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13.5.10

Lena Horne a diva dos direitos civis

(gente, estou totalmente sem tempo. QUeria ter escrito algo sobre a Lena Horne, que nos deixou essa semana, mas não pude. Deixo com vocês um texto muito bom, publicado no Estadão, sobre a diva:

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Lena Horne a diva dos direitos civis

Morre a cantora que, ao lado de Ella, Billie e Sarah, revolucionou arte da canção

11 de maio de 2010 | 0h 00

- O Estado de S.Paulo

Nomeada doutora honoris causa pela Universidade Yale, em 1998, Lena Horne era uma escola em si. Fosse cantando o sincopado jazz, com o assombroso alcance de sua voz; ou atuando na Broadway, onde foi estrela de primeira grandeza (ganhou um Tony, em 1981, por The Lady and Her Music); ou ainda escancarando as portas de uma renitente Hollywood, ela enfileirou gerações de seguidoras. "Não haveria Hale Berry, nem Angela Bassett, nem Cicely Tyson se não fosse Lena Horne", disse a cantora Dee Dee Bridgewater.

Lena morreu domingo em Nova York aos 92 anos. Nascida Lena Calhoun Horne em 30 de junho de 1917, atravessou o século 20 desafiando regras e parâmetros do show biz e da sociedade americana. Foi a primeira sex symbol negra do cinema (há quem discorde, preferindo apontar o nome de Josephine Baker) e, ao se casar com o compositor e arranjador branco Lennie Hayton, em 1947, conseguiu entupir sua caixa de correspondência com cartas ameaçadoras e obscenas.

Em 1997, quando completou 80 anos, ela recebeu uma homenagem especial do JVC Jazz Festival. O Lincoln Center ferveu: Bobby Short, Sidney Poitier, Miss Peggy Lee, Cyd Charisse. Humilde, Lena subiu ao palco e disse que nunca se considerou grande cantora. Apenas assumia que tem um certo carisma para lidar com as plateias. Meio retirada de cena, já gastava parte do seu tempo cuidando dos seus cinco netos.

No cinema, após a estreia no filme Uma Cabana no Céu (Cabin in the Sky), de Vincente Minelli, Lena Horne ajudou a quebrar preconceitos impondo seu estilo e orgulho black em filmes que ainda não admitiam estrelas negras. Era uma época em que brancos e negros não podiam aparecer cantando, dançando ou se beijando numa mesma cena. Atuou ainda em Tempestade de Ritmos, de 1943, e outros nove filmes nos anos 40, entre os quais A Filha do Comandante, Ziegfeld Follies, Quando as Nuvens Passam e Minha Vida É uma Canção. Politizada, ajudou mais tarde a criar a Sociedade dos Cantores, entidade beneficente que luta em prol dos músicos em apuros financeiros e em idade avançada.

Lena era mulata, e sua pele clara impedia-a até de beijar outros atores negros nos filmes. Eles eram muito mais escuros e alguém na plateia poderia pensar que era um beijo entre uma branca e um negro. Para remediar isso, a Metro encomendou a Max Factor uma maquiagem para escurecer Lena. Factor criou o creme "light Egyptian n.º 5", depois muito usado em atrizes brancas que tinham de se passar por mestiças. Quando a Metro refilmou O Barco das Ilusões (Show Boat) em 1952, o papel de Julie, a branca de sangue negro (que Lena queria mais do que tudo na vida), foi-lhe negado e acabou indo para Ava Gardner - maquiada com o "light Egyption". E, então, Lena esqueceu o cinema e concentrou-se nos discos e nas boates.

Nos anos 40 e 50, ela enfrentou grandes hostilidades por suas posições libertárias e afirmativas. Não só por causa do racismo, mas também por suas atitudes políticas. Sua amizade com o cantor Paul Robeson, perseguido pelo macarthismo, fez com que ela ficasse sete anos na lista negra da televisão, só quebrada em 1959, quando Frank Sinatra a levou a seu programa. Sua beleza, dizem muitos, era uma das principais armas, mas também a altivez, a inteligência, a imensa segurança e o jeito cortante de interpretar músicas doloridas, como Stormy Weather ou One for My Baby.

A Metro Goldwyn Mayer contratou-a por sete anos em 1942 (foi a primeira artista de sua cor a fazer contrato desse tipo). Louis B. Mayer, chefão do estúdio, a queria contracenando com Clark Gable nos filmes. Mayer, no entanto, não pode escalá-la por causa das pressões racistas da época, mas sustentou o contrato de Lena durante sete anos. Ao cantar para as tropas americanas na 2ª Guerra e vendo os soldados negros empoleirados no fundo da caserna, Lena atravessou o auditório branco e foi cantar primeiro para eles. Isso motivou sua retirada do front.

Lena não se deixava intimidar. Certa vez, em Las Vegas, os empregados do Hotel Sands, onde fazia temporada, esvaziaram uma piscina para impedir que sua filha entrasse nela. Os hotéis de Las Vegas eram um Eldorado para os artistas negros - mas, terminado o show, eles tinham de desaparecer do recinto e ir dormir no bairro negro. Lena passou a boicotar a cidade, recusando-se a aceitar trabalho ali.

O escritor e ensaísta Ruy Castro escreveu uma vez que ela era "negra, linda e inacessível". Segundo David Baker, professor de música na Indiana University, ela também se colocou num lugar especial onde os negros podiam vê-la como uma heroína, "numa época em que os negros precisavam de heróis".

Filha da burguesia negra do Brooklyn, o pai era amante de música erudita, e a avó era ativista política. Exercia papel de liderança e era grande amiga de nomes fundamentais da música e da política. Em 1967, ela enfrentou uma série de tragédias pessoais: primeiro, morreu seu melhor amigo, Billy Strayhorn; depois, o pai e, finalmente, o filho, Hayton, de apenas 29 anos.

"Eu comecei a mudar quando todo mundo passou a me deixar, quando eu me dei conta que o pior que poderia me acontecer é que eu estava sobrevivendo", disse a cantora na época. Passou a viver no Upper East Side, afastando-se raramente para homenagens e condecorações. No ano passado, foi publicada Stormy Weather: The Life of Lena Horne, de James Gavin, a sua biografia em 608 páginas.

No lançamento, quando um jornalista perguntou se, após o desaparecimento dela, de Billie, de Ella e de Sarah, nunca mais o grande jazz seria ouvido, ela respondeu. "É um elogio, mas não estou certa de que sou a última. Eu certamente espero que não."

"A mais fantástica performer a subir nos palcos da Broadway em anos", observou a Newsweek. "O alcance de sua voz, a energia, originalidade, humor, raiva e inteligência são algo para jamais ser esquecido", assinalou Walter Kerr no New York Times.

DISCOGRAFIA

Stormy Weather: The Legendary Lena (1941-58)
Parcerias com Artie Shaw, Charlie Barnet e outros na fase mais fértil da carreira. Bluebird Records.

Lena Horne at Metro-Goldwyn-Mayer: ain"t the Truth.
Uma síntese das participações da cantora como atriz em seus filmes-chave. Rhino Records.

An Evening With Lena Horne
Show ao vivo, que ganhou um Grammy (melhor cantora de jazz). Blue Note Records.
Lena Horne: We"ll Be Together Again
Artistas e Lena se revezam na homenagem a Billy Strayhorn, o melhor amigo da cantora. Blue Note.

Lena Horne & Gabor Szabo.
Dueto com o guitarrista Szabo, trabalhando versões novas, especialmente do compositor Burt Bacharach. El Records.

FILMOGRAFIA

Uma Cabana no Céu (foto)
(Cabin in the Sky, 1942). Direção de Vincente Minelli. Com Ethel Waters.

Loirinha do Panamá
(Panama Hattie, 1942). Direção de Norman Z. McLeod. Com Red Skelton e Ann Sothern.

Viva a Folia
(Broadway Rhythm, 1944). Direção de Roy Del Ruth. Com George Murphy e Ginny Sims.

Só Matando
(Death of a Gunfighter, 1969). Direção de Don Siegel. Com Richard Widmark.

O Mágico Inesquecível
(The Wiz, 1978). Direção de Sidney Lumet, com Michael Jackson e Diana Ross.

Materia retirada do site: www.estadao.com.br

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