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8.2.09

Carmen Miranda: a quem pertence a baiana?

Por Carla Marinho


Folheio o calendário e verifico que estamos na semana em que se comemora o centenário do nascimento de Maria do Carmo Miranda da Cunha, mais conhecida como Carmen Miranda, a portuguesa mais latina que se tem conhecimento. Latina porque ela acabou englobando um pouco de toda a cultura latina, numa grande salada de frutas. Termo, inclusive, bastante plausível, em se tratando dela. Os portugueses disputam a tapas a sua nacionalidade como sendo deles. E de fato, o é. Lá nasceu em 09 de fevereiro de 1909. É portuguesa de nascimento e certidão, a mesma com que embarcou para o Brasil ainda criança de colo e nos Estados Unidos anos mais tarde, já cantora consagrada. Mas é brasileira por ter sua família emigrado para o Brasil e aqui fincado raízes e trejeitos da nossa realidade. De Portugal o sangue. Do Brasil o sentimento. E se o local do nascimento não a define sentimentalmente como portuguesa, a sua caracterização como a brazilian bombshell, explorada por tantos anos nos Estados Unidos também não ajuda na sua definição como puramente brasileira. Então, fica a pergunta: a quem pertence, meu povo, a Carmen Miranda?

Carmen adotou esse nome para se apresentar pela primeira vez em um programa de rádio sem que seu pai percebesse. Tempos vigiados aqueles. O sucesso começou a tocar em sua porta depois que o compositor Josué de Barros a apresentou para a RCA, onde ela assinou um contrato para gravar o primeiro compacto que continha “Triste jandaia” e “Dona Balbina”. O encontro por acaso, com Joubert de Carvalho renderia o samba “Taí”, que seria seu primeiro grande sucesso. Pronto. A década seguinte seria sua. Para a RCA ela gravaria quase 300 canções que variavam entre sambas, marchinhas e músicas juninas. Músicas escolhidas por ela e com a dubialidade tão comum em nossas marchinhas, como pode ser verificada nos versos:

“Dizem que a vizinha tem um vidão / Mas que mora escondida num barracão / Rasga o jogo e o dinheiro voa / Não é vantagem, a vizinha é muito boa” (A vizinha das vantagens - Ary Barroso e Alcyr Pires Vermelho).

“Dorme filhinho do meu coração / Pega a mamadeira e vem entra no meu cordão / Eu tenho uma irmã que se chama Ana / De piscar o olho já ficou sem a pestana” (mamãe eu quero - Marcha De Jararaca E V. Paiva)

“O Tico-Tico ta, Tá outra vez aqui, O Tico-Tico tá comendo meu fubá” (Tico-tico – Abreu Gomes)

Carmen Miranda era nossa. Tão nossa que logo começou a aparecer em produções nacionais como Alô alô Brasil e na mais famosa delas, Banana da terra (onde aparece pela primeira vez com o traje de baiana). Sucesso no Cassino da Urca, shows agendados pelo Brasil e Argentina e logo chamou a atenção de um empresário americano da Broadway, Lee Shubert que lhe ofereceu um contrato. O bando da Lua, com o qual ela sempre cantara, ficaria de fora, mas Carmen pagaria do seu bolso o salário do grupo que a acompanhava melhor que ninguém. Em time que se ganha não se mexe, diz um velho ditado nosso.

Carmem Miranda era agora deles. Embarcou para os Estados Unidos em 1939, o ano que eclodiu a 2ª guerra e que também são lançados os melhores filmes do cinema, como E o vento levou, Ninotchka e O morro dos ventos uivantes. O charme de mal saber falar inglês, mas ter o carisma tropical logo lhe trouxe admiradores, muitos deles famosos. Faria uma temporada e retornaria ao Brasil, onde faria shows beneficentes e que só lhe renderam dores de cabeça e drama: diriam alguns que ela voltara americanizada. O show fora produzido às pressas e não havia tido tempo de mudar o que ela já vinha apresentando fora do país. Carmen cantara muitas músicas com letras inglesas. Vaias e mais vaias. Depressão e o retorno aos Estados Unidos onde o carinho do dinheiro e do povo aparentemente a aguardavam. Lá passaria mais de uma dezena de anos sem vir ao Brasil, ou por medo ou por falta de tempo ou por ambos.

Seus shows na Broadway faziam sucesso, e ela passou a ser requisitada de uma forma quase escrava, fazendo várias apresentações em uma só noite em diversos locais. O cinema logo lhe descobriria e seriam mais 13 participações em filmes, nunca como protagonista, mas sempre como a coringa alegre e de certa forma robotizada e de sentimentos sempre positivos. Em pouco tempo, Maria do Carmo estaria esgotada fisicamente e viciada em pílulas, cantando rumbas, sambas em inglês ou sendo apresentada como brasileira e falando espanhol.

Carmen Miranda era do mundo.

Sua personagem é marcante, é inegável. Dificilmente alguém olhará a imagem da baiana estilizada com flores, frutas, balangandãs e plataformas e não dirá que já a viu em algum lugar. Como também é inegável a grande contribuição que essa personagem deu a mitificação das nossas terras como sendo um paraíso de malandros que vivem de samba, água de côco, rumba e futebol. Isso, rumba. Rumba que é um ritmo cubano ou coqueiros que nestas terras vastas chegaram com os portugueses. O Brasil exportado como banana boa de comer, como “Merenda”, uma alusão minha a como eles pronunciavam o sobrenome de Carmen no “estrangeiro”. Eles digeririam melhor a nossa Miranda se ela fosse apresentada desta maneira.

Perguntávamos no início a quem Carmen Miranda pertencia, e acabamos chegando a uma resposta: a ninguém. Nem a ela mesma. Para os americanos era a prova de que aceitavam outros povos, numa política de boa vizinhança, algo que eles sempre fizeram com astros latinos (um por vez) e que fazem questão de caricaturar; para os brasileiros um sentimento que varia entre a mágoa invejosa por alguém que ultrapassou as barreiras do país e fez sucesso, chegando a ser uma das mulheres mais bem pagas da América, e a adoração, pelo mesmo motivo. Povo confuso somos nós.

Carmen era o produto de consumo, que começou a morrer quando foi colhido pelos Estados Unidos, 16 anos antes de ser enterrada no Cemitério de São João Batista, no Rio. Antes mesmo de se tornar o mito que hoje é, incomparável. Tão incomparável quanto é irreversível a busca por folhas que se espalham ao vento.

Carla Marinho

7 comentários:

Sônia disse...

A Carmen era um fenômeno de mulher. Uma criatura que venceu aos trancos e barrancos do salto. Divulgou o Brasil com toda a sua graciosidade e simpátia. Era sem dúvida uma pequena notável! Exótica e que fez a América sacudir o esqueleto. Ah, e não ficou no esquecimento. Até hoje é lembrada como uma das personalidades brasileiras mais admiradas na terra do tio Sam.

Sônia disse...

Desculpe!
Eu quis dizer que ela venceu seus desafios aos trancos e barrancos e não caiu do salto. Isso de entregar os pontos fazia parte da personalidade da Carmen. Uma brasileira como poucas! Infelizmente, só vi um único filme dela " O príncipe encantado", o qual fez ao lado da Elisabeth Taylor e da graciosa Jane Powell.

Ah, e por falar em pedido não se esqueçam do Alain Delon. Da matéria que eu pedi sobre ele.Afinal,ele será sempre um ator belíssimo e talentoso.

Sônia disse...

Desculpe! Corrigindo.

Eu quis dizer que essa de entregar os pontos não fazia parte da personalidade da Carmem. Deve ser este calor que está fazendo eu digitar errado! Mil perdões!

M. disse...

Ela era uma brasileira de alma. E merecidamente um dos ícones da nossa cultura. Ser portuguesa é só um pequenino detalhe. Ela brilhou e encantou o mundo. Beijos.

Sônia disse...

A Carmen era uma brasileira de corpo, alma e coração. Ela soube transmitir o que o povo brasileiro tinha de melhor para o mundo. É super legal esta homenagem sensível que o purviance está fazendo a esta grandiosa mulher. Parabéns pelo capricho das matérias e das fotos!

Carla Marinho disse...

opa, Sonia, esqueci nao. Semana que vem entra o Delon. Pode deixar.

Meg, ser portuguesa pra carmen é o que é ser baiana para mim que amo Recife: apenas um detalhe. falou tudo.
beijos

Moacy Cirne disse...

Minha cara, depois de longo tempo ausente de suas praias, eis-me aqui de volta, exatamente quando você homenageia - de forma merecida - Carmen Miranda. Tudo está mudado. Vejo também que você está com outro blogue (e outras novidades). Vou dar uma espiada nele. Espero não desaparecer mais de suas andanças cinematográficas.

Um beijo.

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