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5.3.09

O ACTOR ENQUANTO ALMA ATORMENTADA


ANTÓNIO RODRIGUES

Marlon Brando. Uma nova biografia sobre o actor americano saiu recentemente nos EUA. Stefan Kanfer, antigo crítico de cinema da 'Time', prefere não chafurdar na bulimia sexual do actor e traçar o retrato de uma carreira que a angústia de um ego frágil mas excessivo se encarregou de minar desde o princípio Há uma dimensão profunda no jogo de palavras por trás do título da biografia de Stefan Kanfer sobre Marlon Brando impossível de traduzir em português. Somebody não é só "alguém", é também "um corpo". Por um lado, temos um ente indeterminado cujo corpo serve para moldar, para vestir e despir de personagens, para corporificar ideias, sentimentos, atitudes; por outro, há um quase sentido depreciativo numa palavra que é mais vaga do que significante, mais interrogadora ou exclamativa que assertiva na sua definição. E mesmo assim, Somebody é Brando como poucas palavras poderão ser.

Um actor que desprezava a arte que o fez ascender ao Olimpo (ecos da sentença paterna de que nunca na vida iria ser alguém); um corpo capaz de magnetizar mulheres e homens, público e elencos; um ser humano em eterna busca de si mesmo, atormentado por um ego imenso e frágil ao mesmo tempo - "como outros artistas inovadores", o génio de Brando "estava misturado com imensas falhas de carácter que mancharam as suas relações pessoais e profissionais".

"A angústia deste homem foi o que o catapultou aos cumes da sua vocação. Mas foi também a causa dos seus inúmeros erros privados e públicos, bem como a razão pela qual nunca deixou de tentar fazer alguma coisa pelo 'mundo' e pelos que nele sofrem", escreve Kanfer.

Longe da biografia de escândalos que é Brando mas Pouco, o livro de Darwin Porter editado em Portugal no ano passado (Pedra da Lua), cheio de pormenores escabrosos e centrado na sua caótica vida sexual (casamentos, amantes, mulheres, homens), Somebody - The Reckless Life and Remarkable Career of Marlon Brando (publicada no final do ano passado nos Estados Unidos pela Faber and Faber) procura explicar como a carreira de um actor que marcou a história do cinema se viu afectada pela sua atormentada personalidade, influenciada por um pai violento e uma mãe alcoólica e agudizada por um profundo sentimento de abandono.

Kanfer, antigo crítico de cinema da revista Time, autor, entre outros livros, de The Life and Times of Julius Henry Marx e Ball of Fire: The Tumultuous Life and Comic Art of Lucille Ball, é sério na sua abordagem, comedido nos seus comentários e sóbrio na forma como retira do carrossel biográfico do actor os exemplos certos para cumprir o objectivo a que se propõe: "O assunto deste livro é o tormento subjacente à arte de Brando, bem como a influência que esse tormento teve nas suas três carreiras: o fenomenal sucesso dos primeiros anos, a série de falhanços denegridos e a seguir o surpreendente renascimento antes de se desvanecer."

Em 80 anos de vida, Brando, "a primeira estrela sexualmente ameaçadora desde Rudolph Valentino", não foi capaz de viver senão de forma excessiva; eterno rebelde, extremamente independente, desrespeitoso da autoridade, sôfrego na comida e nas relações amorosas, em permanente busca de carinho, incapaz do calculismo necessário para ter a carreira que o seu talento prometera.

Desde o princípio da sua vida profissional que Brando "parecia determinado a minar o seu próprio caminho, uma determinação que se foi tornando mais perversa à medida que o seu estrelato aumentava", refere Kanfer a certa altura. Marlon vivia segundo o lema de complicar sempre aquilo que podia ser simples.

O actor, que tinha como ideal paterno o Victor McLaglen de A Patrulha Perdida, de John Ford - valente e curtido -, herdou da mãe a queda para a representação (Dorothy Pennebaker poderia ter tido uma carreira de actriz se o álcool e o ostracismo violento do marido lhe não tivessem transtornado a existência) e com o nome dela baptizou a sua produtora, a Pennebaker Productions.

Também de herança parental, uma personalidade narcísica e "uma fixação oral, comum a muitas crianças negligenciadas" que o levou a ingerir toneladas de comida que o transformaram nessa figura rotunda e propensa à chacota da segunda metade da sua vida - nas filmagens de A Revolta na Bounty, de Lewis Milestone, as suas calças tiveram de ser refeitas 52 vezes.

Se a mãe o trocou pela bebida e a governanta, Ermi, uma jovem indonésia-dinamarquesa que dormia com ele na cama, partiu para se casar sem lhe dizer que não regressava nunca mais. O trauma foi tão grande que, quase meio século depois, na sua autobiografia - Brando: As Canções que a Minha Mãe Me Ensinou (Temas da Actualidade) - confessou que o episódio o fez sentir-se abandonado. Essas marcas deixaram-no incapaz de manter uma relação monogâmica. Casou-se três vezes, sem nunca ter deixado de seduzir e deixar-se seduzir - por mulheres e homens -, multiplicando os casos e os filhos.

O seu testamento identifica um de Anna Kashfi (Christian), a primeira mulher; outro de Movita Castañeda, a segunda; dois de Tarita Teriipaia, a taitiana que conheceu na rodagem de A Revolta na Bounty (a outra filha, Cheyenne, suicidou-se em 1995); mais três de Maria Ruiz, outros dois de mãe desconhecida e mais uma filha adoptada, Petra, da sua assistente Caroline Barrett.

"Retratado como um palhaço pomposo, um pateta com demasiado dinheiro e carácter de menos", o talento de Brando deu apenas para deixar na história meia dúzia de filmes memoráveis: Há Lodo no Cais acima de tudo (que lhe valeu o primeiro Óscar); The Men, de Fred Zinnemann, a sua estreia; Um Eléctrico Chamado Desejo (a versão cinematográfica da peça de Tennessee Williams que Elia Kazan já dirigira no palco); Viva Zapata!, do mesmo Kazan; Júlio César, de Joseph L. Mankiewicz; O Padrinho, de Francis Ford Coppola, o segundo Óscar; O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci; e Assassino sob Custódia, de Euzhan Palcy, que em 1990 lhe valeu a última das oito nomeações que somou para as estatuetas douradas da Academia.

Fonte: DN Online

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