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1.4.10

Ilha do Medo já é o filme do ano, diz crítico

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André Setaro/De Salvador (BA)

1) "Ilha do Medo" ("Shutter Island"), de Martin Scorsese, já desponta, ainda neste alvorecer de 2010, como um dos melhores filmes do ano. Cinema puro, exercício de 'mise-en-scène', nele, a realidade e a fantasia inconsciente se misturam de maneira indissociáveis. É a narrativa que determina o conteúdo de "Shutter Island" ou, melhor, é a forma pela qual o diretor maneja os elementos da linguagem cinematográfica que configura o discurso cinematográfico e sua semântica, a sua significação. A produção de sentidos, em "Ilha do Medo", decorre, portanto, da 'mise-en-scène'.


2) O crítico José Geraldo Couto define bem "Ilha do Medo", quando escreve: "Com base no romance de Dennis Lehane (o mesmo de "Sobre Meninos e Lobos"), lançado aqui primeiramente como "Paciente 67" e agora reeditado com o título do filme, Scorsese entrelaça o tema hitchcockiano da culpa ao tema languiano (de Fritz Lang) da vingança. Quem assistir ao filme verá que, curiosamente, uma dessas linhas de força (a culpa ou a vingança) "briga" com a outra não apenas como móvel da ação, mas como modo de construção da narrativa e do próprio mundo descrito". 3) Ainda Couto: "Explicando melhor: o protagonista Teddy Daniels age movido pelo desejo de vingança ou pelo sentimento de culpa? Cada uma das alternativas implica um modo diferente de distinguir, no filme, o que é "realidade" e o que é alucinação.
4) Martin Scorsese é um cineasta que provocou a renovação temática e estilística do cinema americano a partir dos anos 70, principalmente com "Taxi Driver" (1975). Mas não tem a grandeza de um Francis Ford Coppola, por exemplo, autor de uma das maiores obras da história do cinema, que é "O Poderoso Chefão" ("The Godfather", 1971, 1974, 1989). Não sou de achar um filme melhor do que o outro, falo da trilogia "The Godfather", porque, na minha opinião, os três "chefões" formam um "corpus" único. Mas Scorsese tem obras brilhantes além de "Taxi Driver", a exemplo de "O Touro Indomável" ("Raging Bull"), "Os Bons Companheiros" ("The Good Fellas"), entre outros. Mas também tem seus momentos de fraqueza, e diria mesmo de anemia, como é o caso de "Gangues de Nova York", "Depois das horas", "O Aviador". Incluo entre os meus preferidos de Scorsese, "O Rei da Comédia" ("King of Comedy"), com um Robert DeNiro (ator preferencial do diretor antes de Leonardo DiCaprio) como um fã obcecado por Jerry Lewis (que trabalha no filme como ele mesmo) e que quer porque quer aparecer, um dia, no seu programa televisivo.
5) Como não consegue convencer o comediante, DeNiro resolve sequestrá-lo e, com isso, acaba por substituir Lewis em seu programa. "King of Comedy" foi realizado em 1982 e é um filme singular na carreira de Scorsese, ainda que não seja muito citado, bem apreciado.
6) "Ilha do Medo" faz redivivo o Scorsese de outros tempos, pois o filme é cinema puro, pura 'mise-en-scène', prova contundente de um artista maduro e com domínio completo de sua arte. Além do mais, Scorsese é um profundo conhecedor e admirador do cinema clássico, que soube absorvê-lo para subvertê-lo em suas linhas gerais. Para se fazer um filme como "Ilha do Medo", é necessário que se tenha base referencial e conhecimento de causa. Há, nítidas, influências, de Samuel Fuller (lembra bem "Paixões que alucinam"/"Shock corridor", 1963), as constantes temáticas de Fritz Lang e de Alfred Hitchcock, mas as influências são amalgamadas num estilo próprio. "Shutter Island" consagra Martin Scorsese como um dos grandes realizadores contemporâneos, que celebra, aqui, o próprio cinema, assim como Alain Resnais, no maravilhoso "As ervas daninhas"/"Les Herbes Folles" tem a estrutura narrativa do específico fílmico como a mola propulsora de seu espetáculo.
7) No cinema de Scorsese, estão presentes sempre (ou quase sempre) indivíduos problemáticos que ficam à margem da sociedade organizada. Seus primeiros filmes são exemplares neste sentido, como "Caminhos Perigosos" ("Main Streets") e "Sexy e Marginal" ("Boxcar Bertha"). É um universo que se estabelece à margem do meio social, do "status quo", constituído por pessoas que se moldam na rebeldia. O desequilíbrio mental é também uma constante como se pode ver no personagem de DeNiro em "Taxi Driver" (e seu final devastador e sanguinário) ou no que encarna em "O Touro Indomável", um boxeador doente pelo ciúme obsessivo em relação à sua mulher. E o que dizer do próprio DeNiro, idéia fixa em relação ao programa de Jerry Lewis? Ou o Howard Hughes interpretado por Leonardo DiCaprio em "O aviador"? Em "Ilha do Medo", porém, o desequilíbrio se encontra plasmado na própria 'mise-en-scène', havendo, inclusive, momentos, que podem parecer erros de continuidade, mas nada mais são do que reflexos oníricos para estabelecer a ambigüidade do que seja real.
8) O que é realidade? O que é fantasia? Scorsese embaralha as percepções e não faz concessões a uma separação nítida. Assim como em "Spider", que David Cronenberg realizou em 2001, com Ralph Fiennes, que faz o papel de um indivíduo esquizofrênico, em "Shutter Island", a ação se localiza em 1954, quando um homem (Leonardo DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente do Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. No local vem a descobrir, estupefato, que os médicos realizam experiências insólitas envolvendo métodos ilegais e antiéticos. Penso em "Paixões que alucinam" ("Shock corridor", 1963), de Samuel Fuller, vigoroso cineasta americano, que, neste filme, mostra a que ponto pode chegar a ambição de um jornalista que, para ganhar o Pulitzer decide se fingir de louco para entrar num hospício e descobrir, nele, um crime. Acontece que o jornalista acaba se envolvendo com a 'loucura' reinante e termina por ficar literalmente louco.
9) Em "Shutter Island", DiCaprio luta pela obtenção das informações necessárias para que o caso possa ser elucidado, mas tem todas as portas trancadas. Um furacão deixa a ilha deserta e propicia a fuga de prisioneiros. DiCaprio entra em crise. O 'cast' é muito bom. DiCaprio que, a princípio, não passava de um rosto bonito, tem se revelado um ator consistente. Ben Kingsley, o eterno Gandhi, soube ser desvencilhar deste personagem e é sempre um intérprete muito correto. O mais impressionante, contudo, é a performance do bergmaniano Max Von Sydow cujo papel, como um dos médicos, é impressionante.
10) "Ilha do Medo" é um filme altamente recomendável para aqueles que gostam de cinema e não se limitam ao interesse apenas pela trama. A ver obrigatoriamente.

Post original retirado de http://gazetaweb.globo.com

Um comentário:

ALESSANDRO SKYWALKER disse...

verdade seja dita, aquele final surpresa nem sequer é novidade na história do cinema, pior foi aguentar por longos minutos os personagens explicando o final surpresa como se a gente tivesse 5 anos de idade

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