Seguidores

4.1.09

70 anos de sucesso


Enquanto explodia a mais trágica guerra mundial, Hollywood registrava, em 1939, o apogeu das suas produções de mais prolongado sucesso

No final dos anos 30, a situação internacional assumia proporções de tragédia, em decorrência da fúria imperialista e sangüinária do ditador germânico Adolf Hitler. Em Hollywood, já se havia esquecido em parte os efeitos brutais da Primeira Guerra Mundial e as grandes produtoras caprichavam em superproduções fadadas a permanecer como ícones da cinematografia hollywoodiana. Alguns estudiosos chegam a afirmar que 1939 foi o ano mais rico em filmes americanos destinados a marcar presença, para sempre, na história da Sétima Arte.

A mais ambiciosa produção estreada há 70 anos foi o mitológico “... E o Vento Levou”, provavelmente o filme mais popular de todos os tempos, mesmo se levando em consideração o espetacular sucesso de “Titanic”. Desenrolado na época da Guerra da Secessão americana, sua trama narra o acidentado romance entre a bela e mimada Scarlett O’Hara, magnificamente interpretada pela inglesa ganhadora do Oscar - Vivien Leigh, e o cínico conquistador Rhett Butler, papel feito sob medida para o carisma do galã Clark Gable. Muitos não acreditavam, de princípio, na receptividade de “... E o Vento Levou” junto ao público, pela ousadia de suas três horas e quarenta e dois minutos de duração, resultado da montagem e dos cortes realizados em cerca de 60 mil metros de película, num total aproximado de 28 horas de cenas rodadas.

Produzido pelo poderoso David O. Selznick, a direção do filme é creditada a Victor Fleming, embora outros diretores (George Cukor, Sam Wood) tenham interferido em sua conturbada filmagem. Um fato a ressaltar sobre a lendária produção é que ela conseguiu obter o primeiro Oscar para um artista negro, no caso a atriz Hattie McDaniell, que fazia a babá e guardiã da impetuosa Scarlett. Outra característica da película é que ela não precisou de um “happy-end” (final feliz) para fazer grande sucesso junto aos espectadores comuns, que até hoje aplaudem ardentes e reconciliadores beijos de boca entre os atores principais, na última cena de um filme.

Outro extraordinário êxito de 1939, exibido ainda hoje repetidas vezes nas televisões de todo o mundo (é o filme mais apresentado no Natal, ao lado de “A Felicidade não se Compra”, de Frank Capra) foi “O Mágico de Oz”, dirigido por Victor Fleming e King Vidor (em algumas cenas). Várias atrizes foram cogitadas para o papel da menina Dorothy, entre elas o fenômeno Shirley Temple e a cantora Deanna Durbin.

Mas estava escrito que a camponesinha do Kansas, acompanhada por outros pitorescos personagens em viagem a uma terra além do arco-íris, terminasse sendo eternamente associada a uma jovem cantora e atriz de inusitado carisma chamada Judy Garland (1922-1969). Seus companheiros, quase tão famosos quanto ela, eram o frágil espantalho (Ray Bolger), o homem de lata (Jack Haley) e o leão medroso (Bert Lahr). A canção “Over the Rainbow”, tema principal do filme, continua sendo uma das mais gravadas da música popular internacional e tornou-se uma espécie de hino oficial do movimento “gay” em defesa dos seus direitos.

“Jesse James”, uma glorificação glamourizada do célebre bandoleiro americano, dirigida por Henry King, projetou para o mundo a beleza quase incomparável do ator Tyrone Power e o filme é considerado um símbolo do gênero faroeste romântico. Não chegou a conseguir, entretanto, a mesma consagração de crítica e público obtida, no mesmo ano, por “No Tempo das Diligências”, de John Ford. Além de consolidar a fama do “cowboy” por excelência John Wayne, o filme imprimiu extraordinário ímpeto e dignidade ao gênero “western”. Numa diligência que atravessa as planícies do Novo México, Ford reuniu, vagamente inspirado no conto “Bola de Sebo” (do escritor francês Guy de Maupassant), uma galeria de personagens tradicionais do faroeste. Os desempenhos de Claire Trevor, como uma prostituta discriminada pelos companheiros de viagem, e de Thomas Mitchell, na pele de um velho médico alcoólatra (em atuação que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), são das mais marcantes já apresentadas na tela.

Na versão para o cinema do romance de Emily Brontë, “O Morro dos Ventos Uivantes”, o talentoso diretor William Wyler simplificou o aspecto gótico e sombrio do texto original, embora com extrema competência, mas isso lhe valeu restrições da crítica, embora o filme se tenha imortalizado como uma das mais populares transposições cinematográficas de uma obra literária.

Greta Garbo, uma das divas mais cultuadas da Sétima Arte, riu pela primeira vez na tela em “Ninotchka”, de Ernst Lubitsch, cineasta celebrado por sua ironia requintada na abordagem de temas delicados. O alvo do impiedoso humor de Lubitsch foi, no caso, o bolchevismo então em ascensão na União Soviética, satirizado através do contraste entre os valores russos e o comportamento “bon vivant” dos franceses, tudo através de deliciosos diálogos.

Bette Davis (1908-1989) foi uma das atrizes a brilhar com mais intensidade em 1939. Naquele ano, ela impôs seu talento e sua presença inconfundíveis em produções até agora cultuadas, como “Vitória Amarga”, de Edmund Goulding, onde fez uma paciente terminal com tumor no cérebro; “Meu Reino, Minha Vida”, no qual incorporou com maestria a Rainha Elizabeth I; e “Juarez”, competente cinebiografia do líder revolucionário mexicano, dirigida por William Dieterle Foi também Dieterle quem transpôs para o cinema, em 1939, a mais conhecida filmagem da obra do escritor francês Victor Hugo, “O Corcunda de Notre Dame”, com Charles Laughton interpretando admiravelmente o grotesco Quasímodo e a bela Maureen O’ Hara vivendo a bela cigana Esmeralda, ainda mais encantadora do que a interpretada anos mais tarde pela atriz italiana Gina Lollobrigida.

Entre outros filmes da caudalosa produção de 1939, constantemente reprisados e cultuados pelos fãs, estão: “Adeus Mr. Chips”, de Sam Wood, que proporcionou o Oscar de Melhor Ator a Robert Donat; “As Aventuras de Stanley e Livingstone”, de Henry King; “Beau Geste”, de William Wellman, com Gary Cooper e Ray Milland; e “Gunga Din’, de George Stevens, um clássico no gênero de aventuras, onde já ressaltava a suave beleza da atriz Joan Fontaine.

Os filmes da grandiosa safra de 1939 demoravam a ser exibidos em Fortaleza. A maioria deles foi lançada no saudoso Cine Diogo, inaugurado no dia 7 de setembro de 1940. Só para citar um exemplo, “... E o Vento Levou”, apesar de ter estreado internacionalmente em dezembro de 1939, só veio a ser apresentado no Diogo em 1946, permanecendo duas semanas em exibição com casa lotada, o que representava um recorde para a pequena Fortaleza de 250.000 habitantes, com população dez vezes menor do que a atual.

JOSÉ AUGUSTO LOPES

FONTE

Um comentário:

M. disse...

Nem mesmo a guerra ofuscou a glória dos filmes de Hollywood. Adorei o texto de José Augusto Lopes.

Related Posts with Thumbnails