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26.3.10

Heath Ledger, o mito acidental

Na era da comida-rápida, do dinheiro-rápido e do sucesso-rápido, um ícone também rápido: Heath Ledger, que recebeu uma nomeação póstuma para um Oscar pelo papel de Joker, é o actor de metade do último filme de Terry Gilliam, The Imaginarium of Doctor Parnassus.

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Diz-se que as estrelas também morrem. E mesmo quando isso acontece, deixam uma reminiscência de brilho que perdura por milhões de anos. As outras estrelas, as de cinema, largam, igualmente, um lastro de luz, que sempre emanará do cubículo do projeccionista. O actor Heath Ledger morreu há um ano (a 22 de Janeiro de 2008) e a sua chama foi mantida acesa por milhares de fãs (com ponto de encontro na Internet), até se atear o facho de uma nomeação póstuma, pelo seu papel de diabólico Joker, na última sequela de Batman.
Chamam-lhe o novo "Dean da era Internet ". A morte precoce, aos 28 anos, com uma carreira em Hollywood recém-inaugurada no ano 2000, inflacionou-lhe a notoriedade.

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Mais do que as suas excelentes interpretações (de cowboy gay, em Brokeback Mountain; de Dylan mutante, em Não Estou Aí, ou de Joker, em O Cavaleiro das Trevas)... Mais do que ele foi na vida pessoal e profissional... Mais do que a comovente homenagem na anterior cerimónia dos Oscars... Mais do que todos os tributos no YouTube, ou todas as web-páginas de homenagem... O brilho póstumo de Heath Ledger vem, sobretudo, de tudo aquilo que ele poderia ter sido, de todo o potencial perdido. Isso, sim, fez da sua morte um buraco negro, como aquelas queimaduras que ulceravam o celulóide antigo.

 


Não é fácil construir-se um mito em cima de personagens como as de um gay irresoluto ou de um vilão ultramaquilhado de boca transbordante. Mas há já quem ponha o pé na porta para o fazer entrar no estrito clube das lendas imortais, como Marilyn Monroe, James Dean, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrisson ou Kurt Cobain... O culto das estrelas mortas está sempre associado a fatais desenlaces súbitos, precoces e em circunstâncias misteriosas. Ser jovem, talentoso e bem parecido não basta. É preciso uma dose qualquer de enigma, uma bruma qualquer a pairar sobre a biografia. Ser um bocado excêntrico ajuda. Ter problemas com drogas também. Receber um Oscar póstumo ainda mais (até agora, só Peter Finch o conseguiu, em 1976). Ter um espírito torturado, um ar vulnerável e marginal, então, é meio caminho andado para a cano- nização no Olimpo das artes. Mas nesta ascensão astral, nesta hierarquia dos mitos, Ledger não é santo, ainda é beato. Resta saber se os fãs mantêm acesa a chama, e se o actor australiano consegue permanecer na lembrança e na iconografia, por mais de meio século, como aconteceu com Dean a morte atravessou-se-lhe no caminho, literalmente, a 30 de Setembro de 1955, numa estrada solitária, quando guiava o seu Porsche, a alta velocidade.
Monte dos Vendavais
Na verdade, a morte de Ledger foi mais cinematográfica do que a sua vida. A empregada e a massagista encontraram-no morto, por excesso de soporíferos, no seu apartamento do Soho... Logo se levantaram suspeitas e especulações, a consternação propagou-se pela Internet como um vírus, os paparazzi captaram o momento em que o corpo, envolto num saco preto, foi levado para a ambulância.
Não tinha o culto planetário de Marilyn, nem a aura de jovem rebelde de Dean, nem foi voz de uma geração como Cobain. Era simplesmente um actor talentoso, em progressão de carreira. A celeridade dos tempos exige mitos instantâneos. Certa comunicação social alimenta esta voragem.
Qualquer coisa que uma celebridade faça tem saída. Um espirro é notícia, um divórcio é um furo, um filho uma parangona...
Uma morte, então, assegura capas sucessivas.

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Visto de perto, ninguém é banal. E este actor também tinha o seu rastilho de incandescência. Os pais inspiraram-se no melancólico e vingativo Heathcliff, do Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, quando lhe escolheram o nome. Diz-se que mantinha uma relação tumultuosa com os paparazzi, o que lhe garantia a incoerente simpatia do mesmo público que o comprava em retalhos, nas páginas de revistas de fofocas. O seu namoro com Naomi Watts, o casamento e o divórcio da também actriz Michelle Williams (com quem formou um casal na ficção de Brokeback Mountain), de quem teve uma filha, foi tudo devidamente espiolhado. Na Austrália, o assédio era-lhe insuportável. Aí, iniciou a carreira de actor televisivo, em séries para consumo na Oceânia. Uma vocação testada ainda no liceu, porque, contou, era culinária a alternativa às aulas de teatro. O dealbar do século encontra-o já nos Estados Unidos, onde foi actor maior em filmes menores e actor menor em filmes um bocadinho maiores. A sua estrela começa a brilhar em 2005, quando Terry Gilliam o convoca para companheiro de aventuras de Matt Damon, em Os Irmãos Grimm, e Ang Lee para amante discreto de outro guardador de vacas, em Brokeback Mountain. Era precisamente com o ex-Monty Python Terry Gilliam que Ledger se preparava para compor o seu próximo personagem. A morte fez-lhe uma visita nocturna e sorrateira, no seu apartamento de Manhattan.
Antes sequer de se ter estreado o filme, já se anunciava que o seu era o melhor Joker da história do cinema. Que superava até Jack Nicholson. Não se imagina melhor marketing para um filme. Em Hollywood é assim, como no filme de Ford: quando a lenda se torna facto, publica-se a lenda.

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1997 - Blackrock 1999 - Two Hands 1999 - 10 Things I Hate about You 2000 - The Patriot 2001 - A Knight's Tale 2001 - Depois do Ódio 2002 - The For Feathers 2003 - Ned Kelly 2003 - O Devorador de Pecados 2005 - Lords of Dogtown 2005 - Os Irmãos Grimm 2005 - O segredo de Brokeback Mountain 2005 - Casanova 2006 - Candy 2007 - I'm not there 2008 - The Dark Knight 2009 - The Imaginarium of Doctor Parnassus

Post Original: http://aeiou.visao.pt/heath-ledger-o-mito-acidental=f552981

Um comentário:

Magda Miranda disse...

Poxa! Esse texto é magnífico!

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