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20.1.09

Juventude transviada

“...as pessoas olharão para o céu e irão notar uma estrela...
cada vez mais brilhante e cada vez mais próxima ao se aproximar de nós...
Com a aproximação da estrela, o clima vai mudar.
As calotas polares norte e sul vão se decompor e se dividir.”

Esse texto foi dito por Nicholas Ray, no papel de um professor de astrologia no filme “Rebel Without a cause”, anunciando, num tom quase profético, o que viria a ser a introdução do personagem Jim Stark na escola. A mudança seria significativa, e ultrapassaria os limites dos créditos finais, pois o jovem seria retratado de uma maneira que até então não tinha sido explorada nos cinemas. Na década de 30, a série de filmes “Andy Hardy” trazia Mickey Rooney como astro principal e seu personagem não parecia ter consistência em seus problemas, resolvidos em comum acordo com seus pais, seus melhores amigos e conselheiros. Andy é tão irritantemente correto que é incapaz de sair de seu quarto sem antes forrar a cama. Quase vinte anos depois, no clássico The Wild One (O Selvagem), de Laslo Benedeck, Johnny, interpretado por Marlon Brando é um jovem que comanda uma gangue de motociclistas, fazendo arruaças e incomodando a todos. Não fica claro o motivo de toda a sua revolta, ele é apenas, e sem explicação alguma, um rebelde sem causa. Alguém que parece querer tirar os outros do sério sem dá-los uma explicação plausível por tanta raiva.

Nicholas Ray quis mostrar uma realidade, entre uma e outra e ao mesmo tempo diferente de todas as apresentadas anteriormente. Desde o seu primeiro filme, “Hey life by night” (1948) ficava claro sua predileção pelo tipo de pessoas que ele mostraria em toda a sua obra. Homens quase sempre frágeis, receosos quanto ao seu futuro e mal situados no mundo em que vivem. Foi assim que ele iniciou os planos para filmar Rebel Without a cause, aqui no Brasil traduzida para Rebeldes sem causa ou Juventude Transviada.

Os atores escolhidos para o legendário filme foram James Dean, Natalie Wood e o Sal Mineo. Jim Stark (James) é um jovem problemático com dificuldades em fazer amizades, e tendo pais que não sabem como lidar com o gênio do filho, por vezes delicado, por vezes revoltado. Os próprios pais seriam parte do problema quando partiam de uma cidade para outra fugindo da resolução deles ao invés de tentar resolve-los.

Na primeira cena, Jim, bêbado, cai no chão e encontra um macaco com quem começa a brincar e cobre com jornal para que ele durma. Corte e já o vemos sendo levado para um Distrito policial, onde ele conhece Judy (Natalie Wood) e Platão (Sal Mineo). O diretor nos faz conhecer os personagens por seus problemas apresentados, enquadrando um por um os personagens dinamicamente. Ela tem um pai rígido, que lhe nega carinho, pois acha que a filha já é uma mulher, John não tem nem pais para lhe darem carinho, tendo sido abandonado por ambos nas mãos de empregadas, sendo preso por maltratar um animalzinho. Dos três, apresenta-se claramente quem possui maiores problemas psicológicos desde o início, e quem terá dificuldades em resolvê-los. No dia seguinte os três irão se encontrar novamente, desta vez na escola. Ela com seu grupo de adolescentes, encabeçado por Buzz (Corey Allen), algo como um grupo de selvagens sem motocicletas, que lembram-me claramente o de Johnny em “O selvagem”. Eles aparentemente não precisam de motivo para se irritarem, parecem apenas querer se divertir, seja como for, magoando ou não quem estiver pela frente. O grupo percebe e não gosta do novato que chega à escola, e desejam divertir-se às suas custas. De frente ao seu armário, onde se penteia olhando uma foto do ator Alan Ladd, Platão demonstra suas tendências homossexuais, que irão se fixar na figura de Jim. E na saída do planetário, onde o professor dissera as palavras que colocamos no início do nosso texto, começam os primeiros problemas de Jim com a gangue de Buzz e Judy, quando eles esvaziam o pneu de seu carro e eles resultando numa briga de facas.
Jim busca consolo em seu lar. Ao chegar toma uma garrafa de leite (carência de mãe?) e pede conselhos ao pai, que é incapaz de ouvir-lhe e ter a força que o filho deseja que tenha. O que Jim não compreende, em sua juventude, é que as pessoas não se transformam em pessoas fortes somente por serem. Jim tem toda a liberdade que deseja, mas nela não encontra a resposta de suas dúvidas. Precisa também de um colo, e não apenas ser jogado para o mundo. Na ausência de respostas, segue para a corrida de carros que dará fim à vida de Buzz, ocasionando a briga dos rapazes da gangue com Jim, e fuga dos três novos amigos, Jim, Judy e Platão, para uma mansão abandonada, onde eles irão brincar de ser adultos.

Platão adormece e os outros jovens vão descobrir-se em outras partes da casa. Deixem que as crianças durmam, parece dizer Jim. Nesse ínterim, o grupo de Buzz encontra-os e persegue Platão, que tenta se defender da melhor maneira possível, atirando em um dos garotos, no seu medo desesperado por estar só novamente. Sente-se traído por Jim, que lhe abandonara, mas há claramente um sinal de ciúme por seu amigo ter saído com Judy para ficar a sós com ela. Platão foge para o Planetário, onde a sequência termina de uma forma trágica e expressiva.
Este filme é uma explosão de cores fortes expressas nas roupas verdes de Judy e nos lábios e jaqueta vermelhos. Algo que explode até mesmo em suas cenas noturnas. O exagero, neste caso planejado, reforça a dimensão dos sentimentos enervados e das situações extremas. Fato este que não funcionaria se o mesmo fosse rodado em preto e branco. A ação nos momentos finais é tensa e dinâmica, bem ao estilo de Ray. E não é difícil entender porque hoje, mais de 50 anos depois de lançado, ainda é referência para obras sobre a juventude. O final não é feliz, ele termina tal como começou. Uma referência ao passado que se partiu e a algo novo que está surgindo. Alguns não sobrevivem, alguns saem vivos, mas marcados para sempre. Algo como nossa própria vida e que ultrapassa até mesmo o sentido da juventude. Recentemente mostrei este filme para um grupo de adolescentes, que depois de se queixarem de que iriam ver um filme antiquado que nada lhes diria a não ser sobre a juventude de uma épca, me disseram ao final: tudo igual. Tudo exatamente igual ao que eles sentem e vivem hoje. A isso eu chamo de cinema clássico e eterno.


Publicado por Carla Marinho

7 comentários:

Meg disse...

James Dean: grandioso, intenso, forte, talentoso e para sempre eterno.

Leonardo Sbaraglia disse...

De verdad tu blog es la memoria viva del cine. Felicitaciones enhorabuena. Me encanta estar aquí.

Vinícius P. disse...

Um dos melhores filmes de todos os tempos!

Ricardo Steil disse...

Ambos os artigos fantástico! Gable e Dean foram grandes atores, cada qual a sua maneira. Parabéns mesmo. P.S.: adorei o site cinefilia (www.cinefilia.net). E estás muuuuuuuuuuuito linda nas fotos! Beijocas. Ricardo Steil

Carla Marinho disse...

hey, grande ricardo, de voltaaaa! quero mais textos seus. beijos

Anônimo disse...

Um filme que me deixou de queixo caído por ser tão bom. Apesar de antigo, consegue até hoje mostrar os problemas e conflitos dos jovens dos anos 50. Ah, escrevam alguma coisa sobre a Natalie Wood. Nossa, ela merece uma matéria aqui no purviance. Afinal, ela era uma diva.

Peter Shelton disse...

amo Juventude Transviada, vi pela primeira vez em 1997 ou 1998 no SBT
nos anos 50 era censura 18 anos, no fim dos anos 90 era censura livre

eh um filme fantástico, incrivel

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