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8.12.08

Um Dia de Cão, de Sidney Lumet


Em 1971 ocorreu uma rebelião no Presídio de Attica, que fica em Nova York. Os presos mantiveram funcionários do presídio como reféns. Depois de 5 dias veio a resposta violentíssima da Polícia, um verdadeiro massacre que culminou com a morte de 43 pessoas, das quais 11 reféns e 32 presos. Attica foi relembrado quatro anos depois, numa das cenas mais marcantes que a 7ª arte produziu, quando Sidney Lumet (Longa Jornada Noite Adentro e Doze Homens e Uma Sentença), com o roteiro de Frank Pierson, levou às telas A Dog Day Afternoon (Um Dia de Cão), filme baseado em fatos reais: em 1972, John Wojtowicz, vulgo Sonny, invadiu um banco para conseguir dinheiro para que sua esposa transexual pudesse fazer uma cirurgia de mudança de sexo. O cineasta optou por contar a sua história sem exageros, valorizando um bom roteiro e um elenco pequeno, porém afiado, que contava com John Cazale, Sully Boyar, Charles Durning e Al Pacino.

Sonny (Al Pacino), num ato de desespero, juntara-se a dois amigos, Sal (John Cazale) e Stevie (Gary Springer), para assaltar um banco no final do expediente. Verifica-se que eles não têm mesmo experiência, dado o nervosismo e a desistência de Stevie no último momento. Um grupo de mulheres que trabalham no banco e o gerente são mantidos reféns, enquanto Sonny vasculha os cofres que estavam vazios: todo o dinheiro havia sido recolhido de tarde, pelo Caixa forte. O assaltante fica nervoso e começa a vasculhar os demais caixas, recolhendo o dinheiro restante e queimando registros. Contudo, junta menos que 1.500 dólares e, quando se preparam para sair, recebem um telefonema da Polícia, avisando-lhes que está à porta. O atrapalhado assalto vai tomando proporções imensas quando os jornalistas chegam para dar cobertura a toda a negociação. O público, curioso e entusiasmado, ignora se vidas estão em perigo, os reféns começam a acreditar que estão realmente em um show, Sonny se desespera aos poucos e Sal permanece num estado assustadoramente letárgico. Acreditando que pode pedir tudo, Sonny começa a exigir coisas: a presença de sua esposa, limusine, jato para fuga, pizzas, cerveja e analgésicos.

Em dado momento, o assaltante sai à porta do banco e começa a gritar: Attica! Attica!! É o suficiente para angariar a simpatia do povo, que o apóia mesmo talvez ignorando a causa. Sonny é, afinal, um lunático que destila palavras de reação, se tornando atrativo numa tarde tão sem atrativos. Toda a atenção fornecida pelos canais de TV, pelos traunsuentes e pelos policiais o transformam em um ídolo transitório, em um show de horrores, como constata o próprio Sonny, talvez o mais lúcido dos loucos ali presentes. Para ele não importa o que dizem as TVs, não acredita nos homens da lei que buscam negociar para que ele liberte os reféns que estão com ele: "como eu os libertarei, se são eles que garantem minha vida? Se não fossem os jornalistas e as câmeras de TV, eu já estaria morto! Desarmem-se!", grita, completando com mais gritos por Attica.

Sal quase não fala, sempre agarrado à sua arma, que mantém em caso de invasão dos policiais, mas transmite toda a tensão psicológica vivida pelos momentos tensos dentro do banco. John Cazale (Fredo em O Poderoso Chefão), brilhantemente nos presenteia com um personagem dramático, eficiente e misterioso: enquanto Sonny embora tenso demonstre certo equilibro, ele se cala e nos nega a opção de tolher algum significado ao seu silêncio. Ele parece ser aquele psicopata que fica calado enquanto todos se desesperam, e que de repente explode matando a todos, sem dizer uma só palavra. Ao mesmo tempo demonstra ser apenas um homem ignorante, temeroso do seu destino, e disposto a morrer para não ter que ir novamente preso. Sal, um ex-presidiário, parece embarcar naquela onda sem mesmo saber os motivos, e mantém o seu nível de tensão sempre alto até os seus últimos momentos. E quanto a Al Pacino, bem... torna-se um pleonasmo dizer que ele reina absoluto em todas as cenas em que aparece. Al se sobressai não por causa da sua presença ou porque seu personagem possui as melhores falas, sendo o porta-voz daquela loucura toda em que se transformou um simples e corriqueiro assalto a um banco. Ele se sobressai com o apuro nos trejeitos e maneirismos, com o texto apurado e vivido intensamente e a entrega que sempre dedica aos seus personagens.

Um Dia de Cão completa-se ao nivelar momentos de tensão com certa comédia em meio a trama bem construída, com um desfecho esperado (inocência de Sonny pensar que fugiria para outro país em um jatinho), rendendo a Al mais um personagem marcante para sua galeria. Dificilmente, depois do brilhante filme de Sidney Lumet, Attica voltará a ser esquecida.

Por Carla Marinho para o adorocinema.com

Um comentário:

Meg disse...

Ah foi esse filme que tu estavas vendo quando eu cheguei em tua casa! Al Pacino nesse tempo estava realmente uma coisinha fofa!

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