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22.3.10

Última entrevista de Cary Grant

 

Essa última entrevista foi concedida por Cary Grant, quatro meses antes de sua morte, ocorrida depois de um derrame sofrido enquanto se preparava para se apresentar em um teatro em Davenport, Iowa. O jornalista se encontrou com o ator, que estava afastado das telas há mais de 20 anos.


KENT SCHUELKE: Qual foi a sua mais antiga ambição?
CARY GRANT : Eu não sei, acho que foi respirar... Eu não tinha uma  ambição definida. Primeiro nós temos que saber o que queremos antes de fazer. Eu não sabia. Bom, ao menos que você já saiba o que quer, queira ser um bombeiro ou jogador de futebol. Mas eu não tinha nenhuma dessas...


KS : E quanto à atuação?
CG : Eu não tinha ambição de atuar um dia.


KS : Eu entendo que, quando menino você sonhava em viajar em alto mar. Queria ser um marinheiro?
CG : Sim. Eu sonhava em viajar. Nasci em uma cidade – Bristol (Inglaterra) – onde havia grande fluxo de viagens. Era uma cidade muito antiga, e navios entravam e saiam todo o tempo a partir do porto. Eu estava sempre interessado nas pessoas que por lá passavam. E queria viajar como eles.


KS : Como você começou a atuar?
CG : Foi basicamente por causa de meu desejo de viajar. Juntei-me a uma pequena trupe de acrobatas. Com eles fui para Nova York. Eles retornaram para a Inglaterra e eu fiquei. Gostei daqui (Estados Unidos). Gradualmente comecei a fazer espetáculos musicais. Fiz muitos antes de chegar ao cinema.


KS : Os jovens que não eram sequer nascidos quando fez o seu último filme estão descobrindo agora seus clássicos. O que você acha sobre isso?
CG : Eu acho que eles têm uma longa vida pela frente. Eles vão fazer suas próprias escolhas. Espero o melhor para a próxima geração, mas não vejo muitas esperanças. Todos se queixam deste século, para onde ele está caminhando. Não sei o que os jovens pensam ou não, só ouço a emanação de seus pensamentos: rock e muito barulho. Mas se isso os faz felizes, tudo bem – desde que longe de mim.


KS : Como você se vê?
CG : Como posso me ver? Nós somos o que somos na opinião dos outros. Cabe a eles nos avaliar, pensar como somos. Só posso me ver como um homem de 82 que se mantém em funcionamento. Eu faço o melhor que posso, nas circunstâncias em que me encontro.


KS : Como você gostaria de ser lembrado?

CG : Hum… como um sujeito simpático que não se deixa abalar, suponho.


KS : A sua vida está relativamente tranquila nestes dias?
CG : Eu vivo muito calmamente - mas o que se esperar de um homem da minha idade?


KS :É assim que quer viver o resto de sua vida, silenciosamente, em Beverly Hills?
CG : Eu não sei quanto tempo vai ser - "o resto da minha vida" - mas eu aprecio o que estou fazendo e, claro, vou viver a minha vida aqui ao menos que alguma mudança extraordinária de repente ocorra. Se eu não gostasse de viver em Beverly Hills, então eu iria me mudar - eu posso dar ao luxo de fazer isso.


KS :Qual é a coisa mais difícil de ser Cary Grant, a estrela de cinema?
CG : Eu não considero difícil ser eu. A única coisa que eu desejo é que o público não me persiga. Há uma repetição constante de pessoas que se aproximam de mim para pedir autógrafos ou qualquer outra coisa idiota. Essa é a única coisa que eu não gosto nesse negócio.


KS : Há muitos fãs que se aproximam de você hoje em dia?
CG : Isso acontece, mas não tanto quanto para um Robert Redford ou algum jovem mais popular de hoje. Chega a ser um furo.


KS : Tem havido muitos encontros interessantes com seus fãs?
CG : As pessoas que eu mais gostaria de encontrar são as pessoas que são menos suscetíveis de vir até mim.


KS : Você é acessível aos seus fãs? Como você interage com eles?
CG : Eu não me importo nem gosto de falar para os meus fãs. Eu não sou rude. Eu tento ser o mais simpático que puder quando alguém surge ao meu lado durante algum jantar para me perguntar o que eu acho de determinada atriz. Mas eu não posso responder a todos. Nem às cartas. Recebo dois sacos de cartas por dia. Não consigo dar conta.

KS : Estudantes de cinema gostam de analisar seus filmes. Acha certo estudar filmes que foram feitos estritamente para o entretenimento?

CG : Ah, sim. Um filme é um filme. Quando as pessoas se estressavam nos sets, Hitch (Alfred Hitchcock) dizia: “relaxem, camaradas! É apenas um filme”. Agora, se você deseja cortar o filme em pedaços pequenos para analisar, aí é com você. Nós fizemos ele. Para nós era somente um veículo de diversão e para atrair pessoas para as bilheterias.


KS : Quais são as suas memórias do trabalho com Alfred Hitchcock?
CG : Eu tenho apenas lembranças felizes. Os filmes estão vivos porque todos eles foram interessantes. Foi uma grande alegria trabalhar com Hitch. Ele era um homem extraordinário. Lamento esses livros idiotas escritos sobre ele, quando o homem não pode defender-se. Mesmo se você se defender contra esse tipo de literatura, não leva a lugar algum.


KS : Você trabalhou com algumas das atrizes mais amadas da história do cinema. Qual foi a melhor atriz com quem você trabalhou?
CG : É, eu trabalhei com várias delas. Mas, na minha opinião, a melhor atriz com quem eu já trabalhei foi Grace Kelly. Ingrid [Berman], Audrey [Hepburn], e Deborah Kerr foram esplêndidas, atrizes esplêndidas. Mas me senti imensamente relaxado com Grace Kelly. Sua mente era uma navalha afiada. Apreciei isso. Não é uma profissão fácil, apesar do que muita gente pensa.


KS : Foi decepcionante para você quando Kelly deixou de atuar para se casar com o príncipe Rainier?
CG : Ela estava incrivelmente bem. Era uma mulher notável em todos os sentidos. E quando ela parou, parou porque quis.


KS :: Como foi trabalhar com Katharine Hepburn?
CG : Maravilhoso. Eu trabalhei com ela cinco vezes. Alguém não faz algo que não gosta mais de uma vez. Ao menos que você seja um idiota.


KS :  Na década de 1950, você anunciou que estava se aposentando dos filmes. A aposentadoria foi curta, mas o que fez você querer desistir dos filmes no auge da sua carreira?
CG : Eu estava cansado de fazer filmes.


KS : Como seus amigos e colegas reagiram à sua decisão?
CG : As pessoas dizem que todos os tipos de coisas. Eu desisti porque eu cansei naquele ponto da minha vida. Eu não tinha idéia se ia continuar minha carreira ou não. A última vez que eu saí, eu sabia que não ia retornar. Gostei muito da profissão, mas eu não queria voltar.


KS : Tem alguém na indústria cinematográfica já lhe disse que seu trabalho tem influenciado os filmes que eles fizeram?
CG : Muitos, muitos, se eles acham que você fez algo melhor que eles hoje em dia, dizem isso.


KS : Como você responde às críticas de que você nunca atuou, e que apenas retratava a si mesmo nos filmes?
CG : Bem, quem mais eu poderia retratar? Eu não posso retratar Bing Crosby; Eu sou Cary Grant. Estou me nesse papel. A coisa mais difícil é ser você mesmo - especialmente quando você sabe que vai ser visto por 300 milhões de pessoas.


KS : E sobre as pessoas que dizem que você deve ter ampliado seu repertório para incluir mais "caráter" nos seus papéis?
CG : Eu não me importo com o que as pessoas dizem. Eu não levo os críticos em consideração. Não há nenhum ponto: Você fez o filme, ele é feito e se eles querem criticá-lo. Eu não presto atenção ao que dizem - exceto, talvez, o que dizem os diretores, o produtores e meus colegas atores.


KS :Você acha que essas pessoas interpretam o que você estava tentando fazer?
CG : Eu não tenho nenhuma preocupação com o que pensam. Não tenho como interferir no que qualquer um pense ao meu respeito. Não me importo. Não tenho nada a ver com isso, e também não  posso controlar seus pensamentos.


KS : Você tem um filme favorito?
CG : Não. Eu fiz todos eles com um propósito. Às vezes eu esperei melhores resultados. Às vezes fiquei surpreso com eles.


KS : Por que você abandonou as telas nos anos 60?
CG : O cinema tornou-se cansativo para mim. Eu não sei o quanto mais eu poderia ter melhorado a partir daquele momento. Era a hora.

Post original retirado do site http://cinemaclassico.com

Um comentário:

M. disse...

Pense numa entrevista sincera. Gostei muito. Principalmente os trechos destacados.

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