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23.1.10

Artigo do Rubens Ewald Filho sobre Jean Simmons

Carinho só. Adorei, e reproduzo aqui pra vcs.

Jean-Simmons-blog

Minha Amiga Jean Simmons

Sei que é pretensão chamar assim, porque afinal de contas, passei apenas uma tarde com ela. Mas agora chega a notícia do falecimento de Jean, aos 80 anos, devido a um câncer no pulmão, resultado de tanto fumar. Na verdade, ainda nos intervalos da conversa, ela puxava um cigarro escondido. Jean nasceu na Inglaterra, em 1929. Esses momentos roubados me deixam ainda mais triste. Mas Jean era uma senhora encantadora, trazendo ainda os traços de sua notável beleza. E de uma total delicadeza. Já vivia no bangalô confortável de Santa Mônica, onde morreu repleta de lembranças dos dois casamentos com Stewart Granger (que foi famoso astro de capa, tendo feito com ela A Rainha Virgem) e depois com o diretor Richard Brooks, a quem ela chamava de meu judeu louco. Ambos já estão falecidos (ela dava a impressão de nunca ter esquecido Brooks, com quem fez filmes memoráveis como Entre Deus e o Pecado (Elmer Gantry), com Burt Lancaster, e Tempo para Amar, Tempo para Esquecer, que deu a ela indicação ao Oscar).

Claro que tirei fotos com ela, que estão em minha casa e no livro, Eu e o Oscar, posando com a cachorrinha dela (assim que cheguei, sentei-me no chão, aos pés dela, e o bicho me adotou). E quem estava junto era justamente essa Judy que diziam ser sua agente, na verdade, era sua amiga e ex-stand in (ou seja, servia como dublê para posicionar luz, coisas assim). Pessoa de total confiança e que me dizia que Jean era tímida demais, não gostava de dar entrevista, nem de falar, escondendo-se atrás da falta de memória.

Mas só tenho boas lembranças. Vocês podem imaginar o que é para a gente poder conviver com alguém que foi teu ídolo de infância, e que estava logicamente tão distante. Depois conviver na casa dela, fuçar nas lembranças, ouvir confidências (ao final, como sempre, fiquei  de trazê-la ao Brasil, mas infelizmente essas coisas acabam morrendo no ar).

Embora o primeiro sucesso internacional de Jean Simmons tenha sido com o Hamlet, de Laurence Olivier, pelo qual foi indicada ao Oscar no papel de Ofélia, ela começou muito jovem em outros filmes memoráveis, como Grandes Esperanças, sendo trazida para os EUA por Howard Hughes para trabalhar na RKO. Mas foi com Samuel Goldwyn que fez o musical Eles e Elas (Guys and Dolls), já que também cantava bem, ao lado do amigo Marlon Brando e na Fox onde estrelou o primeiro filme em cinemascope, O Manto Sagrado. Também foi Desirée em O Amor de Napoleão, esteve em O Egípcio, em Da terra nascem os Homens, de William Wyler, foi substituir uma atriz alemã que nao deu certo em Spartacus, mais de Kirk Douglas do que de Kubrick. Alguma coisa a impediu, porém, de ser a superestrela que merecia (parece que durante uns tempos, ela teve problemas com o alcoolismo, mas para mim mencionou isso apenas de passagem). Logo já estava em papéis de amiga (Divórcio à Americana, com Debbie Reynolds, Do outro lado, o pecado, com Cary Grant) ou filmes que não deram certo, como O Direito de ser Feliz, de Mevyn Le Roy. Chegou a fazer A Little Night Music, cantando em Londres, e ganhou dois Emmys da tevê por Pássaros Feridos. Quando a encontrei, já não queria mais trabalhar. “Chega de falar de Jean”, disse. Sempre vou ter a lembrança carinhosa desta estrela de Hollywood, modesta, encantadora, ainda linda e que não decepcionou os sonhos de criança.

Rubens Ewald Filho

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Um comentário:

Magda Miranda disse...

Que lindo o que Rubens Ewald Filho falou dela!

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