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15.11.08

Sobre Blanche Dubois (Um Bonde Chamado Desejo)


Depois de assistir a Blanche (sim, porque o filme é Blanche), fiquei pensando que gostaria de escrever sobre ela. Não sobre o filme, em si, mas sobre Ela. Durante algum tempo não consegui. Pensei em iniciar lendo sobre a loucura que a cerca, dominando sua cabeça e atos. Mas não sou psicóloga nem formada em alguma das teorias que dominam o "mercado" da psicose. Nem mesmo entendo-me. Resolvi seguir, sem pensar muito, sem pesquisar muito, apenas deitando no papel o que percebo da essência de Blanche Dubois...

Seus olhos, portas para o mundo, não são normais... carregam em si um vazio, típico dos loucos, que dizem tantas coisas ao mesmo tempo que acaba por nos confundir os sentidos; daqueles que negam-se a reconhecer que a vida não lhes foi justa. Olhos que escondem sentimentos contraditórios, que há tempos fizeram-na traçar um roteiro de vida paralelo, distante da realidade doentiamente ruim. Blanche parece testar as pessoas que a rodeiam: é por vezes a coitada, outras a causadora de mágoas alheias. Dupla personalidade dentro de uma mulher aparentemente delicada e considerada louca. A vida não lhe foi fácil. Definitivamente, não. Sua história termina, e você ainda fica com ela na cabeça, tinindo, as dúvidas surgindo, algum temor, sentimentos passados por uma personagem puramente tensa e pesada.

A Streetcar Named Desire (Uma Rua Chamada Pecado / Um Bonde Chamado Desejo) é o nome do filme, baseado na peça de Tennessee Williams, e que durante muito tempo foi sucesso no teatro, com Jessica Tandy no papel principal. A história gira em torno de Blanche, interpretada no cinema por Vivien Leigh, mas também de sua irmã, Stella (Kim Hunter) e Stanley Kowalski (Marlon Brando), marido desta última. Blanche sai de Mississipi, pega um bonde chamado "Desejo" e vai morar com o casal em New Orleans. Imensamente pobre depois de perder todo o seu dinheiro, traz em sua mala todos os pertences de uma vida, além de cartas de um homem imaginário, uma espécie de príncipe, que viria lhe buscar.

Começam os conflitos com o seu cunhado. Stanley é, opostamente a Blanche, um sujeito grosseiro e insensível. Um animal, nas suas palavras. Não respeita a sua mulher, que parece precisar de um homem que a domine. Sobretudo, Stanley sente um inexplicável sadismo ao lidar com a cunhada. Não acredita na loucura de Blanche, e tenta provar que ela tem um passado podre, passando a investiga-lo até provar sua tese de que ela não é boa como Stella pensa. Ao mesmo tempo a tensão sexual que os acompanha durante todo esse período, uma briga de egos, uma brincadeira de sedução, por parte de Blanche, que parece, ao mesmo tempo, ter medo e querer brincar com o fogo. Ela sabe do perigo que ele representa, mas parece tentada a tocá-lo sem consequências. O pequeno apartamento começa a ficar pequeno para apenas três pessoas. Os nervos se acirram, e Blanche vê em Harold Mitchell, um amigo de Stanley, a possibilidade de fuga, um casamento convencionalmente aceito, e de uma nova vida de esquecimento do passado. Seu primeiro marido cometera suicídio, após ela tê-lo flagrado traindo-a com outro homem, dando início à "doença de nervos" que ela apresentava. A busca por um homem que a proteja torna-se uma obsessão alimentada de sonhos infantis de mudança.

Stanley descobre que Blanche teria sido prostituta em um hotel de quinta categoria, e joga-lhe na cara seu passado obscuro. Blanche revida, mas acaba sendo violentada pelo cunhado, piorando seu estado de nervos e enlouquecendo de vez. Páreo duro em matéria de complexidade humana. Três faces inaceitáveis de atitudes humanas: um homem extremamente violento, uma mulher submissa e outra que ainda busca saber qual a sua essência verdadeira. O fato é que, mais do que todos os personagens secundários juntos, Blanche nos domina e nos enerva. Nos faz pensar em nós mesmos, em nossas máculas, e, sobretudo nas nossas angústias inexplicavelmente guardadas como caixas de pandora. Ela não é apenas uma mulher, acaba sendo algo entre a nossa própria realidade e o que realmente somos por dentro. Ao ser levada para uma clínica de tratamento, Blanche é amparada por um homem que não conhece, e numa frase resume o que tem sido sua vida até então: "Nunca duvidei da benfeitoria de estranhos".

Nunca, mais do que de todos aqueles que dizem amá-la mas não a entendem. Sim, Blanche. Às vezes os estranhos é que são os nossos ombros. E, por não nos conhecer, é que nos aceitam.

Por Carla Marinho para o Adorocinema.com.br




Frases em Inglês

Blanche DuBois : Is there something wrong with me?

Blanche DuBois : Please don't get up.

Blanche DuBois : Deliberate cruelty is unforgivable, and the one thing of which I have never,ever been guilty of.

Blanche DuBois : But some things are not forgivable. Deliberate cruelty is not forgivable! It is the one unforgivable thing, in my opinion, and the one thing of which I have never, never been guilty.

Blanche DuBois : This old maid, she had a parrot that cursed a blue streak and knew more vulgar expressions than Mr. Kowalski.

Blanche DuBois : Young, young man. Did anyone ever tell you you look like a young prince out of the 'Arabian Nights'?

Blanche DuBois : Oh, Stanley! What sign were you born under?

Blanche DuBois : Capricorn - the goat!

Blanche DuBois : And you let him? Didn't run, didn't scream?

Blanche DuBois : Oh look, we have created enchantment.

Blanche DuBois : I can't stand a naked light bulb, any more than I can a rude remark or a vulgar action.

Blanche DuBois : I'm very adaptable to circumstances.

Blanche DuBois : Tarantula was the name of it. I stayed at a hotel called the Tarantula Arms.

Blanche DuBois : Yes, a big spider. That's where I brought my victims. Yes, I've had many meetings with strangers.

Blanche DuBois : Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.

Blanche DuBois : I know I fib a good deal. After all, a woman's charm is 50% illusion.

Blanche DuBois : I don't want realism. I want magic! Yes, yes, magic. I try to give that to people.
I do misrepresent things. I don't tell truths. I tell what ought to be truth.

Blanche DuBois : I said I was sorry three times!

Blanche DuBois : You're married to a madman.

Blanche DuBois : It brought me here. Where I'm not wanted and where I'm ashamed to be.
Stella : Don't you think your superior attitude is a little out of place?

Blanche DuBois : May I speak plainly?... If you'll forgive me, he's common... He's like an animal. He has an animal's habits. There's even something subhuman about him. Thousands of years have passed him right by, and there he is. Stanley Kowalski, survivor of the Stone Age, bearing the raw meat home from the kill in the jungle. And you - you here waiting for him. Maybe he'll strike you or maybe grunt and kiss you, that's if kisses have been discovered yet. His poker night you call it. This party of apes.

Blanche DuBois : Straight? What's 'straight'? A line can be straight, or a street. But the heart of a human being?

Blanche DuBois : Marry me, Mitch.

Um comentário:

Anônimo disse...

po adorei seu texto
estou fazeno a Blanche no teatro, na verdade é na aula de teatro, e realmente ela é incrivel.
estou apaixonada por ela, porque a loucura dela se assemelha aos nossos pensamentos escondidos e mais profundos..

obrigada pelo texto

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