmo os romances, como o de Rock Hudson e sua mulher, num casamento arranjado pelo estúdio para mostrar que ele não era gay. Naqueles anos, Dulce jamais citou qualquer possibilidade de um ator ser gay, ter tendências. No entanto, felizmente, nos últimos anos de sua vida, decidiu e publicou um livro precioso, Lembranças de Hollywood, numa edição de luxo da Imprensa Oficial do Estado, dentro da Coleção Aplauso. Quem não conhece essa coleção, não sabe o que perde. Nela, ao lado de livros como esse, que recuperam uma época, encontramos todos os grandes nomes do teatro e do cinema brasileiro.

Nesse livro, Dulce abriu a guarda. Se naqueles tempos em que viveu lá o mundo era outro, desta vez ela teve coragem suficiente para revelar manias e idiossincrasias, a sexualidade de uns e outros, a decadência de vários. Esse é um mundo que não voltará a ser o mesmo. O glamour desapareceu. O cinema hoje é outro, pé no chão, voltado para a realidade, enquanto aquele era o sonho, a fantasia, o delírio. Admito minha nostalgia em relação a isso. O que não quer dizer que eu não adore dezenas de filmes atuais e de atores e atrizes de hoje. Com Dulce Damasceno de Brito foi-se uma época que ela registrou com brilho. Na minha cabeça fica uma dúvida. Tenho certeza de que ela escreveu também para a Filmelândia. E a Cinelândia? No texto de abertura, ela não fala dessas duas revistas, mas lembro-me que a chamávamos de nossa Louella Parsons. Com a diferença (soubemos disso depois): Louella era arrogante, ditatorial, sacana, chantagista, mau-caráter, ainda que informada. Dulce era a simplicidade bem informada. Com a sua morte, foi-se um pedaço do tempo. E de nossa juventude. E de Hollywood.

FONTE

2 comentários:

djacy disse...

Não é sempre que se tem a oportunidade de se ler um texto dessa qualidade (perdoem a rima)ainda mais escrita por um mestre como o Ignácio.
Fui também um leitor assíduo da coluna da Dulce na antiga revista O Cruzeiro. Vivendo numa cidade do interior (Garanhuns-PE), na década de 50, o cinema era o nosso canal para outros planetas e os textos da Dulce completavam o que os filmes não podiam sobre nossos astros e estrelas. Obrigado.

João disse...

Ela escrevia também para a revista Cinelândia. Lembro-me que suas colunas apareciam na última página com o título "Dulce Damasceno de Brito: Direto de HOllywood.!
Abs

Related Posts with Thumbnails