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2.2.09


Uma matéria interessantíssima que vi no Correio da Manhã, aqui o link original. Segue o texto:

O homem que pintava as estrelas

Crise é, por definição, um estado transitório. Desopilemos, falando da coisa mais fútil do Mundo: a maquilhagem. Vejamos a vida cor-de-rosa (o que não implica conversão gay em massa – aliás, eu passo!). O tema é sério: o Homem não morre apenas de fome, de frio ou de saudade – também de tédio. Precisa de diversão.

'Fulano mudou a face da História' – quantas vezes já ouviu isso? Mas o único que o fez LITERALMENTE foi Max Factor, um titã de metro e meio que revolucionou a face do mulherio. Quando morreu, em 1938, pintar a cara já não era prerrogativa de actrizes e cortesãs. Ah, julgava que ele era apenas marca de batom ou pó de talco? Não só existiu: teve uma vida que a Xerazade podia contar. Nasceu polaco e pobre. Aos 14 anos era o peruqueiro e maquilhador oficial da Ópera Russa, em Moscovo. Depois, tornou-se perito imperial em cosméticos, e viveu 10 anos numa gaiola dourada. Só lhe permitiam ir a casa uma vez por semana, por uma hora. Ainda assim, casou com uma vizinha (não dava tempo para procurar mais longe) e fez--lhe três filhos (decerto em rapidinhas). Teve um clique: maquilhou-se para se fingir de doente, balbuciou para o Czar 'olhe ali um elefante!' – e fugiu para os EUA.

Apostou na Sétima Arte, que ainda gatinhava, e ganhou. Convenceu realizadores de que a maquilhagem exagerada do teatro era como usar uma trincha na cara das divas. Criou cremes que não rachavam quando o actor ria. E foi tirando pombos da cartola. Pasmem com o que inventou: pestanas postiças, pompom para aplicar pó-de-arroz, uma base imune ao suor, maquilhagem à prova de água. Electrolisou a testa e as sobrancelhas de Margarita Cansino, transfigurando-a em Rita Hayworth. Para os galãs, a sua dádiva foram as perucas. Acredite ou não – mesmo nalguns dos filmes mais antigos –, o leitor nunca viu Fred Astaire, John Wayne, James Stewart, Gene Kelly, Humphrey Bogart ou Frank Sinatra sem capachinho. Desde o começo, eram todos carecas ou praticamente. Factor concebeu um tipo de peruca hiper-realista, de cabelo real. O galã podia pentear-se à vontade, receber festinhas passionais, mergulhar no Triângulo das Bermudas e confraternizar com um harém – a plumagem continuava natural.

As perucas só se tornaram ridículas em 1972, por causa do material sintético. Quando se trata de revolucionários, prefiro Max Factor a Lenine. Foi muito mais útil, sábio e benfazejo. Se estiver errado, pinto a minha cara de preto. Mas como estou certo, pinto o caneco.

Por Paulo Nogueira

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